Tuesday, January 25, 2005

fénix

sim, é verdade, todos somos fénix tantas vezes renascida das cinzas. sim, é verdade, tens razão. e agora? ficamos em quê? ficamos onde? ficamos porquê? ficamos para quem? ficamos?
fala-me das tuas cinzas! descreve-me o seu odor, a sua gradação cromática, o seu peso e a sua espessura. acreditas que as tuas cinzas têm um peso diferente das minhas cinzas? acreditas! fala-me dessa diferença. como é que a sentes? é verdade, costumas sentir as tuas próprias cinzas? costumas guardar as tuas
próprias cinzas? costumas inalar as tuas próprias cinzas? costumas gostar das tuas próprias cinzas? não? não me digas que não. não não é resposta. não é o princípio do fogo.
preferes falar do fogo, é isso? queres falar, então, do fogo? vossa senhoria prefere o fogo! pois muito bem, falemos do fogo.
já alguma vez tiveste tanto medo de ti ao ponto de permitires que a tua sede de paz suplante a tua própria vontade? já alguma vez te questionaste sobre a tua necessidade de inventar paisagens, atrozes ou não, para poder ter algum lugar onde situar os olhos? já alguma vez tentaste perceber onde começa e acaba a tua voz? já alguma vez quiseste ser cego, surdo e mudo e viver apenas confinado ao teu próprio pensamento? já alguma vez ponderaste a possibilidade de te alimentares apenas da tua própria saliva? pois... sim
sabes nada do fogo
como queres tu contabilizar cinzas se ainda não aprendeste o valor da boca?
quando aprenderes a deslizar pela vida serás forçado a embater na tua própria boca. serás forçado a engolir-te a ti mesmo, de uma só vez, sem respirar. para não partires os teus próprios ossos. irás ficar alojado, inerte, sereno, hibernado, incapaz no teu próprio estômago. irás ficar imóvel durante quase dez meses. irás pontapear-te por dentro. irás sentir o prazer da fome. então, o teu segundo estômago, o interior, tornar-se-á feroz. irás sentir a fúria da fome, da lazeira, da míngua, da subnutrição. e começarás a comer-te, de dentro para fora. irás devorar sofregamente as tuas próprias vísceras, roer os teus próprios ossos, sorver o teu próprio sangue, apreciar a tua própria saliva. e quando morderes os teus próprios miolos vais aprender a ter boca.
vais saber tudo do fogo, vais saber nada da paz.

9 comments:

jasmeen said...

E agora? Perguntas-me em que ficamos? Onde ficamos, por que ficamos, para quem? Decide tu sozinho. Nada tenho a ver com isso. Aprende. Quanto às minhas cinzas, não as sinto. Nem sequer as vejo. Chama-me cobarde se quiseres, tanto me dá. Não as vejo e não as guardo. Digo-te, como cliché, que apenas guardo os bons momentos de cada relação e tu acreditas. Acreditas em tudo o que eu disser. Porque tu, tu gostas das cinzas. Das tuas e das minhas. Gostas de poder enrolar-te nelas, fazem-te bem à pele; gostas que elas te entrem pelos olhos, que te absorvam as lágrimas; que te tapem os ouvidos para não ouvires o que não queres; que te entupam o nariz, gostas de não poder respirar (sempre gostaste que eu te sufocasse, excita-te). Por isso fica tu com elas, que eu tenho a minha vida para viver.
E ainda me perguntas o que penso de mim próprio. Não percebes que não perco tempo com essas merdas e que é por isso que gostas tanto de mim? Eu sou o que tu nunca serás.
Diz o que quiseres, o teu amor tornou-me imune aos teus insultos. Alimento-me da tua mágoa e tu prestas-te a isso. Vicias-me. Venho-me só de olhar para ti.
Tanto barulho só porque o que te dei não foi suficiente para satisfazer as tuas carências. Dei-te o que pude enquanto me foi possível. E agora o que queres? Queres mais?
Usei os poemas que te escrevi e juntei-os aos dos outros amantes para mostrar ao mundo quem sou. Podes sentir-te vulgarizado se quiseres, ou então lisonjeado se fores esperto. É-me indiferente, a escolha é tua. Escreves bem os insultos. Porque não publicas agora tu um livro?

onan said...

