Saturday, January 31, 2015

matéria abortada... porquê?


aos dezoito anos a princesa aceitou ser rainha, sendo que podia ter rejeitado a sucessão e, como tal, esse assunto não é para aqui chamado, mas fê-lo com a firme condição de que apenas a isso acederia se nunca, durante todo o seu reinado, tivesse de sujar as mãos. havia sujado as mãos em pequena, naquela tarde em que caçara um grilo nos jardins do palácio, mas a experiência, e o contacto entre a terra molhada e as cutículas, não havia sido confortável nem interessante, e, por isso mesmo, se decidira, logo nessa longínqua tarde, a nunca mais em toda a sua vida voltar a sujar esses órgãos.
a cerimónia da coroação, como é suposto e óbvio, foi envolta em pompa, fausto e protocolo. no chão das ruas de todo o reino foram espalhadas flores, apanhadas por muitas mãos, bandeiras coloridas foram hasteadas, por outras tantas mãos, em todo e qualquer canto, iguarias de grande qualidade e quantidade foram, com as devidas antecedência e mãos, preparadas e a música fez-se ouvir durante dias a fio; foi uma cerimónia algo longa, é preciso que se note. delegações e comitivas vieram de todos os vizinhos reinados e pode dizer-se que o acolhimento, feito a mais de mil e uma mãos, não menos do que perfeito foi.
a única coisa que nela mudou foi o nome; deixou de ser a princesa das mãos limpas e passou a ser a rainha das mãos limpas. convém, nesta altura do relato, fazer notar que as mãos da, agora, rainha das mãos limpas eram umas mãos que em nada se verificavam especiais e que o facto de se manterem impolutas nada de particularmente belo conferia às mesmas.
a rainha das mãos limpas tinha umas mãos absolutamente regulares, umas mãos iguais às de qualquer rapariga de dezoito anos, umas mãos normalíssimas. a própria rainha, em si, nada tinha de destacável no que à beleza pudesse dizer respeito, era uma rapariga cuja figura nada acrescentava ao adjectivo: corriqueiro.
passaram alguns anos, dois, para que a narração mais precisa seja, e a rainha das mãos limpas já plenamente exercia funções sem que, no que à competência concernia, nada de incorrecto, transviante e desacertado se lhe houvesse a assinalar. tornara-se naquilo que se pode, correntemente, designar: uma rainha e pêras. e é justamente aí que bate, ou melhor: batia, o ponto. a fruta. era no pomar, à sombra das mais variadas, fecundas e frutíferas, no mais literal sentido, árvores que a soberana tomava significativas e graves decisões. havia, contudo, uma certa macieira que parecia obter dela, a rainha, a maior predilecção e que, no que à arte de reinar dizia respeito, quase que como um poderoso, e simultaneamente simples, totem funcionava, como se repleto estivera de talismânicas qualidades. a macieira, não particularmente robusta ou bela, justamente como a rainha e as suas limpas mãos, parecia ter em si concentrada toda uma tácita teia de virtudes. fora protegida pela sua sombra que a rainha decidira e decretara ser obrigatória a música nos berços, a proibição de leques e abanicos, pois o calor é filho do céu e do chão e não compete ao homem o mesmo combater ou negar, impusera a metáfora e a metonímia como direitos incontestáveis dos plebeus e fizera constar nos reais autos que leitor é um trabalhador cuja faina é igual à de um outro trabalhador qualquer. tudo isto, ao longo desses dois, de soberania, anos se passou sem que a nossa protagonista uma única maçã, ou qualquer outra peça de fruta, por vez alguma à boca levasse. a rainha alimentara-se, durante todo esse tempo, e ao contrário de todos os anos em que apenas princesa fora, de húmus, água férrea e fezes de pequenos pássaros.
certa tarde de certo dia, ao septingentésimo nono da sua governação, deu-se na monarca uma súbita e ousada mudança. passavam largos minutos das treze horas, mal ainda acordada estava, a rainha deitava-se sempre tarde e, assim sendo, nunca cedo do sono sobressaía, quando, ainda meio entorpecida, mas já sob a sua predilecta macieira, rodeada de conselheiros e superintendentes, ergueu para a copa da árvore o olhar e uma, praticamente, pútrida maçã a deteve. cessou, nesse mesmo instante, a dissertação que sobre a obrigatoriedade de viajar ao cidadão comum era devida e obrigatória e, muito clara e repentinamente, disse:
- minha és hoje, ao meu estômago pertences, tímida e resignada maçã!

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