Tuesday, March 23, 2010

fridge buzz 1

são sonhos, senhor, são sonhos - disse eu quase displicentemente enquanto o coração me era arrancado do centro do centro, ou seja, do peito.
a operação, não no sentido cirúrgico do termo, pois não era, definitivamente, disso que se tratava; a operação, no sentido da acção que até ao fim se leva, mostrava-se lenta e indolor. atrevi-me a sorrir.
quem diria- pensei e disse eu, em bem clara e determinada voz - quem diria que ao ver o coração do peito ser retirado a única coisa que me atormentasse fosse este som?
bem, o som, é preciso que agora uma pausa no relato seja feita, o som era redondo. não consigo encontrar um adjectivo que melhor o defina; é exactamente esse: redondo. um som completo, que em si mesmo se encerra, que em si nasce e termina, que um perfeito círculo no imaginário desenha, um som consciente: redondo. talvez não seja necessário referir mas eu, um ser peremptório e repleto de rotundice (é preciso que saibas que sou especialista no que à criação de novos vocábulos concerne e é preciso que disso gostes; caso contrário evapora-te da minha escrita), eu, um ser desse calibre (e odeio esta palavra), fiz questão desse facto salientar.
bem, uma vez mais, quero chegar ao som. mas esqueçamos, para a ele voltar, por ora o som, o facto de redondo ser, a operação (coração do centro do meu centro ser extraído), etc.. porque tudo isso nada mais é do que um conjunto de inverdades. tenho o coração no seu próprio sitio, operacional e, esse sim, irrelevante. na verdade, nem o sinto. descobri que o meu coração é um componente periférico ao qual acedo conforme dele necessito. mas tudo isso são arabescos, filigranas, dispersões, inutilidades. os corações são obstáculos neste trânsito do ser e, no que ao meu concerne, por tão pouco dele perceber e precisar, prefiro que desconectado se mantenha. porque o coração para muito pouco interessa. é um outro e tão enfadonho, além do apêndice, apêndice!
agora sim, agora, vou ao centro do centro: o som. há anos que ando a tentar capturar a essência do que hoje cataloguei como o som da vida externa. na verdade, o som da vida vida. porque a vida só a si mesma de categorismo se reveste quando externamente a contemplamos. há anos que quero poder chegar ao dia em que ao fridge buzz possa aceder. não será certamente agora que o farei porque ainda desse conceito me estou a aproximar. estou a sondá-lo. o fridge buzz é o centro do meu centro. é o centro de toda a minha imódica sensibilidade, é o princípio de mim. e, devo confessar-te, foi preciso viver mais de trinta anos para a essa certeza chegar.
vou dar-te apenas um exemplo/sketch/lamiré:

tenho saudades de agosto;
as tardes de agosto,
das tardes de agosto.
soalho frio, tijoleira, mosaico, fresco, toda a casa da minha avó.
agosto à tarde; a doçura,
a solidão fresca e veraneante da minha meninice.
a voz da avó embalava: sempre odiei dormir a sesta,
assustava-me e enfadava-me.
eu e a avó carminha, para que eu pudesse/conseguisse dormir, fazíamos camas improvisadas no chão do quarto dela.
quase que brincávamos aos acampamentos.
era bonito, divertido e nosso.
agosto à tarde;
a sonolência de agosto à tarde,
enquanto eu tinha cinco, seis, sete, oito, nove, dez anos.
um cobertor no chão, um lençol por cima e nós no meio (eu e a minha tão amada avó),
ah, mais duas almofadas.
era este o tempo de dormir, em agosto
na calorosa e fresca casa dela: à tarde (vamos dormir a folga - dizia ela).
a casa dos meus melhores natais.
mas é de agosto que falo e é nesse mês que me concentro.
e eu dizia-lhe, todas as tardes:
"canta-me, avó, a canção da velha ceguinha."
e ela cantava uma canção que agora (e receio que para sempre) recordar não consigo.
uma canção triste e bonita: a velha ceguinha.
e a minha, ainda não velha, avó cantava-me essa canção.
com a frescura da primeira vez, como se da primeira vez se tratasse, todas as tardes; em agosto.
e, assim, adormecia.
e, assim, a minha avó adormecia.
e quando a sentia bem ao sono entregue, eu, levantava-me da cama de brincar
e andava pela casa, fresca e vazia, a ser eu mesmo, sozinho, menino, grande, eu mesmo.
tudo em calma e sossego estava.
era agosto e a avó dormia.
era apenas eu a ser eu e o fridge buzz que, na cozinha, na sua perene existência, companhia me fazia.
é sobre isso que irei sempre escrever.
é aqui que está o centro do meu centro.
este sou eu.
e é dentro desse frigorífico que, à minha espera, estão o meu coração e a minha escrita.
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quando o coração da minha avó parou, porque "em cinco bocados se partiu" (foi assim que o meu avô casimiro replicou a conversa que o médico lhe fez) o meu coração partiu-se também e com ela ao pó voltou.
foi isso que eu senti (mesmo tendo sido meses, anos, mais tarde) mas agora percebo que não foi o meu coração: foi o nosso, o das tardes de agosto. e eis que, restou apenas a cabeça, a minha cabeça; a cabeça que um dia, pela escrita, há-de abrir e mostrar ao mundo o que dentro do frigorífico (que buzz sempre fez e faz) há assim de tão importante, assim de tão pequeno e valioso; como as grandes coisas do mundo são.
congratulo-me por estar no sítio onde estou; congratulo-me pela minha pequena, atenta, lenta, peculiar, bizarra, infinitude.
sou maior quando sinto que me não acabo nas pequenas coisas do coração.
porque o coração, ainda que apêndice, sábio e inútil, como as grandes e verdadeiras coisas são, é!
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o mais estranho disto tudo é sentir, e devo confessar que há já alguns anos, que o eu menino mais não era do que um, no tempo, emissário do, agora, eu homem. como se quem eu fui tivesse sido pensado por quem eu hoje sou.

nasci já grande e ainda não consegui perceber bem o que é isso.

é por isso que brinco com as coisas tão sérias, porque, parece, ainda agora comecei a brincar.


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