Thursday, March 03, 2005

us 5 ou me in us 1

Vivo dentro das canções e a escrita é um transporte.
Sou um animal silencioso por norma, excepto quando sou um demónio. Nessas alturas invento palavras que ainda eu próprio desconheço. E invento-as para conservar a capacidade de me desconhecer.
Eu não quero ficar aqui; mas é precisamente daqui que eu teimo em nunca sair. E por isso abro as portas das canções e vivo entre rimas e refrões que eu reproduzo como se fossem meus. É como se a minha vida fosse crescendo, andando e rompendo uma via sólida dentro da água de onde não consigo deixar de naufragar. A vida é uma estrada que vai andando. A minha pelo menos assim o parece. Só que eu vivo dentro de água e, se os meus dias são correntes, as minhas noites são marés. E tudo isto torna a estrada muito sinuosa, escorregadia, evaporável.
Às vezes quando me olho ao espelho sinto-me transparente, imaterial, sem substância. Sinto-me uma ideia.
Quando eu era criança gostava de imaginar que não existia. Gostava de pensar que a minha pessoa era uma ideia, um delírio, uma trama, uma alucinação de alguém que se sentia muito entediado consigo mesmo. Gostava de supor que esse alguém iria, mais cedo ou mais tarde, fartar-se do seu passatempo e que eu deixaria de existir/decorrer de um momento para o outro. Essa ideia aliciava-me.
Hoje sinto-me na pele de esse outro alguém. Sinto-me esse entediado demiurgo. Sinto-me um arquitecto sempre insatisfeito, sempre incompleto. Cresci e desmorono-me todas as noites. Sou o outro alguém e a criança em simultâneo e a minha cabeça é o campo de batalha onde ambos travam a guerra. A guerra que conduz ao fim. O fim pelo fim. O fim, o fecho, a conclusão. O final da água onde naufrago. Porque ambos se olham ferozmente nos olhos. Porque ambos falam a mesma língua. Porque ambos estão fechados cá dentro. Porque ambos querem sair e habitar o meu corpo. Porque ambos querem selar a minha cabeça. Porque a criança cresceu e porque o outro alguém, o criador entediado, não criou um antídoto que neutralize o medo. Por isso mesmo nenhum dos dois, criança e criador, tem coragem para ganhar esta guerra.
Enquanto dormes na minha cama eu concluo que quero dizer-te tudo além disto.
Próximo, tu disseste próximo. O relógio quase parou. E a minha arte não é infinita. Ao fim e ao cabo isto é entre nós dois; a arte aqui não manda nada. Somos só nós, o relógio e a mútua vontade de o parar. Teremos? Eu tenho às vezes; quando não estou a arbitrar a guerra.
Fala-me de ti.

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