Friday, May 02, 2008

olhares sobre o jardim - 2

in, Jornal do Algarve (extraído da edição online; 2008-03-20)
Um jardim secreto
Ana Oliveira
A companhia Azul Ama Vermelho estreou em Lisboa, no Teatro da Trindade, o espectáculo "Apenas Jardim". Uma alegoria ao sentimento de si e à descoberta de cada um de nós no seu jardim interior .
Com autoria e encenação de Hugo Amaro, a companhia Azul Ama Vermelho estreou a sua terceira produção na sala estúdio do Teatro da Trindade. Desta vez tratou-se da encenação de um texto criado expressamente para cinco personagens insólitas. Segundo o autor, "Apenas Jardim" partiu de um desafio muito simples: criar um espectáculo que pusesse em relação uma mulher que não tinha nada de especial e um contrabaixo. E essa interacção seria num jardim. No decorrer do desenvolvimento do projecto, acabaram por surgir novas personagens, como a Menina Bonsai, o Perchista do Pensamento e a Mulher do Chapéu, que retratam e figuram cada um dos cinco sentidos. Cinco personagens que simbolizam os cinco sentidos, todos num Jardim, um lugar imaginário. Desde a antiguidade que a metáfora do Jardim se conjuga com o mistério e com os diferentes estados de espírito. Para os românticos, a exploração do jardim contribuía para viajar nas angústias do pensamento. Neste espectáculo, o Jardim é uma das personagens e tem vida própria. Fala com o público em voz-off. É ele quem decide quem o habita. “O meu nome? Jardim, apenas Jardim. Querem encerrar-me, julgam-me malogrado. Ignoram que em mim só habita quem quero”. O jardim é dentro do espectador, é dentro de quem o vem ver. Este jardim é a representação de um plano metafórico do sonho criador, o espaço onde passamos, no momento em que adormecemos, quando vamos para o sonho ou quando voltamos do sonho, onde deixamos os resíduos do mundo real e do mundo onírico que nos completam. Hugo Amaro explicou: "Quando adormecemos, quando estamos no primeiro estádio do sono, vamos perdendo os sentidos por uma determinada ordem. Esse foi um dos elementos que me levaram a criar este conceito todo do jardim como um espaço onírico, mas não exactamente o espaço do sonho: o espaço da passagem". O sonho aqui é uma metáfora "de quem dorme e sonha efectivamente" mas também "o sonho dos nossos ideais, de lutar por aquilo que queremos, em que acreditamos e de estarmos em contacto connosco, com a nossa realização, sermos felizes". Depois de as personagens contarem a sua história e interagirem, este jardim imaginário revela ao espectador, num dos seus discursos, que é ele o seu dono - logo, o responsável pelo cansaço das personagens que o habitam, pela falta de sanidade e de vida, porque "deixou de olhar para dentro de si e se esqueceu, por falta de tempo, vontade e coragem, de adubar o seu jardim". "Partindo do princípio de que o espectador é um elemento que está alienado, a peça é uma crítica a um certo estado contemporâneo, a uma série de perturbações e poluições que temos no nosso dia-a-dia e que nos privam muitas vezes de estar em contacto e diálogo com o nosso jardim interior". As personagens que o povoam são Apenas Maria (paladar), a Menina Bonsai (visão), o Perchista do Pensamento (audição), o Contrabaixo (tacto) e a Mulher do Chapéu (olfacto). Maria, personagem encarnada pela actriz Alexandra Sargento, que a criou, é, como o jardim, Apenas Maria, sem outro nome próprio ou apelido - uma mulher sem nada de especial que não sabe rir e grava as gargalhadas dos outros, para ensaiá-las e escolher uma que possa tornar sua, enquanto espera que se materializem as coisas boas que a vida por certo lhe reserva. “Sem segundo nome, nem apelido. Como eu, é apenas; apenas Maria. Não ri; grava as gargalhadas alheias e ensaia uma que possa adoptar. Espera encontrar, aqui, aquilo de bom que sabe que a vida lhe reserva. A Menina Bonsai (Isabel Simões Marques), que se plantou, literalmente, no jardim, é sábia, quer crescer pouco e devagar por fora para poder crescer devagar por dentro e treme e chora enquanto cresce, porque vê os verdadeiros rostos do bem e do mal. É ela própria que diz: “Não sou profeta, muito menos um oráculo. Não tenho qualquer convergência com a divindade. Se quer que lhe diga, nem acredito no divino. Sou talvez visionária. Melhor do que isso, sou uma leitora atenta e assertiva, de tudo.” Ela é a detentora da visão de um futuro preocupante. As crianças do futuro: “Essas crianças, esses instrumentos de controlo, irão crescer e tornar-se igualmente obreiros. A capacidade de controlo e supervisão ir-se-á diluir ao longo da puberdade e da adolescência, para que, chegada a idade adulta, essas crianças se tornem obreiros incorruptíveis. É claro que todo este processo é feito de forma gradual e será apurado geração após geração. Chegará uma altura, num futuro não muito distante, após a guerra entre miúdos e graúdos, em que toda a gente será obrigada a procriar. E à nascença cada indivíduo é formatado, injectado com Uno Gnôsis, para que se torne um detector de desvios. Em apenas três gerações toda a população será obreira.” O Perchista do Pensamento (João Cabral) representa a audição e anda a ver se capta o silêncio absoluto. Este Jardim possibilitou-lhe a captação do pensamento alheio e ele acedeu, dessa forma, ao silêncio absoluto dos outros: a sua torrente interior, o que pertence ao domínio do não-dito. É ele que revela o cansaço que liga os cinco elementos: “Eu, tal como a menina, também estou muito cansado. Sinto-me exausto, mesmo. Estou completamente esgotado e quase prestes a desistir. Não sei se continuarei a vir a este jardim. O que aqui descobri parece ter-se dissolvido e não consigo evitar questionar-me se continua a valer a pena vir e estar aqui. O cansaço parece ter tomado conta do jardim. O cansaço e o esgotamento abateram-se sobre nós". Belíssima a imagem em que João Cabral e Isabel Simões Marques abrem as portadas sobre a cidade de Lisboa. O perchista fica a ouvir os sons da cidade e a Menina Bonsai a ver como a cidade corre. O Contrabaixo (João Custódio) é um rapaz que deixou de falar, tomando à letra um conselho que o pai lhe deu antes de morrer, segundo o qual, na vida, ele deveria ouvir mais do que falar, e passou a expressar-se tocando contrabaixo. A Mulher do Chapéu (Patrícia Bull), uma mulher fria, a quem falta o gene do amor, transporta consigo uma maldição: quem olhar o seu belo rosto apaixonar-se-á perdidamente por ela e será para sempre infeliz. "Dama selecta e bela. Tem de usar um chapéu com uma aba muito larga para que ninguém lhe possa avistar o rosto. Aquele que o vir apaixonar-se-á fatalmente e será eternamente infeliz. Falta-lhe o gene do amor. Aqui permanece, a ler romances e a cantar canções de amor." Uma ideia romântica que pretende desocultar os enigmas do inconsciente. Os figurinos contemporâneos reforçam a imagem de um jardim intemporal, transversal a todas as gerações. Com interpretações excelentes, "Apenas Jardim" é um espectáculo diferente e ousado que se desoculta a quem tiver a coragem de penetrar nos seus segredos. A ver no Teatro da Trindade até dia 14 de Abril.
na verdade, terminou a 13 de abril; como era previsto e suposto

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