Tuesday, September 13, 2011

Lado A (ou a factualidade no que, me, concerne relativamente ao espectáculo "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant")

Na semana em que estreia no Teatro Nacional D. Maria II o espectáculo “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant” cabe-me, por me sentir lesado, apresentar publicamente a minha versao dos acontecimentos. Isto sucede porque esse projecto foi originado por mim, na condição de seu encenador, com a actriz Custódia Gallego iniciado e desenvolvido, e assim apresentado à Direcção artística e Conselho de Administração do citado teatro.

No decurso da efectivação do projecto fui, surpreendemente, do mesmo afastado e todos os organismos implicados, inclusivamente a DGArtes, se desresponsabilizaram no que ao defender a minha legitimidade/direito disse respeito.

Ainda é com estupefacção que encaro toda esta situação e ao tornar pública toda esta trama (sucessão de eventos) exerço o que me parece ser o meu direito enquanto cidadão e artista e a minha obrigação (no seu mais civico sentido), ao denunciar um caso, que me parece bastante claro, de prepotência, abuso de poder e falta de ética artística, profissional e institucional.


Para que a compreensão desta narrativa seja efectiva e clara apresento, assim, a cronologia dos factos como eles me foram a mim reais e apresentados.

Cronologia dos acontecimentos relativos ao meu projecto de encenação da peça “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”:


- Março de 2010:


Contacto Custódia Gallego para averiguar a disponibilidade e interesse dela em integrar, como protagonista, um projecto que eu me propunha desenvolver como encenador e director artístico.


Projecto: Adaptação teatral da obra - "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" de Rainer Werner Fassbinder (em Portugal a peça encontra-se editada pelas Edições Cotovia, com tradução de Yvete K. Centeno).


- Custódia Gallego aceita participar. É ainda nessa altura, e durante uma primeira reunião entre nós os dois realizada, assumido que o projecto será da responsabilidade de ambos e que ambos nos esforçaremos para o concretizar e reunir equipa. Assim, Custódia Gallego responsabiliza-se por contactar uma entidade produtora e uma pessoa que assuma a função de produtor, assim como apresenta os nomes de duas actrizes que exige que componham o elenco. Eu fico responsável por contactar outra entidade produtora, pela definição do resto do elenco (mais três actrizes) e constituição da equipa artística (sugerindo e determinando, logo nessa altura, quais os profissionais que se encarregariam da cenografia e figurinos). O profissional para assumir o cargo de Designer de Luz fica ainda por determinar.

- Abril de 2010:


- Entra para o projecto Alice Prata (colaboradora da companhia de teatro portuense: Teatro do Bolhão) na qualidade de produtora. Alice Prata vem a Lisboa e tem uma reunião comigo para me conhecer, definir estratégia de produção e definir equipa.

- Maio de 2010


- A equipa é fechada e fica definido que a companhia Teatro do Bolhão será a entidade produtora do projecto.


- Custódia Gallego sonda o director artístico do Teatro Nacional D. Maria II, Diogo Infante, relativamente ao interese que este e a instituição que representa terão em acolher o projecto. O parecer é favorável. É solicitada a entrega de uma proposta formal.


- Setembro de 2010


- É entregue um projecto/proposta formal de co-produção ao Teatro Nacional. Nessa proposta é definido que o Teatro do Bolhão é entidade produtora, e este apresenta um orçamento; eu redijo uma nota de intenções onde me apresento, defino o que me levou a fazer o projecto, porquê e exponho as minhas intenções enquanto encenador e director artístico do mesmo. Nesse projecto é apresentada a equipa definitiva; são incluídos dois novos elementos/funções: Designer de Luz (cedido pelo Teatro do Bolhão que, assim, firma a sua participação como entidade co-produtora, suportando os encargos relativos a honorários do mesmo) e um assistente de encenação (por mim solicitado e nomeado). Nessa proposta é determinado, igualmente, que o espectáculo terá, após a estreia e carreira no Teatro Nacional, uma outra carreira de duas semanas no Porto, no Teatro do Bolhão, em data ainda a definir (mas é apontado o mês de Dezembro de 2011 como possibilidade).