Meu Caro:

O que te leva a crer que o meu post é um insulto? O que te leva a crer que é sobre o amor, ou melhor, sobre a situação amorosa? O que te leva a crer que és tu o destinatário desse, pretenso, insulto?

Ficas a saber que o post Fénix é sobre o onanismo. Pelos visto não o entendeste assim. É um hino ao onanismo. E ficas a saber que o remetente e o destinatário sou eu. Chamo-me Onan, remember that. É sobre a autofagia. Em absoluto.

Eu tenho o vício do insulto, é verdade. E sei que os escrevo bem. Mas não é este o caso. Não é um insulto, é um endodiálogo. Além disso não acho que neste diário eles sejam uma constante.

Pelos vistos o teu vício está a contaminar a tua leitura. O teu vício, teu.

Vens-te só de olhar para mim? Muito obrigado. "This is sex without touching" Que experiência sui generis. Sempre a quis ter. Gostava era de passar a ter consciência da minha participação, já agora.

Eu nunca serei como tu. Algo me diz que ainda bem!


Porque não publico agora eu um livro? Porquê agora eu? Quem é que publicou um antes que faça de um enventual livro meu uma acto no agora? De onde onde vem esse devir?

Escrevo bem insultos?

E tu escreves bem charadas.

Porque não publicas agora tu a tua cara?

Onan

onan said...
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onan said...

tenho relido o teu comment por diversas vezes, e só me resta acrescentar uma coisa;

conclusão: padeces de qualquer uma destas coisas

1- cobardia crónica
2- imaginação mórbidamente fértil
3- falta de conhecimento da minha verdadeira identidade (ou seja: andas a ler o blog de uma pessoa e a confundi-la com outra)
4- necessidade e vontade de travar comigo uma correspondência literária e ficcional (hipótese que mais me agradaria)
5- uma perturbação mental em pleno desenvolvimento (para isso não tenho a mínima pachorra, já me cruzei com gente mentalmente doente que chegue e juro-te que serei feroz no enxotamento dessa merda na minha vida)
6- uma questão muito mal resolvida comigo (que pode ser recíproca ou não, tenho várias com várias pessoas)
7- necessidade de me dar cabo da cabeça (não te dês ao trabalho, eu sei fazê-lo by my own, não preciso de ajuda)
8- sadismo feroz
9- masoquismo mal assuimido
10-nada para fazer
11- necessidade fazer recair (ainda que de uma forma perversa) sobre ti a minha atenção. PARABÉNS CONSEGUISTE. VEM-TE, UMA VEZ MAIS!!!

já agora gostaria de ler esse tal livro onde te mostras ao mundo. sempre quero saber se sou esperto ou não. sabes que recebi muito poucos poemas na vida. sou quase sempre eu quem os escreve, normalmente a pessoas que pouco os percebem/merecem. azar! mas, como sabes, chamo-me Onan. no fundo, no fundo, escrevo tudo para mim.
e só mais uma questão: que raio sabes tu do meu amor? nem eu sei, quanto mais um anónimo que assina com um nome efeminado e sem contexto.
fala ou cala-te para sempre!!!

jasmeen said...

devo confessar-te que sobrevivo principalmente à custa do teu diario. estou a usa-lo para curar o coraçao. um assunto de cada vez. comecei devagar. pus-me no lugar do outro e escrevi o que me doi. tambem eu fui remetente e destinatario das minhas proprias palavras. e, organico, o teu blog reage, a pulsar, e assim aprendo a aceitar-me. talvez nao aprecies esta responsabilidade, mas uma vez na internet, a tua arte passa a ser de todos. e nao somos poucos a precisar dela.

peço desculpa se para curar um coraçao é preciso quebrar outro.

fazes-me rir e fazes-me chorar, dependendo dos dias. estou muito longe daqueles que amo. quanto ao livro, deves tê-lo numa das tuas prateleiras. talvez te desiludas quando me adivinhares mas, acredita, sou quem muito te aprecia.

onan said...

