Friday, October 31, 2008

a draft (i do not know where it goes)

pôs-se assim, repleto de vontade de ter uma vontade, a redesenhar sobre aquele dia todos os seus relativamente recentes dias. decidiu que o melhor a fazer seria sorrir. e assim o fez: sorriu. se a cena fosse observada, coisa que, garantidamente, não foi, poderia dizer-se que o sorriso obtido, e no seu rosto posto e plantado, o sorriso possível, não era mais do que um sorriso invertido, possivelmente construído pelo avesso, um sorriso ao contrário. era, na verdade, o negativo de um sorriso. mas isso em nada o deteve. prosseguiu o redesenho e afincou a vontade de, sobre aquele mesmo e infeliz dia, reviver todos os dias predecessores.
fechou a luz. abriu a janela do quarto; chovia mas a noite não estava, no entanto, fria ou feroz. com um veloz mas ligeiro beliscão fez a gata miar. o animal saltou imediatamente de cima da cama para aterrar, sem graça, no tapete. ele despiu-se, então, e seguidamente bebeu dois goles da água que jazia há mais de duas semanas no copo deixado ao abandono em cima da mesa-de-cabeceira. soube-lhe mal, a pó. precipitou-se para a janela e cuspiu o líquido para a rua. o som do seu projéctil, ao embater no capot do carro estacionado por debaixo do parapeito, dissolveu-se na sinfonia caótica e cacofónica que a chuva protagonizava na rua. esfregou as mãos pelo corpo nu, sobretudo pelas coxas, para que, em virtude da inevitabilidade de um rápido e inesperado arrepio, pudesse ter a oprtunidade de voltar a aquecer ambas: ambas as mãos e ambas as coxas. deitou-se, voltou a construir o sorriso possível e começou o redesenho.

o redesenho tinha a sua dificuldade. era complexo, rígido, àspero, estava carregado de atrito.

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