- Outubro de 2010


- O Teatro Nacional aprova o projecto e comunica essa decisão. Fica definido que o espectáculo estreará, e terá primeira carreira, na Sala Estúdio do Teatro Nacional (data de estreia: 15 de Setembro de 2011 e última apresentação a 23 de Outubro do mesmo ano) e que os ensaios se iniciarão, na mesma sala, no dia 01 de Agosto de 2011.


- O Teatro Nacional D. Maria II compromete-se a ser a principal entidade co-produtora e, assim sendo, financiará o projecto com a 30.000 euros; é proposto, por Diogo Infante, que se integre no elenco a actriz Paula Mora (actriz que pertence aos quadros/elenco fixo deste teatro).


- Há uma primeira reunião alargada do projecto; essa reunião tem lugar no atelier da cenógrafa por mim angariada (Luísa Pacheco) e estão presentes, além da mesma, eu, Custódia Gallego, o assistente de encenação (que posteriormente, por razões pessoais, saiu do projecto) e Alice Prata. São definidas as estratégias de trabalho e de articulação de esforços.


- Dezembro de 2010


- O Teatro do Bolhão submete a sua candidatura à DGArtes para o concurso de atribuição de Apoios Anuais 2011 e Apoios Bienais 2011-2012. Na programação apresentada o projecto "As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant" é incluído e eu consto como encenador do mesmo. É ainda entregue um documento oficial, assinado pela Presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II, Drª. Maria João Brilhante, que comprova a co-produção e redefine que a verba a atribuir por esta instituição é 35.000 euros; eu, obviamente, consto como encenador do projecto nesse documento.


- Janeiro de 2011


- DGArtes publica, a 19 de Janeiro, a decisão final de atribuição de apoios. A candidatura do Teatro do Bolhão é admitida e apoiada.


- Fevereiro de 2011


- Ocorre uma reunião, no dia 19 de Fevereiro, no Teatro Nacional, onde estão presentes: eu, Custódia Gallego, Alice Prata, José Carlos Gomes (Designer de Luz), Isabel Ruth (actriz), Luísa Pacheco (cenógrafa) e Tânia Franco (figurinista). Nessa reunião há uma apresentação das pessoas que ainda não se conheciam e a equipa de criativos e eu discutimos assuntos relativos à concepção plástica do espectáculo. É apresentada pela cenógrafa uma proposta de cenografia (que elaborou em função de sessões anteriores de trabalho entre nós tidas e da pesquisa que ambos tínhamos vindo a desenvolver).

- Março de 2011


- É solicitada uma reunião por Alice Prata com a produção do Teatro Nacional e o Director Artístico Diogo Infante. É marcada a reunião e Diogo Infante solicita a minha presença para me conhecer pessoalmente. É proposto pela direcção artística do Teatro Nacional que a carreira do espectáculo no mesmo se estenda por mais duas semanas (até 06 de Novembro de 2011) em virtude das boas expectativas que o mesmo oferece e qualidade do elenco e projecto. São contactados todos os elementos envolvidos e o parecer de todos é favorável.


- 21 de Março:


- Ás quinze horas é tida uma reunião no gabinete de Diogo Infante. Estão presentes, além do mesmo, eu, Alice Prata, Custódia Gallego, Carla Ruiz e Manuela Pereira (estas últimas são as directoras de produção do Teatro Nacional). Diogo Infante, no início da reunião, solicita-me que, terminada a mesma, fiquemos a sós para que possamos conversar um pouco sobre mim e o projecto. Na reunião ficam como datas definitivas da carreira do espectáculo: 15/09/2011 a 06/11/2011. São definidos compromissos de produção para constar no futuro protocolo de co-produção e alinhavam-se datas de entrega de projectos de execução de cenários e figurinos (que serão construídos no teatro); é solicitada uma sala de ensaios para ensaios ainda anteriores à data definida. Assim, é dada a confirmação de que os ensaios iniciarão, agora, a 01 de Julho de 2011 no mesmo teatro. No fim da reunião, Diogo Infante solicita que eu permaneça na sala e que Custódia Gallego também o faça. Pede-me para falar um pouco de mim, quando o começo a fazer somos interrompidos (ou sou interrompido) pelo Assessor de Comunicação, Rui Calapez, que congratula Custódia pelo seu aniversário e imprime à ocasião um carácter descontraído e informal (que entretanto permanence; ao ponto de Diogo Infante comer uma maçã enquanto me exponho). Rui Calapez sai da sala, eu continuo a falar um pouco sobre o meu percurso e como chego ao projecto. Diogo Infante pede-me que fale um pouco do que já tenho previsto para o projecto, eu faço-o mas não me alongo porque ele me interrompe dizendo estar esclarecido. Pergunta-me se já alguma vez dirigi actrizes de tal gabarito. Ao que respondo que tantas de uma vez não mas que isso não me assusta (até porque fui eu quem decidiu, em última análise, aprovar e dirigir esse elenco). Após isso, dá-me as boas-vindas e refere que posso contar com ele para o que precisar durante a execução do projecto. "A minha porta está aberta", disse-me. A reunião termina.


