Sunday, September 04, 2005

a leitura da não escrita

às páginas que ainda não escrevi, rasguei-as. evitei o insondável confronto entre a sintaxe e a vida. cerrei os dentes; usei as mãos (pu-las à obra): estilhacei o discurso, incinerei a semântica, matei a pontuação, abortei a acentuação e vaporizei sujeitos e predicados por aí. abstive-nos da minha literacia.

aprendi a exercer o verbo na pior e mais inesperada das alturas. jamais suspeitei que o viesse a fazer. ainda agora, enquanto me penso, sou incapaz de crer que as minhas mãos possam rasgar.
rasgar páginas ainda não escritas é o pior dos meus crimes. é o mesmo que forçar-me a compreender o meu próprio coração para o poder fazer sangrar para além da sua morte.

começo a habituar-me a esta sensação de que estou constantemente a engolir torrentes de lava.

fome vulcânica: quando o cansaço me atinge de forma assertiva e feroz abro o trinco das pálpebras e a janela do quarto para deixar que os meus olhos, esses dois abutres azuis, se soltem para a incógnita da noite em busca de páginas ainda por rasgar antes da escrita.

violei-me sem dar por isso; escrevi-me depois.

esta noite não soltarei os olhos; amanhã irei acordar num oceano de tinta.

serei feliz no momento em que conseguir saborear de forma literal uma qualquer imagem.

a preguiça instalou-se nas pontas dos meus dedos e impede-me de redigir o manual de mim mesmo.

fiz-m ao contrário, perdi a praxis e este é o avesso de mim.

e o amor é uma lágrima que escorre de baixo para cima!

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