Wednesday, April 07, 2010

o carril

era uma vez um menino que sentia comboios dentro das veias e por isso, durante muito tempo, foi incapaz de sair do quarto. deixou-se ficar, muitos e muitos anos, enclausurado na quietude de tudo o que lhe parecia imutável, familiar, pacificador, seu. fingia que não mas temia o mundo lá fora. passava os dias colado à janela, a observar solitários cães, senhoras reformadas com sacos de plástico repletos verduras a caminho de casa e a rotina algo tonta do carteiro. mas os comboios, dentro das suas veias, nunca cessaram a marcha. um dia abriu a janela, e sentiu, vindo de longe, o cheiro daquilo que poderia ser o mar, ou o deserto, e partiu. hoje sabe que os comboios são janelas em movimento e constrói com as unhas e pensamentos o seu próprio carril. é dono de um comboio-vida (onde não há primeira nem segunda classes).


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