Thursday, September 08, 2005

fim de tarde aqui

Sempre adorei este trecho do discurso de Fedro no "O Banquete" desse grande querido Platão.

"Que entendo eu por amor? - Às acções desonestas liga-se a desonra, às boas acções liga-se o amor. Sem isto, nem a cidade, nem o indivíduo, podem fazer algo de grande ou de belo. Ouso afirmar, desta maneira, que se um homem ama e for surpreendido a cometer um delito vergonhoso, ou a suportar cobardemente um ultraje, sem que saiba defender-se, sofre menos ao ser repreendido pelo pai, por um parente, ou por qualquer outra pessoa, do que por aquele a quem ama. Verificamos, também, que um amado não ruboresce tanto como perante aquele que o ama, se por acaso é surpreendido em falta. Assim, se houvesse a possibilidade de formar uma cidade, ou um exército, composto somente por amantes e amados, obteríamos a constituição política ideal, pois teria por base o horror do vício e a emulação do bem e, se combatessem juntos, tais homens, apesar do seu reduzido número, poderiam vencer quase todo o mundo."

Faz-me sentido, esta coisa da bélica do amor. O grande problema acontece quando a guerra se instala dentro do nosso pequeno exército. Quase percebo, agora, o que é um tiro no escuro.

Tenho, de aqui e acolá, uma vontade dadaísta de presente.

Quando vi ao vivo "O Grande Masturbador", do Dali, chorei. De comoção e raiva, chorei. A comoção está explicada no próprio acto de chorar ao ter na frente uma obra que tem para mim muito significado. A raiva vem do facto de ter sido obrigado a partilhar esse mesma comoção com os outros espectadores do quadro. Construi com aquela imagem uma relação tão íntima e pessoal que quando vi o quadro rodeado de pessoas me senti invadido. Isto da partilha tem muito que se lhe diga. Esperei, meticulosamente, que todos saciassem o olhar e consegui ficar a sós, por largos instantes, com o quadro. Nessa altura chorei a sorrir. Quando me empenho, até acabo por conseguir o que quero.

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