Friday, October 16, 2009

sobre o impossível

"e levante-se quem nunca engoliu um considerável bocado de vidro".
dicidi, agora mesmo, que é assim que começará o romance que jamais escreverei, o meu romance impossível. ao aprofundar a cogitação ocorre-me um conto, sim, creio que é um conto, da patricia highsmith cujo protagonista é um escritor que apenas redige na cabeça e cujas obras jamais têm composição gráfica, ou redacção efectiva, chamemos-lhe assim. a propósito de impossível, revivo as discussões, discussões entre aspas, porque na verdade nunca o foram/são, entre mim e o ricardo aquando da concepção do projecto que, mais tarde, viria a intitular-se "a voz de onan". falávamos, nessas discussões que nunca foram/são discussões, sobre as minhas obras impossíveis. e decidimos que sobre as mesmas incidiria o produto que estávamos decididos a elaborar. não o foi, "a voz de onan" não foi sobre isso, efectivamente falando. pode ter sido de forma tácita mas não efectiva. mas o que interessa são as ideias que se constroem, as conversas que nos permitimos ter, a permuta, a criação; e na criação é tão importante o que fica como aquilo que se esfuma, sobra, vai, não acontece.
"e levante-se quem nunca engoliu um considerável bocado de vidro", é assim que começa o meu romance que jamais virá a acontecer. eu, que há algum tempo decidi que tenho um prazo de cerca de dois anos, mais coisa, menos coisa, para provar que sou a grande promessa da literatura portuguesa e dez anos para provar que sou o melhor autor da nossa língua, permito-me ainda conceber romances impossíveis ou, pelo menos, displicentemente não redigíveis.
descobri, numa entrevista, que o lobo antunes cita muito. alentou-me, eu cito, sou uma pessoa que cita. e cito, não é bem citar, é referir, o dito lobo antunes. a escrita é uma espécie de canal, entre mim e a folha/página em branco. a escrita é o uso que a mesma faz de mim. quando escrevo sinto-me comandado por uma entidade, cuja dimensão nem me atrevo a tentar definir, que me coloca na posição de escriba/emissário/medium/serviçal e aquilo que produzo mais não é do que um acertar das minhas impressões, ou seja: é colocar a minha sensibilidade, a minha intuição, o meu entendimento (que kantiano estou!), o meu sentir (que prosaico-popularucho estou) na certa dimensão. é o actualizar, é o configurar, é o colocar no devido lugar (que aleixiano estou, e sou, porque eu, vá-se lá saber porquê, adoro rimar). a escrita é o put in its righ place. e, concluo agora eu, o porquê da impossível obra deve-se ao facto de essa obra não ser a permitida/agendada/sentida/entendida/intuída por mim e, muito menos, a prevista para mim por essa "sobrenatural" entidade. vejamos o quão paradoxal (para não dizer pescadismo de rabismo no boquismo) tudo isto é; quando eu mais não sou do que o escriba, o serviçal. e com isto fiquemos; quando eu ainda tenho tanto para provar, nem que seja o porquê escrever. eu sinto-me encruzilhado; mas sei que o faço por algo que nem me atrevo a tentar definir.
conclusão: há tanta coisa que jamais poderemos vir a definir; e o gozo que isso dá (quando deixamos de tentar lutar contra isso).
"tu foste o país que eu nunca tornei hino
tu foste, e serás, o mote para deixar de ser menino
tu queres ser um estilhaço do divino
e eu sou uma guerra contra o antes, o durante, o depois da ideia de destino"
é assim que começa o poema odisseico que jamais irei escrever. e a culpa não é apenas minha! "a culpa é da vontade" antónio variações dixit.

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