Sunday, December 07, 2014

o fumo e a lembrança

estava agora a fumar à janela, cá em casa não se fuma nos aposentos, e lembrei-me de uma velha. durante a minha infância e adolescência, eu passava horas e horas na açoteia do meu prédio, que era bastante alto, considerando o tipo de habitação circundante, mesmo no centro de olhão, ali ficava horas, sozinho, a ver a cidade, as pessoas a passar na rua, o cubismo tão arabesco e típico da cidade, olhão passou de vila a cidade no dia em que fiz nove anos, a ria formosa mesmo à frente, os barcos na ria e até conseguia ver, lá ao longe, as ilhas (armona, culatra e farol). muitas vezes tinha contracena, ou companhia, neste açoteísmo. essa companhia, e mais tarde contracena, quando comecei a fumar e o fazia durante essa contemplação, era: a velha que fumava às escondidas. havia uma velha que todos os dias, impreterivelmente, às três e às seis da tarde, numas ruas à frente, subia à sua açoteia e ia fumar, visível e claramente à socapa da família que com ela vivia, o seu cigarrinho. fazia-o sorrateira, furtiva e rapidamente. aposto que fumava sg filtro. a velha era viúva, há muitos anos, por isso estava sempre vestida de preto, nessa altura o luto era para a vida, e era avó de uns miúdos com que eu brincava às vezes e sogra de uma amiga da minha mãe. hoje lembrei-me da velha que fumava às escondidas. aposto que já morreu e cheira-me que não foi de cancro do pulmão! hei-de perguntar, no natal, à minha mãe se sabe o que dela foi feito.

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