Thursday, January 06, 2005

o rio semântico

trinta e três horas e trinta e três minutos de pouca luta. havias de ver os desenhos que fiz nas tuas costas. quando estiveres perto de um espelho, confirma se ainda lá estão. se estiverem telefona-me. sabes que atenderei. sabes que estarei à espera. tu conheces-me, sabes que eu sou sempre aquele que está sempre à espera. sabes de cor as minhas esperas. já viveste quase dentro do meu telefone.
há dias em que sou quase interventivo, audaz, nocivo, revolucionário. mas estamos em crise. e sabes que em tempos de crise não há revolução que sobreviva?! agora não. agora já não. esta crise é dessas. é dentro.
lembras-te dos tempos que antecederam a crise? lembras-te desses dias? os anos eram mesmo feitos de meses e os meses eram mesmo feitos de dias. nessa altura os dias eram dias. a luz era luz. o real era real. um beijo sabia a beijo, a pele a pele e a flor da idade era uma nação inteira a olhar-se mutuamente nos olhos.
ainda gostas de sorrir?
já não me recordo claramente do teu rosto. sei que é um rosto não comum. sei que é um rosto que combina na perfeição com a tua pessoa. o teu rosto é a assinatura digna e eficaz da tua própria existência. é um rosto demorado e luminoso. recordo-me do cheiro. sim, recordo-me com grande exactidão do cheiro do teu rosto. agora a imagem, essa começa a tornar-se difusa.
sabes que eu não choro? sabes, sim, tu sabes. há cerca de uma hora aconteceu-me uma vontade estrondosa de chorar. como se dentro de mim houvesse um sítio que se assumisse como uma foz, um afluente, um caudal de todas a lágrimas que estou incapacitado de verter. falo-te disto porque enquanto te escrevo este telegrama sinto um alívio próximo do choro. sinto que estou a desaguar. é como se as palavras fossem gotas de água, como se escorressem para fora de mim.
este telegrama não é um telegrama; é uma convulsão. é a pequena revolução que me é permitida neste tempo de crise. é uma guerra que eu travo contra uma coisa que sei exactamente o que é mas que tenho muito pudor em ta nomear. é grito de água que corre para ti. é um rio semântico.
voltei a lembrar-me da exacta imagem do teu rosto. tens cara de mar!

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