Saturday, September 24, 2005

a arte e a guerra

"pessoa sensíveis fazem massagens, não arte"
Dr Veiga dixit

Sim, isto de aqui andar sabe a ferro e sabe a fogo; carne viva, sangue frio.
Estive/estou com um abcesso. Doeu muito. Foi assim o meu início de semana (domingo, segunda e terça). Quarta-feira: jabasulide faz nada, inchaço e dor congratulam-se por existir. A minha gengiva parece explodir. Eu a imaginar que os poucos euros que tinha lá teriam de ser dolorosamente entregues na farmácia. Dito e feito; seis da tarde, o cenário insuportabiliza-se e lá vou eu a caminho das urgências do S. José. É lá que vou, como qualquer proletário, sempre que a situação o exige. E posso asseverar que as ditas exigências têm surgido nas mais variadas e absurdas situações ao longo desta quase década de estadia na grande maçã lusa. Adiante, adiante, o que interessa é que o cenário foi piorando cada vez mais. Eu a pensar que o estomatologista espanhol que me assistiu nem me iria tocar e que me iria receitar um antibiótico manhoso qualquer e que me iria despachar em dez segundos para voltar à tão animada conversa que estava a ter ao telemóvel.
Engano redondo, quando dei por mim tinha um bisturi a cortar-me a gengiva e os dedos do espanhol a espremerem-me a purulenta protuberância. Ainda teve a lata de me perguntar se me estava a doer. Eu rugi e pisquei os olhos como que a dizer: "não, estou óptimo, continua lá com a tortura que eu cá me irei aguentando à bomboca". E aguentei-me de facto, porque apesar de ser um pleno praticante do verbo lamuriar, a verdade é que, no que à dor física diz respeito, sou bastante resistente. Quanto às dores metafísicas, aí o caso muda bastante de figura. Convenci-me de que sou uma pessoa sensível. E é para chegar a este ponto que me permiti relatar o episódio abcessal. (Para resumir: lá cuspi aquela porcaria toda, ele lá me passou a receita correspondente a uma farmácia inteira, lá deixei os euros todos na farmácia do Martim Moniz e agora tenho uma bela rotina medicamentosa que me obriga, todos os dias, a andar com dez quilos de comprimidos e elixires na mochila e a fazer combinaçãos variadas de químicos às mais absurdas horas. Iso tudo durará até à próxima quarta-feira, caso a infecção passe. Caso não passe lá terei de ir visitar o espanhol e o seu amigo bisturi).

A verdade é que a afirmação do meu caro Dr Veiga é totalmente certa. As pessoas sensíveis não devem fazer arte. Ou não se deve partir dessa premissa para se decidir enveredar pelo, já de si, bastante tortuoso caminho da arte. O artista tem de ser, acima de tudo, um guerreiro. O caminho da arte é o caminho do combate. O Dr Veiga, segundo percebi, descobriu isto aos catorze anos. Toda a sua vida, desde então, foi planeada com a tenacidade técnica de um guerreiro. Por isso ele é um artista. Ele faz a arte e não precisa dela para sobreviver. Fez-se o seu próprio mecenas. Optou por um caminho, o não sensível, que lhe permitiu ter a estabilidade e liberdade necessárias para poder criar sem tormento essencial. Eu, lerdo como sou, descobri isto aos vinte nove anos, com a ajuda do caro Dr Veiga (talvez sozinho também chegasse lá) e depois de ter os pés já muito exangues por ter enveredado pelo caminho do tormento. Creio que deve ter sido por uma questão de incultura. Se tivesse sido mais culto talvez tivesse percebido essa tão anímica relaçáo entre a arte e a guerra.

Pois, e agora?

Agora é tudo uma questão de congregação de elementos.
Tenho de reunir o que me resta e que é essencial para a guerra:
-fúria e ímpeto (detesto a palavra talento)
-domínio da expressão (sei que na maioria das propostas a que me permito o consigo ter)
-energia (é só uma questão de assertivo canalizar da mesma)
-contactos (aprofundar os que existem e perder esta porcaria deste pudor da auto-promoção)
-capacidade de trabalho (já por diversas vezes comprovei a mim mesmo que a tenho, é só uma questão de a passar a ter de forma permanente e para todo o tipo de tarefas).

Passar a ter o que não tenho e que é essencial para a guerra:
-disciplina
-persistência
-capacidade de congregação dos elementos que são essenciais para a guerra
-estrutura exterior que me permita atingir estabilidade para poder criar em liberdade
-táctica
-assertividade

Elementos exteriores à guerra e que têm de ser eliminados:
-dispersão
-auto-condescendência
-maus hábitos
-vínculo ao conceito de sensibilidade ou acertado ajuste do mesmo
-falta de concentração
-incapacidade de estabeler tarefas e devida calendarização das mesmas
-desistência
-falta ajuste ao presente
-fixação no passado e no futuro
-deixar de acreditar que me vai sair o euro milhões


As medidas estão teorizadas. A práctica urge. Serei o mesmo? A guerra e a arte o dirão. Não tenho grandes hipóteses. Até porque acho que daria um péssimo massagista; não gosto de tocar a maioria dos estranhos.

2 comments:

E.L.P. said...

Nada mais que nao: força!

Meu querido, a guerra está para a arte como a arte para o artista.

E que assim se faça a tua arte!

Beijocas lindas nessa carinha feia.. eheh

Ah! e já agora, por novas artes, nao te esqueças das paredes da minha casa... estão a precisar de um verdadeiro artista (entenda-se, guerreiro) para as atacar!

E.L.P. said...

Acrescento de resto que as massagens também seriam bem-vindas e as minhas doridas costas agradeceriam, por certo.

Beijoca.