Saturday, May 13, 2006

medula parties vs coração e o nome

não retenho os nomes, retenho as vozes.
estico os cheiros, ficam-me nas mãos; este ficou, nos dedos (falanginhas e falangetas) da mão direita.
mão direita, lado direito: onde não está o coração.
não retenho os nomes; retenho a espessura dos cabelos e as cores dos dentes (o grau ou ausência de brancura).
processo os timbres das vozes, alojam-se nos meus pavilhões auriculares, mas jamais os arrumo cronologicamente; ecoam conforme lhes apraz.
eu só ouço, com paixão e atenção, as canções que me fazem cócegas na gelatina dos ossos (medula party).
não retenho os nomes, retenho palavras ao acaso e diferentes formas de as pronunciar.
selecciono frases chave para me trazerem, onanistamente ou não, à memória decalques de rostos que me cativaram na escuridão de um qualquer antro.
não retenho os nomes, retenho a forma de acordar, retenho a forma de um abraço, retenho (na lista preguiçosa do telefone) números de telefone, retenho o recolher ritual da roupa para a voltar a instalar no corpo (quase sempre o silêncio, retenho-o também com perícia), retenho o fechar da porta, retenho o dizer adeus (com o lado direito da boca, onde não está o coração).
não retenho os nomes porque sou hieroglífico (nos tempos que correm, bidimensional); vivo a torto e a direito no mundo. apenas sou esquerdino antes de adormecer, quando sinto com a mão esquerda o bater do coração e recito, com o lado esquerdo da boca, a beleza do teu nome.


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