- 22 de Março


- Custódia Gallego telefona-me e informa-me que Diogo Infante não ficou seguro com a reunião do dia anterior e que decidiu afastar-me do (meu próprio) projecto. Segundo ele, eu não fui suficientemente feroz a defender o meu projecto (convém referir que, para mim, a reunião anterior não tinha qualquer carácter de prova ou defesa da minha parte porque nunca sequer imaginei que, decorrido todo este caminho, a minha permanência no meu próprio projecto fosse questionável), Comunica-me ainda a referida actriz que ele pôs a questão nos seguintes termos: "fazes comigo ou com ele". Custódia Gallego é peremptória na afirmação da sua intenção em continuar com o projecto sem mim e assim me excluir do mesmo. Tento, por duas vezes, falar com Diogo Infante sem sucesso. Deixo recado e o meu contacto com a sua secretária mas nunca chego a ser contactado.


- 23 de Março


- Custóda Gallego telefona a Tânia Franco e a Luísa Pacheco para as dispensar do projecto. Sendo que, com uma das mesmas, averigua, no entanto, a possibilidade de esta aceitar, no futuro, participar no mesmo caso um futuro encenador fique interessado no trabalho que já desenvolveu (que desenvolveu para a minha encenação e segundo as minhas coordenadas, note-se).


- Alice Prata telefona-me a informar-me a posição do Teatro do Bolhão: prosseguir com o projecto e retirar-me do mesmo. Assumo que não aceito essa deliberação.



- 24 de Março


- Custódia Gallego telefona a um membro da equipa artística que comigo estava a trabalhar com o intuito de convencer essa pessoa a falar comigo no sentido de me demover da minha recusa e de amenizar a “reacção horrível” que eu estava a ter em virtude dos recentes acontecimentos. Frases tais como: “se ele quer continuar a fazer coisas neste meio é melhor acalmar-se e não ter esta reacção”, “neste meio as coisas funcionam assim, eu também vou a castings e não sou escolhida” são proferidas por Custódia Gallego.


- 28 de Março


- Alice Prata e Pedro Aparício, director do Teatro do Bolhão, deslocam-se a Lisboa para me comunicarem presencialmente a deliberação de Diogo Infante e da companhia de teatro que representam. Nessa reunião, tida no café Spot do Teatro S. Luiz, está presente também Custódia Gallego. Reforçam a decisão de prosseguir a realização do projecto sem mim e a recusa em tentarem por outros meios efectivá-lo sem a parceria com o Teatro Nacional: “temos uma longa e boa relação com eles e não vamos deitar isso a perder”, “o Diogo tem a faca e o queijo na mão”, “isto para nós é muito simples”.

O objectivo dessa reunião é fazer-me ver que não há qualquer má-fé de parte alguma, que todo este processo está a decorrer dentro do que é razoável, que a decisão do Director Artístico do Teatro Nacional é irreversível e que ultrapassa o Teatro do Bolhão mas que esta companhia nada irá fazer no sentido de defender a minha participação no projecto, por mim iniciado, e que a atitude que se espera da minha parte é que aceite essa deliberação e não riposte.

Quando confrontada com a minha acusação de ter prosseguido com o convite a um membro da equipa artística por mim convocada, Custodia Gallego nega-a terminanemente dizendo que foi exactamente o contrário e que foi esta quem se ofereceu para continuar a participar no projecto (facto que simplesmente me recuso a acreditar).

