Tuesday, January 12, 2010

o império do sim e não querer ou a Febre (a parturiente do não encontro)

agora mantenhamos a atenção demoradamente fixada no líquido que, sobre a carne, se dá, enquanto se nega ao jarro que por mais de um milénio lhe serviu de albergue, ao luxo de ser entornado. vejamos a forma como embate no chão, como salpica as ervas, como ensopa os cabelos e as roupas desta desgraçada; como escorre, qual viril e menino veneno, rua fora e como, se comandado fora por um cio maior, um cio primeiro e primário, ao mar se entrega tão sem qualquer tipo de atrito ou, até mesmo, reserva.
corramos, então, até lá, irmãos; e deixemos que este dia fique gravado na memória desta paisagem cujo nome, idade e exacta localização tanto nos temos esforçado por desconhecer. dispamos nossos trajes e ofereçamo-los, sem qualquer tipo de resistência, a este bravio fogo que aqui, no preciso início do oposto da preia-mar, estas crianças famintas e loucas, ferozes como bestas, há mais de vinte luas, atiçam com a própria resina e urina.
que sejam nossas sedas e brocados (tantas vezes usados para compactar até ao fim dos tempos o colectivo das nossas epístolas), que sejam, irmãos, pelas chamas, de uma vez, devorados. e que assim: nus, escalvados e tresloucados nos entreguemos a estas águas e que com a força do princípio do sexo demos o apogeu a esta encénia.

foram estas as últimas palavras proferidas pela Voz Primordial aquando da criação da Febre. depois restou o silêncio e a imperiosidade da possibilidade. um silêncio maciço e abrupto, um silêncio desconhecido, de tão antigo; o silêncio que habita o sangue mas não a boca. e a Febre instaurou, assim, o seu infidável e metástico império: o império do sim e não querer; o império do não encontro.

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