Sunday, April 24, 2005

esboço retomado de Amena (work in progress 2)

Mais do que distinta, Amena, tornara-se atenta e imune à sua própria tentacularidade. Dentro de si não existia uma clara e precisa conclusão acerca do que parecia ser certo ou errado. Amena ia. Amena seguia os seus próprios instintos como se estes de carícias se tratassem. Havia perdido o contacto com o próprio tacto e essa mesma perda passara a tornar-se o refúgio que, além de muito desejado, se mostrara inevitável.
No preciso momento em que deu à luz decidiu deixar de ouvir para sempre. A excepção, firmemente firmada dentro de si, abriu-se apenas para o pequeno ser que as suas entranhas haviam acabado de jorrar. O pequeno ser chorou e Amena chorou com ele. A partir desse instante todo o mundo se tornou um massa inaudível para ela. Decidiu: "a partir de hoje só a ti ouvirei".
contexto:
Inventei a Amena há cerca de dez anos. Esbocei-a em apenas uma página num livro em branco que alguém me ofereceu porque achava que eu iria ser escritor. Escrevi muitas coisas nesse livro em branco e depois, em manifestação lírico-imberbe, queimei-as. Creio que não queimei o primeiro esboço de Amena. Mas não sei onde pára a ruína desse livro em branco. Anyway; a Amena nasceu de uma imagem que me surgiu do nada aos dezoito anos: uma jovem mulher a afastar-se, num descampado, de uma tenda de circo em chamas. A mulher leva nos braços um recém nascido. Ouvem-se cães a ladrar. A mulher chora em silêncio enquanto caminha. A mulher chama-se Amena. A mulher chama-se Amena porque está aliviada.
Hoje a Amena voltou e eu voltei para ela.
Bem-vinda sejas, Amena!

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