Tuesday, April 09, 2013

limonada

a esquadria da janela da cozinha devolve-me alguma verdade,
alguma verdade do mundo, e recorda-me:
a limonada que estou a beber não é filha dos limoeiros viçosos e povoados do vizinho.
por isso,
sabe a cera e a multibanco, 
sabe a bulício de sábado à tarde, 
sabe ao cancro que um dia há-de vir (em directo ou diferido; a mim ou aos meus). 
suspiro e, enquanto dou um carolo seco na bancada de madeira, mal, prensada, penso:
oh, raios,
neste mundo já nem se pode acre, em sossego, beber. 
a esquadria da janela da cozinha devolve-me alguma verdade,
alguma da simples verdade do mundo, e atira-me isto:
ainda bem que às vezes voltas aos anos noventa; 
à pureza das primeiras descrenças na vida, 
aos teus vinte e tais.
porque o futuro é tão assustadoramente complexo na sua simplicidade 
e
nunca te dará forças para cuspir a venenosa limonada:
quando deres por ti, será aquilo que te circula nas veias
enquanto lutas e protestas torpe; 
au ralenti. 

No comments: