Friday, December 14, 2007

sobre a transnaturalidade e o conhecimento

um dia perguntei-lhe:
quem és tu?
fartei-me dessa, tão recorrente, rebuscada, retorcida, reciclada, ridícula, visão.
quem és tu? responde-me, foda-se, responde?
ficava horas e horas, dias e dias, meses e meses... anos não sei, a minha contemplação não ultrapassou os trezentos dias. mas ficava, portanto, muito tempo, demasiado tempo, diga-se, a receber pelo revestimento epidérmico toda e qualquer informação que o que julgava ser o exterior lhe pudesse facultar.
sim, pode dizer-se que se tratava de uma esponja.
natural? não, não vejo tal criatura como uma esponja natural. digamos que era, antes e acima de tudo (mas não acima de qualquer suspeita), uma esponja transnatural. tinha as motivações, as aspirações, as experiências, os desejos, as conclusões, em suma, o conhecimento transduzidos em magabytes; era uma criatura que se apresentava profundamente recolectora, uma criatura que respigava.
uma vez perguntei-lhe:
ouve lá, tu respigas o respirar?
piscou os olhos duas vezes, o sinal irrefutável de que a indignação se apoderara dos seus circuitos (a criatura não tinha exactamente circuitos, ainda não conseguira ser biónica; mas a metáfora aplica-se), clicou duas vezes no rato do laptop, pigarreou e procurou o significado de coprofagia no wikipedia.
o pior era a chuva; esborratava a tinta das suas paredes e das suas roupas, repletas de anotações e anotações.
o pior era a tempestade; a electricidade desistia do abastecimento e a criatura chorava a incapacidade e falsa verdade da autosustentabilidade das baterias de iões de lítio.
o pior foi mar; a criatura não lhe soube definir a cor e afogou-se nesse desconhecimento.
interrogou-se:
relativamente a mar, o que diz o wikipedia? blup, blup, blup, blup, blllllluuup, blllll
não aprendi a tempo. não aprendi com tempo. não aprendi (pensava a criatura enquanto morria).

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