Thursday, July 15, 2010

espelho meu...

há muitos anos que tenho uma sensação, uma muito estranha sensação; nunca a soube definir mas hoje sei e é: a leitura do próprio. lê-se com os olhos, lê-se com o olhar, lê-se com a atenção e a força dos olhos. e eu, durante muitos e muitos anos, senti-me um estranho até na execução desse mesmo verbo: ver, ver-me. durante a adolescência, e acho que isso pouco de destacável/inédito tem, eu não conseguia exactamente ver-me. olhar-me ao espelho era uma experiência aterradora; era-o não no sentido de uma recusa (a título de exemplo, o cliché: o adolescente não se identifica com quem é, quer ser mais bonito, mais perfeito, melhor), não, o que acontecia era um profundo sentimento de não empatia, de não reconhecimento, de não conformidade. eu via-me ao espelho e tinha, mas tinha mesmo, de me obrigar a perceber que aquela imagem que a dita superfície, sim, porque o espelho é uma superfície e nada mais do que isso, me devolvia era, irremediável e inequivocamente, a concretização da minha existência. o espelho obrigava-me a ser eu; até então, não estava exactamente convicto da minha existência. eu achava que existir era uma espécie de ideia e muitas vezes colocava mesmo em questão se eu, de facto, existia ou se mais não seria do que a ideia de alguém sobre uma potencial pessoa. no fundo, no fundo, eu sentia-me quase como uma personagem. eu, vendo agora, e à distância, as coisas achava que era mesmo uma personagem; uma entidade pensada e construída, sem matéria e logo sem uma responsabilidade sobre o real. fui crescendo, penso que fui, fui olhando muitas, e muitas, vezes para o espelho e essa sensação dissipou-se. passei a ser aquele que finta o espelho e espera uma devolução dessa primordial sensação. há um ano e tal fi-lo, na casa de banho meu último amor, só para mim, porque precisava que algo de irreal, e ao mesmo tempo profundamente real, acontecesse. porque precisava que o espelho me dissesse que estava errado. e com isto perdi a alegria que nos ver aos dois, tantas vezes, lado a lado, me poderia ter dado. ao amar voltei a duvidar da existência daquilo que o espelho me devolvia e voltei a sentir a adolescente estranheza e, acredito agora eu, acreditei nela. e esse processo impediu-me de ver. hoje acredito que o que é necessário não é partir os espelhos mas sim ver neles. é preciso realmente ver aquilo que os espelhos, realmente, espelham; e acreditar. acreditar que eles nada mais são do que superfícies. eles não são a vida: apenas a nos devolvem e nós temos de lhes saber dizer não! porque os espelhos, muitas vezes, são aquilo que nós não queremos mas os nossos demónios querem ver. os espelhos são superfícies. façamos deles a verdade e vejamos neles muito mais longe. vejamos nos espelhos o bem; porque a vida também é isso, cacete! os espelhos são viagens que nós queremos fazer ao passado mas que teimamos em não fazer ao presente e, sobretudo, ao futuro. e nem falemos nos espelhos partilhados... porque é aí que a grande macacada começa... se quisermos. mas se não quisermos os espelhos são apenas vidro onde a gente, a dois, pode escrever. e eu sou uma pessoa da escrita... venham os espelhos... eu sei escrever; cada vez melhor, eu quero e, sei escrever. just give me your hand!

1 comment:

Catarina said...

Lindo! ***