Tuesday, April 27, 2010

crossfade

a coisa que o meu trigésimo ano de vida mais claramente está a proporcionar-me é a percepção do crossfading que em mim se opera (ou tem vindo a operar).

quando o corredor começa, sob os meus pés e à frente dos meus olhos, tenho quatro ou cinco anos;
terei os anos que agora tenho quando o corredor acabar.
(ou será que está a meio?)
mosaicos brancos, pintalgados de negro (como moscas esmagadas ou formigas obesas e disformes; esborratadas).
- avó, tenho fome; quero pão com doce de tomate, feito pelas tuas mãos, e um copo de 7Up (pelas tuas mãos servido).
a outra avó, aquela de quem me fui habituando (ou a quem me habituaram) a não gostar tanto dava-me fatias de pão com manteiga e açúcar (eu gostava). mas essa não me cantava e chamava-me: coirão. (habituei-me ou habituaram-me?)
estou descalço, eu estou sempre descalço (e com a pilinha ao léu na fotografia da t-shirt encarnada onde estão estampados o Marco e o seu macaquinho albino);
e os mosaicos estão frescos porque é Verão e no Verão é que dou por isso.
tenho vontade de me deitar no chão, a avó dorme, o avô foi à pesca, o tio foi vadiar, a mamã e o papá estão longe, na nossa terra, a trabalhar, à distância de um comboio; quero deitar-me e deito-me, ninguém pode ver-me.
vou contar as moscas-esmagadas-ou-formigas-obesas e disformes; esborratadas. há centenas em cada mosaico, e há dezenas de mosaicos no corredor. vou deitar-me e contá-las, uma a uma, quando me levantar já sou grande.
uma, duas, três, ninguém ainda chegou, sou apenas eu, elas e Deus.
quatro, cinco, seis, diz-me a interna voz: quando te levantares verás se te aborreceis.
sete, oito, nove, ao sentires o teu coração bater sozinho não haverá um que a tua cabeça aprove.
dez! menino levantado do chão: é aquilo que ontem és!
...
trezentas e setenta e sete: continua a contar porque isto promete.
...
quatrocentas e vinte e duas: alguma vez perderás essa vontade de encontrar o amor nas ruas?
...
quinhentas e trinta: já transportas no olhar essa onírica sensação de que a vida te finta.
...
quinhentas e noventa: se o menino não se levanta é porque nem sequer isso tenta!
...
seiscentas e uma: tua voz e a tua escrita, agora, são irmãs; filhas da dos dias espuma.
...
não conto mais: que culpa tenho eu de ser aquilo que foi feito na cama dos meus pais?

não me levantei logo, nem a seguir, nem depois de a seguir, nem depois de depois de a seguir.
deixei ficar-me o tempo que me apeteceu.
entretanto o corredor foi-se enchendo de gente, ninguém que conhecesse;
gente que se foi apresentando, com mais ou menos modos,
mais ou menos perícia, mais ou menos interesse, furor e blandícia.
e eu sempre deitado, no soalho, nos mosaicos frescos do corredor.
ouvi muita coisa, não disse menos do que muita coisa, dei abraços e beijos;
fiz amor e fiz ódio. fiz alguma coisa e não fiz tanta e tanta coisa.
ainda estou deitado, o corredor tem a sua própria vida e eu sigo a minha própria;
ultimamente, e agora, ainda deitado, corpo colado aos mosaicos, barriga virada para cima;
dói-me, tenho as costas tortas, fito o tecto.
ouço-os, vejo-os, pressinto-os e sinto-os entrar, sair: passar.
sei que atrás de mim há uma porta, sem dar por isso deslizei, corredor fora,
e estou na extremidade oposta àquela onde e quando me deitei.
passou tempo. quanto tempo? quase trinta anos?
a avó ainda dorme, agora dorme para sempre, o avô já quase não vai à pesca,
o tio vadia como pode e sabe, tenho um irmão que é um homem e a mamã e o pápá?
a mamã e o papá são o: cada um para seu lado.
ela chora-me ao telefone e dele não sei nem quero vir a saber.
eu sou, mas vou deixar de ser, aquilo que foi feito na cama deles.
porque a cama já não é deles e eu sou mais do que isso.
sou um homem,
sou sede, fome, vontade e sono,
sou a psicoterapia à segunda ao fim da tarde,
sou o crossfade
(onde a melancolia do menino e a displicência do homem com idade de cristo
se encontram no princípio, no meio e no fim de um corredor cujo soalho é de mosaicos frescos),
sou a vontade de me levantar.
estou a deixar de olhar para o tecto, a fixar as palmas das minhas mãos e
a preparar-me para as colar aos mosaicos do chão.
já não há moscas, voaram, nem formigas obesas e disformes, imigraram,
descolo a nuca do chão, levanto o tronco e vejo-me, no princípio do corredor,
a acabar de me deitar.
amanhã, quando acordar, levantar-me-ei.
caminharei até mim, menino deitado no chão, estenderei a mão e, juntos,
abriremos esta porta que tenho atrás das costas,
com esta chave que trago, há muito, talvez desde sempre, guardada dentro da boca.
é isto ser grande?





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