Alice Prata comunica-me que, no sentido de anular totalmente a minha participação no projecto, todas as pessoas por mim convocadas serão dispensadas.

Uma hora depois de ter sido terminada a reunião, Rita Brutt, actriz por mim convidada e já por mim informada sobre estes acontecimentos, contacta-me no sentido de me dar a conhecer ter sido contactada, momentos antes, por Alice Prata que a informa da minha exclusão mas, no entanto, reforça o convite para que continue a participar no projecto. (Boa-fé?)



- Abril de 2011

- 04 de Abril

Aconselhado pela secretária de Diogo Infante, na impossibilidade de falar com ele por telefone ou pessoalmente, endereço-lhe um email onde apresento a minha estupefacção no que concerne aos acontecimentos relativos ao projecto que vínhamos a desenvolver e solicito-lhe uma reunião. O meu pedido é recusado:


“Caro Hugo Amaro,

Lamento mas de momento não é possível satisfazer o seu pedido. Sugiro que contacte o Teatro do Bulhão, nosso co-produtor e interlocutor privilegiado, estou certo de que lhe poderão prestar os esclarecimentos que procura.”

- 06 de Abril

- Endereço ao Dr. João Aidos, Director Geral das Artes, um email e uma carta registada com um comunicado onde denuncio esta situação e afirmo categoricamente a minha recusa em aceitar a mesma. O mesmo comunicado é enviado para o gabinete de Drª. Maria Gabriela Canavilhas, Ministra da Cultura. A única coisa que recebi como retorno ao meu comunicado foram os avisos/comprovativos de recepção dos mesmos por correio.


- Maio de 2011

- 04 de Maio

Recebo, por parte da DGArtes, uma resposta positiva relativamente a uma solicitação por mim feita: consultar e adquirir o projecto de candidatura do Teatro do Bolhão ao apoio financeiro.

Consulto e adquiro toda essa informação e, em virtude de nunca ter tido qualquer retorno por parte dessa Direcção Geral e do Ministério da Cultura, solicito uma audiência com quem de direito.


- 18 de Maio

Obtenho, da minha interlocutora na DGArtes, uma resposta, ao meu pedido, que assim termina:

“... entende a Direcção não poder nem dever recebê-lo, considerando o assunto referido.

Com os melhores cumprimentos”


- Julho de 2011


-18 de Julho

É apresentada no Teatro Nacional D. Maria II a presente temporada, em conferência de imprensa, e o realizador António Ferreira surge como encenador do espectáculo “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant” naquela que é assumida como a sua primeira incursão no teatro (apenas para usar como termo de comparação: esta seria a minha sexta encenação).


- Setembro de 2011

Uma vez que as respostas que tanto procurei nunca me foram dadas, uma vez que nunca fui ouvido, uma vez que fui silenciado, uma vez que simplesmente desapareci de um projecto que criei, recuso-me a não ter, pelos meus meios, o direito à palavra.


Neste momento preparo um processo judicial que visa a condenação do Teatro do Bolhão por incumprimento de responsabilidade pré-contratual.


Face ao exposto, cabe, agora, a cada leitor desta informação dela fazer o que entender.


Como simples desabafo, adianto que a minha única satisfação em todo este processo foi ter conseguido que a actriz Isabel Ruth, que tanto admiro e que sempre sonhei ter na minha encenação (e garanto que esta encenação foi longa e fervorosamente sonhada) tenha durante alguns meses trabalho; porque infelizmente, mais uma infelicidade deste cantinho à beira-mar plantado, artistas como a Isabel muitas vezes usufruem muito pouco (ou virtualmente) do reconhecimento/estatuto que lhes é devido. E se presentemente a temos no Teatro Nacional foi porque um dia, aos dezassete anos, descobri o Fassbinder, a Petra Von Kant, este texto soberbo e isso adensou a minha vontade absoluta e maior de um dia vir a viver no maravilhoso e fantástico mundo da arte. E quão maravilhoso pode ser... Surpreendentemente maravilhoso. Estranhamente maravilhoso. Tão da ordem do fantástico... E, contudo, tão real! Obrigo-me a, em definitivo, acreditar no chavão de que a realidade ultrapassa em larga escala os ardis da ficção! Mundo deveras fantástico este... o da arte.


Hugo Mestre Amaro

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