Wednesday, August 24, 2005

sobre a leitura do ser e do riso

É preciso ter-se coragem para se observar, no espelho, o próprio rosto no meio da mais sinistra tempestade. A coragem vem solene e bonificada. A coragem vem de dentro do que está dentro de nós. A coragem vem corajosa.

Saem-me dois barcos dos olhos. Dois barcos sem nome, sem uma forma exacta, sem tripulação. Aprendi a calar-me aqui, na boca da tempestade, quando me vi cercado pelas minas e armadilhas das minhas próprias lucubrações. Aprendi a engolir em seco aqui. Pasmado e bruto, aprendi a insolucionar. Não consigo decidir se me aprendi a escrever ou não. Sei que entrei num sítio qualquer. Um sítio quase indesconhecido, um sítio a situar. É como entrar numa casa pela primeira e vez e perceber de imediato que o cheiro da mesma será exactamente a memória mais precisa que iremos reservar-lhe ao partir. É como beijar uma boca desconhecida e ter a certeza de que já ali estivemos antes. Conseguir premunir o som dos próprios beijos; é disso que falo. Entrar em mim é isso, em parte. É como abrir uma janela fechada à chave com a ponta língua. É como ter o céu, e tudo o que ele representa, guardado no fundo dos bolsos e andar pelas ruas sem conseguir flutuar. É inventar ruas por cima das ruas. É isso, entrar em nós é navegar.

Fiz-te à semelhança de mim, das minhas lutas. Fiz-te caído antes mesmo de teres aprendido a ter pernas para andar. Fiz-te com as veias à mostra. Fiz-te uma língua gigante e inteira onde eu pudesse caminhar para morrer. Fiz-te oligomeu, sejas lá tu quem fores. Fiz-te aos bocados; nos intervalos do estar. Fiz-te ao longo do tempo em que aqui não estiveste. Fiz-te vir.

Não existes, és meu. Aqui dentro não se existe. Não sou diferente de alguém, sou igual a todos. Recuso-me a acreditar que exista algo exacto dentro de quem quer que seja. Todos temos o mundo esquiçado cá dentro; tácito e líquido, todos temos o mundo por abrir. Todos temos a abertura; ninguém tem o peso exacto do mundo. O peso do mundo faz-se por aí, nos dias, nos cruzamentos, nos beijos, nas palavras, nos uivos. O mundo acontece por si; enquanto não houver quem feche esta ideia severa e irrequieta de que existe uma entrada clara e precisa para o centro exacto do mundo. Enquanto não houver quem venha para as ruas gritar que o peso do mundo é um eterno livro por escrever. É preciso saber caber dentro das ideias. É preciso saber ler.

As palavras caem, antes da boca,
sedentas de perene,
as palavras caem por abrir.

As palavras caem, sem silêncio,
e eu sem roupa,
as palavras caem para eu não cair.

As palavras caem, sem acaso,
na ponta dos meu dedos,
as palavras caem para me rir.



Saí de onde estava. Não posso ficar aí para sempre, tenho de confessar-te. Falo contigo porque sei que precisas tanto de me ouvir como eu preciso que me ouças a falar. Isto não é uma mensagem; é um território. Isto é a fundação de um país que se recusa a nascer. Um país planeado e concebido pelas suas próprias fronteiras. Este é um país que se quer existente para que se lhe possa apresentar a sua própria limitação. Este é um país desejado pelo limítrofe. Este é um país pensado. Este é um país-ideia.

Há livros dentro muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. Há livros dentro carros onde entro e aprendo a deixar-me levar. Há livros dentro das canções que ouço e ensino a ouvir. Há livros dentro dos copos que partilho por aí. Há livros dentro dos olhos que se fixam nos meus. Há livros dentro das recordações que guardo do que já vivi. Há livros dentro das casas onde me recuso a entrar. Há livros dentro das bocas que me tentam dizer coisas imperceptíveis na minha própria língua. Há livros dentro das mãos que preferem fechar-se a ter de se abrir para me fazer sorrir. Há livros dentro das coxas que se roçam e que têm a ganga como permanente interlocutor. Há livros dentro das igrejas onde planeio ir mas onde nunca vou por estar a usar boné. Há livros dentro dos sapatos que observo, aos milhares, nos dias em que estou triste, por não ser capaz de levantar o olhar do chão. Há livros dentro das garrafas que estou sempre pronto a abrir para me esquecer para onde vou. Há livros dentro dos abraços que dou, com fervor e descanso, aos meus amigos. Há livros dentro das lancheiras das crianças que não vejo ir para a escola porque nunca vivo as manhãs com o mundo. Há livros dentro das conversas que tenho na minha cabeça mas que evito ter na realidade por preguiça e incompetência do realizar. Há livros dentro das minhas chaves de casa. Há livros dentro dos corações dos namorados que ainda tremem quando se encontram. Há livros dentro dos bolos que as senhoras bem intencionadas dão, nas pastelarias, às pedintes heroinómanas prestes a morrer. Há livros dentro das salas de estar das viúvas que têm na televisão e no cão a sua única companhia. Há livros dentro dos teatros onde quero vir a trabalhar até à exaustão. Há livros dentro dos bolsos dos estrangeiros que olham com serena curiosidade o luso-morno-mau-estar. Há livros dentro dos dentes que embatem, tímida e atabalhoadamente, aquando de um primeiro beijo. Há livros dentro dos ossos que se quebram quando o chão se torna um permanente e imperativo inimigo. Há livros dentro do sangue que se derrama para se dar à luz. Há livros dentro de muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. E eu casado com o caos que mora dentro da chuva das palavras; e eu cansado de não os poder ler.

Às vezes, para poder sossegar, imagino o momento em que, no futuro, me vou poder rir do dia em que estou. Já realizei, por diversas vezes, a proeza: RIR.

3 comments:

joana said...

ena. bonito.

E.L.P. said...
This comment has been removed by a blog administrator.
E.L.P. said...

lembras-te quando nos conhecemos, mais coisa, menos coisa, e te disse que adorava a forma como escrevias?

Parecias a voz que às vezes fala comigo quando penso sozinho nas minhas coisas. Quero dizer, expressavas tao bem as coisas como eu as expresso para mim mesmo.

O Post está muito assim. Voltei a ler uma coisa tua que me fez lembrar disso. Daquelas que fazem querer ler outra vez.

Beijo especial. Adoro-te.