Tuesday, October 18, 2011

costas

pintalga-me - disse ela, enquanto as costas ensaboadas, mas nada da espuma livres, lhe ofereceu.
e a água caía como a água tem de, nessas ocasiões cair; sem tempo, interstício, temperatura, textura, na verdade, sem peso e medida ter.
ele afastou-se; e se o fez foi para exactamente a zona que lhe era oferecida poder perceber.

pintalga-me - disse-lhe ela uma outra, e imperativa, vez.

e a água, na sua função de apenas água ser, nada mudou.

ele abriu e fechou os olhos, fingiu que estes embaciados estavam e apenas disse:

não posso. eles não me deixam!

ela perguntou: porquê?

ele não respondeu, vestiu a camisa, e toda a roupa que conveniente era vestir, e que para este caso nada, ou pouco, interessa; e a correr desceu as escadas do prédio.

ela continuou a vociferar.

ela continuou a proferir.

ela continuou a exigir: pintalga-me! pintalga-me já!

ele partiu, e ela isso sentiu.

cruzaram-se meses depois, numa buliçosa rua da cidade, quando a pele dela seca estava e nele ainda nada seco estava o medo de a nutrir poder vir.

ela lambeu os lábios e ele desmaiou à frente da Casa da Sorte.

assim se tornou claro quanto dois mundos não se unem.

nesse momento alguém, por ter enviuvado, por eles, sem chorar, passou.

e assim se pode fazer Lisboa!

e assim se pode fazer qualquer cidade, onde costas, e medos, e escadas, e alguém por enviuvar há!

e assim se faz o mundo: no não, tão simples, por entre a água, ou do seu denso/simples/pleno vapor, nada conseguir fazer.

e eis que é assim que o amor mais não longe vai; fica reduzido ao simples descer das escadas de um simples prédio numa simples cidade de um simples país de um simples continente de um simples mundo.

e assim não se acontece.

e assim ninguém voltará a, por bem, virar as costas.



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