Tuesday, October 18, 2005

retrato falhado de um espectáculo

Ela com a voz dela:
Eis que aqui me tens, toda tua, eu, eu a tua, toda aqui, para ti, para sempre. Eu à tua frente. Eu atrás de ti, eu por trás de ti. Eu a tua. Eu que cheiro a mim, a tua. Eu, aquela que se parece comigo, a tua. Eu, a mesma. A mesma que sempre fui. Eu, eu aqui e agora. A tua, sempre tua, eu. Sempre. (pausa de dois segundos)
Esta é a minha voz. A tua, a tua voz. A tua com a própria voz, a voz dela, da tua. A tua e a sua voz. Estas são as minhas palavras, este é o meu discurso. O meu. O meu da tua. O meu discurso para ti. Para ti, o teu. O teu, tu, da tua.
Este é o meu tempo, o meu, da tua. Este é o tempo prometido. Prometido por ti à tua. A tua tomou o teu tempo para a tua, eu. Eu a tua para sempre. A tua para sempre no tempo dela, com a sua própria voz, no seu próprio corpo no tempo, teu, para a tua.
Não quero que fales nem que te cales. Não te mexas e não te exales. Aproveita este tempo como se o mesmo fosse uma dádiva. Aproveita-o como se fosse o tempo que te restasse para cumprir uma hercúlea tarefa. Não penses. Ouve. Ouve a minha voz e recorda-te. Recorda-te de mim, da tua.
Chorei como uma recém nascida quando te vieste dentro de mim pela segunda vez. Chorei como se tivesse acabado de entrar no mundo. Chorei e vim-me. Tu não proferiste uma única palavra. Não esperava que o fizesses. Esperava que fizesses o que fizeste. Apagaste a luz e ouviste-me chorar até adormeceres. Chorei durante quatro horas seguidas. Amanheceu entretanto. Lembro-me de ter amanhecido. Lembro-me ter olhado para o relógio e ter pensado: “são sete e doze, acabo de fazer vinte e seis anos”.
Quem me dera morrer, pensei. Quem me dera ser a mesma que sempre pensei estar a vir a ser. Quem me dera ser a mesma que eu planeei para mim. Quem me dera ser a mesma que nunca te conheci. A mesma que encontraste em silêncio no fim da manhã de Outono da tua juventude. Quem me dera ser a mesma que quero ser. Quem me dera morrer para não ter de falar, sentir, vir-me e chorar por esta. Quem me dera morrer para nunca passar por esta. Quem me dera morrer para não ter de ser. Quem me dera morrer para parar de crescer e de ser.
Nunca te quis ver mais ou menos feliz. Nunca te quis ver diferente daquilo que sempre foste. Nunca te quis ver para além do que tinhas a mostrar-me. Nunca te quis ver doente ou são, sujo ou impoluto, pobre ou abastado. Nunca. Nunca te quis ver para além daquele que me dizia:

Ele com a voz nenhuma:
Quando eu morrer não chores, bebe mais um copo e enfia-te na cama com o primeiro que te aparecer à frente. Não percas tempo comigo, depois de morto, não valho muito, serei apenas mais um entre os muitos que te invadiram a boca.
Muda de cidade, quando eu morrer, ou de país. Talvez seja melhor ires para o outro lado do mundo, é lá que não existo. Quando eu morrer não te sentes no escuro. Abre os olhos, fareja dinheiro e torna-te naquilo que queres vir a ser. Fá-lo por mim. Fá-lo por nós. Ao fim e ao cabo foi para isso que decidimos viver de olhos postos um no outro.

Ela com a voz do mundo:
Esquecemo-nos que o amor se faz com as nossas próprias mãos.

Ele com a voz do fim do mundo:
Não, foram as nossas mãos que se esqueceram de se procurar a si mesmas.

este texto é a abertura de "Retractos Falhados do Amor", um espectáculo que talvez nunca passe de um documento word contido na pasta que diz teatro, por sua vez, contida na pasta que diz os meus documentos, todos eles pacificamente contidos num objecto que é o meu computador. a ser feito, este espectáculo é tudo menos pacífico. não foi escrito em paz.

2 comments:

Anonymous said...
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E.L.P. said...

Este texto, além de tudo, é dos mais bonitos que li de ti.
Nao me fizeste chorar por vergonha, e por ter as luzes acesas. as luzes secam as lagrimas da minha sobre-expressao. as luzes apagam a escuridao dos meus olhos melosos.
Adoro-te e adoro o que escreves.

Tira isso da pasta os meus documentos e arranja-o para o pores, fora de pasta alguma, num palco qualquer. A ser, na rua.

Beijo.