Saturday, May 21, 2005

a tarde e o consolo

Mergulho, a sós, na tarde.
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.

Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.

Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.

Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.

Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.


Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.

Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.

Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.

Vou rir do medo, vou brincar comigo.

Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia

E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"

José Carlos Ary dos Santos

(dedico este post ao meu amor. por tudo de bom que me tem dado nestes 3 meses. parabéns a nós hoje. faz hoje 3 meses que amanhecemos juntos pela primeira vez. um beijo profundo.)



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