Tuesday, April 19, 2005

mercado negro das palavras

vem, com toda a tua subtileza e pés de algodão, procurar-me. vem, para que me possas listar. sou eu, o mesmo, quem encontrarás. o mesmo de sempre, perdido entre armaduras assimétricas enferrujadas e sinais mal formados do amanhã, rendido e vendido em saldos num mercado qualquer.
vais encontrar-me ainda acordado, sujo e sem pele na ponta dos dedos, no mercado negro das palavras que és incapaz de dizer. eu sou o comprador compulsivo, o abutre, o somítico previdente, que percorre uma a uma todas as línguas à procura da palavra última. sou quem compra as palavras acabadas de pensar. sou eu o coleccionador destemido/infantil que não consegue acabar o seu próprio jogo. vais encontrar-me cinzento e mudo no mercado negro das palavras.
já estive algures. já fui longe para poder chegar até aqui. já vi morrer muitas musas e muitos poetas. já bebi muita tinta. já cortei muitas vezes as pontas dos dedos, à força de tanto dormir com papel.
conheço-te bem: és metatangencial. és palavras que ainda não comprei, palavras ainda não pensadas. és o antes das palavras.
conheço-te mal: não te posso comprar. não estás à venda. não proferes.
conheço-te como posso: na pontuação. no fim das frases. nos gritos que não concebes. na voz que evitas ter. na preguiça do dizer. no olho clínico onde vives: no mercado negro do olhar.
vem e procura-me, agora, nas palavras que ainda não te foram apresentadas. vem listar-me no abismo último da sintaxe. vem surpreender-me no acto da compra. vem observar-me nesta busca. vem mirar-me nesse ritual onde me vendem ao calhas palavras que espero serem de ti. vem ouvir-me na compra da tua própria voz.
vem destruir-me tudo isto, em silêncio e em fúria, para que me possas calar.

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