Sunday, September 04, 2005

finis praxis (estilhaços)

(os seguintes poemas foram escritos em 1998 e fazem parte de um livro de poemas que intitulei de "finis praxis". há uns anos pensei ter perdido esse livro em virtude da grande incompatibilidade tida com uma certa disquete. felizmente recuperei, há pouco tempo, o livro no computador da rosa (my flat mate) visto ter sido no mesmo que se deu grande parte do processo de redacção e ela, santa alma, nunca o ter apagado. "finis praxis" não foi escrito por onan; o demónio, tal como existe no presente, ainda não havia nascido.)



estilhaço 1

fiquei sossegado
já não existia uma razão suficientemente forte
para que o meu corpo se pronunciasse.
não estava triste,
muito menos feliz,
estava intacto; sabia que era capaz de abrir os olhos.
a temperatura havia estagnado já por muitos meses.
na parede oposta à porta do quarto estava o roupeiro branco.
de noite fechava-lhe a porta para trancar o Senhor Silêncio.
nessa época só adormecia embalado pelo estrondo de lindos prédios a ruir.
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estilhaço 2

(para aquele que enlouqueceu antes de ter enlouquecido)

e nessas horas acesas
em que o silêncio não é mais do que uma palavra adormecida nos meus,
teus, nossos olhos.
nesse instante suspenso no fumo de um abraço
é a tua pele quem sussurra
e a minha boca pontua as frases que o teu corpo dita.
quando a cidade morre devagar somos um todo brilhante,
o teu cheiro e os meu olhos dissecam o tumulto da ruas e
inventam novas vidas para as células.
nessas horas acesas somos um universo rodopiante,
duas tranpirações herméticas numa nuvem rebelde.
dou-te o silêncio como dote.
dás-me a lua como excesso.
quando a cidade ressuscita:
tenho estrelas no ventre
e tu cantas com a voz do mar.
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estilhaço 3

querelle 1
o homem tem a pele azul e os testículos pesados,
de tanta ira.
o homem ainda não aprendeu a ser homem,
anda numa conturbada pesquisa.
o homem não é azul, é dourado
qual anjinho de talha.
o homem tem a boca espessa,
onde as palavras se perdem e definham.
o homem tem os mamilos rosados e duros,
pedra mármore-parte dentes molares.
o homem tem o amor bem escondido,
debaixo da língua.
o homem quer ser maldito,
como os heróis expressionistas.
o homem ainda não nasceu,
mata-se todos os dias com o mesmo sabre.
o homem navega,
nas suas próprias veias ao sabor da contracorrente.
o homem é uma visão aproximada do seu próprio sexo.
o sexo do homem é um barco:
deriva, naufraga e dorme no fundo calmo do mar.

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