Friday, February 03, 2006

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queria comunicar. tinha as palavras escolhidas, dentro de si, seleccionou-as criteriosamente. fê-las surgir. sabia fazê-lo, sabia disso. tinha tudo preparado. mas, para espanto seu, não quis dizê-las. teimou em não precisar de as dizer. teimou em, tampouco, as escrever. queria que as palavras acontecessem dentro da cabeça do receptor. que acontecessem da mesma forma que tinham acontecido dentro de si mesmo. fechou as mãos. esqueceu-se das palavras por alguns dias e começou a procurar ouvir o que estava entre as palavras que ouvia. as palavras passaram a ser uma matéria abstracta, pouco útil ao entendimento e insolucionável. interessou-se pelo interstício entre as palavras. descobriu aí um território inteiramente habitado e desabrigado de bloqueios ao mesmo tempo. um território novo e simultaneamente ancião. entrou numa zona pura não consensualmente natural do mundo. abriu as mãos e escutou-as (às mãos; ja não às palavras). abriu todos os livros de par em par e deixou que as palavras voassem. viu-as sumirem-se em silêncio e em paz. sorriu, cortou a língua e a ponta dos dez dedos. foi para o meio da multidão e aí percebeu: o que se quer dizer está exactamente no espaço não etimológico que se cria enquanto se diz aquilo que se vai dizendo e que se julga querer realmente dizer.
não escreveu mas pensou:

assim se conheceu ele.

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