Friday, March 11, 2005

Malos Aires - work in progress (um regresso ao processo)

Ele continuou a instituir o silêncio na própria carne e passou a fazê-lo com perícia e convicção. O uso da linguagem deixou de lhe fazer qualquer sentido ou falta. Essa instituição, a do silêncio na sua própria carne, passou a ser o seu novo vício. Um vício em tudo semelhante ao seu vício anterior: construir com Ela uma nova linguagem. Uma linguagem apenas da ligação, do encaixe, do amor que mantinham.
Após ter cortado mais um pouco da língua (a quarta extracção que efectuara), decidiu reler os manuscritos que havia iniciado aquando da decisão de, juntos, sitematizarem a nova linguagem que os uniria para sempre.
"Tu aprendeste comigo a fazer café. Aprendeste comigo a bebê-lo melhor. Aprendeste a abrir o teu olfacto e fui eu quem te ensinou a comunicar com ele. Dizes: "o café contigo cheira e sabe melhor; és um manual dos apetites."
Prometi-te a invenção do teu segundo nome mas o meu tempo não tem estado a meu favor. Eu sei que esperas o momento desse parto com o mesmo entusiasmo com que um ventre maduro espera um suco que o fecunde. Percebo-o quando me olhas, quando me beijas e quando me beijas e me olhas ao mesmo tempo. Não esmoreças, isto não é o fim de nós. Isto não é um fim; é uma entrada. É a minha entrada em mim para poder perceber claramente o nome que te tenho cá dentro. Eu não vou inventar o teu segundo nome. Vou, isso sim, aprender a comunicar com ele. Porque ele se inventou a si mesmo em mim. Não esmoreças e não chores no duche. Vai ser um processo de mútua comunicação e também de conhecimento. É necessário tempo. Vou ter de consumir horas. Eu estou para o teu segundo nome como tu estiveste para o teu olfacto. Eu estou para a tua vida como tu estás para o café.
Ultimamente quando escrevo choro. A escrita liga-me a algo de muito precioso que eu até agora não tinha descoberto existir em mim. É uma espécie de poder; um poder menino e torrencial. Fazes-me bem. Fazes-me melhor. Eu choro por isso. Choro enquanto escrevo para ti. Eu escrevo tudo para ti. Tu vives tudo para mim.
As horas contigo passaram a ter um sentido mais profundo. As horas já não são apenas horas. Porque o tempo entre nós passou a ser o comércio da carne e da fala.
Vou parar de escrever agora. Vou aprender a chorar mais um pouco.
Se algum dia fores a Buenos Aires sem mim não bebas café. Pede-o, olha para ele, cheira-o e toca-o. Mas, por favor, não o bebas."
Ele fechou o manuscrito e abriu a janela a um pássaro que acabara de morrer no parapeito.
Ela consegui o tão desejado quarto no hotel em Buenos Aires. "Finalmente o 111", pensou quando rodou a maçaneta da porta. Entrou, susteve a respiração e desfocou o olhar algumas vezes. Sentiu uma leve tontura. Foi incapaz de se deitar na cama. Deitou-se no chão e decidiu que nessa tarde iria pedir café. Adormeceu a sorrir.

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