Tuesday, November 27, 2012

a poesia

a poesia é a coisa, efectivamente, mais estranha que conheço. a poesia é a coisa mais paradoxal, descontínua e solitária que conheço; é uma matéria insondável mas, tão, intrinsecamente concreta. a poesia é isso e nada mais do que isso: ESTRANHA! não se explica, simplesmente não se explica. eu não consigo explicar, não consigo mesmo. como é que se explica a poesia? como é que se explica a sua génese, o seu decorrer e o seu findar? se eu tentar explicar, inclusivamente num poema, o seu inicial momento fico sempre com a sensação que me remeto a ela como referente. e eu creio que a poesia não pode ter-se a si mesma como referente. há tanta coisa englobada, há tanta coisa a incorporar. se tento explicar-lhe o processo passo a ser-lhe, eu mesmo, estranho e à mesma ficar a dever. se ao seu fim tentar dar uma solução, então, passo a ser um vassalo da sua solução e, creio eu, a poesia não intenta, sequer, encontrar em si uma solução. mais não posso dizer do que: a poesia acontece. a poesia acontece-se. é curioso que, sendo eu alguém que se preocupe com esta matéria, muito pouca poesia consuma. eu não leio poesia, simplesmente, não leio poemas. verdade seja dita, leio os meus poemas; leio os meus poemas porque os tento compreender, porque os tento apurar, porque os tento depurar, porque os tento englobar na magistral assunção que tenho do que a poesia deve ser. mas isto é muito falacioso; é falacioso porque a poesia é paradoxal e, parecendo simples, sim, porque o ocorrer de um poema nada mais é do que simples, é de uma complexidade imensa e infinita. a poesia é uma coisa que se instala; instala-se dentro de nós. e fica; a poesia fica. é manhosa: vai e vem. não se lhe pode controlar o caminho, não se lhe pode controlar os ímpetos, em suma, não se lhe pode controlar a vontade. a poesia tem uma vontade autónoma e nós, os seus serviçais, nada mais somos do que instrumentos da sua vontade. 

a questão, está, no fundo, no olhar; a poesia nasce, decorre, e morre, sim, porque ela morre, ou esmorece, no nosso olhar. a poesia é uma matéria, que nem qualificar consigo, que se nos cola ao olhar (e refiro-me ao olhar no sentido figurado, claro). a poesia ocorre-nos no olhar; no olhar o mundo e no nosso ver o mundo olhar e no nosso ver o mundo olhar-nos de volta.

resumindo: a poesia é intermitente, manhosa, birrenta, escrupulosa, diva e muito, mas mesmo muito, concreta.

a poesia é, sendo a coisa mais simples, a coisa mais complicada que conheço e resume-se a isto:


nos braços dos meus amigos,
nos seus abraços, 
aprendi hoje 
a querer para sempre flutuar.

braços que foram abraços,
braços que foram vontade
braços que foram onde sei navegar e naufragar.

braços que nada mais me devolvem do que onde sei pertencer
e onde quero, para sempre, ficar.

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a poesia é a coisa mais estranha que conheço. a poesia é a coisa que mais, da vida, me faz querer saber: porque a poesia, para mim, se alimenta, sustenta e insufla de vida. a poesia é olhar; e olhar é ter palavras para escrever naquele sítio do peito onde nos habituaram a ter um músculo que coração se chama. e poesia é dar lugar a essa locomoção. poesia é, ao olhar, saber o que pôr lá dentro; lá dentro desse lugar. 

afinal cheguei, aqui, a uma conclusão, poesia é inscrever! não é escrever: é inscrever... o estar.

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