Caro Jasmim (Ou o Sonho do Cinema)

NAS MINHAS PRATELEIRAS:
-Marguerite Yourcenar
-Paul Auster
-Chico Buarque
-William S. Burroughs
-Guia De Espanha da MIchelin
-Marquis de Sade
-Frank Lind
-Marguerite Yourcenar (uma vez mais)
-Anaïs Nin
-Henry Miller
-Hegel
-Rosa Montero
-Anaïs Nin (uma vez mais)
-Alvarez Rabo
-Alexandre Pinheiro Torres
-Alface
-Emma Santos
-Agota Kristof
-Pier Paolo Pasolini
-Marguerite Yourcenar (uma vez mais)
-Nuno Júdice
-Schopenhauer
-Rob Long
-Patricia Highsmith
-Thomas Mann
-Marguerite Duras
-Jean Genet
-Patricia Highsmith
-Pier Paolo Pasolini (uma vez mais)
-Pier Paolo Pasoline (uma vez mais)
-Antonin Artaud
-Marguerite Yourcenar (uma vez mais)
-Santa Teresa de Ávila
-Virginia Woolf
-Charles Baudelaire
-Virgina Woolf (uma vez mais)
-Santa Teresa de Ávila (uma vez mais)
-Virgina Woolf (uma vez mais)
-Monique Bourie/Martine de Rougemont/Jacques Scherer
-Vergílio Ferreira
-Fernando Wagner
-Nova Bíblia dos Capuchinhos (os autores do costume)
-Brian L. Weiss
-D. H. Lawrence
-Marquis de Sade
-Eurípedes
-Virgina Woolf (uma vez mais)
-Patricia Highsmith (uma vez mais)
-Albert Cossery
-J. H. Brennan
-Emma Santos (uma vez mais)
-Márcia Frazão
-Françoise Laplantine
-Roland Barthes
-Hermann Hesse
-Virgina Woolf
-Luiza Neto Jorge
-Milan Kundera
-Catherine M.
-Isaac Asimov
-S. João da Cruz
-Anaïs Nin (uma vez mais)
-Padre Jean Jurion
-Eduardo Pitta
-José Miranda Rodrigues
-William S. Burroughs (uma vez mais)
-Paul Auster (uma vez mais)
-Derek Jarman
-Tobias Schneebaum
-Bocage
-Patria Highsmith (uma vez mais)
-Mário Zambujal
-Manuela de Abreu
-Mário de Sá Carneiro
-Anna Rossetti
-James Jones
-Dennis McShade
-Stephen King
-D. H. Lawrence (uma vez mais)
-Eça de Queirós
-Jean Genet (uma vez mais)
-Anaïs Nin (uma vez mais)
-Herman Melville
-C. Virgil Gheorghiu

ando so on, and so on

já estou cansado, esta tarefa é exigente e entedia-me.

És, por acaso, algum dos senhores acima referidos?

Muito obrigado pela tua apreciação. Espero que esta seja apenas circunscrita à minha produção literária, ao meu diário. Seria de facto a possibilidade que mais me agradaria/surpreenderia. Isto porque, não me interessaria de todo travar correspondência com alguém das minhas relações pessoais (passadas ou presentes e de qualquer natureza) que ao aproveitar-se do espaço virtual tenta levar-me até si. Just in case, não tenho muita paciência para jogos de Cabra Cega, muito menos para o de Cabra Maluca. E o empirismo tem o seu peso nesta matéria.

Em todo o caso, um abraço, e obrigado pela interferência.

Aviso: esta interferência tem um prazo de validade.

Ultimato: ou te tornas nónimo ou deixa de haver este espaço.

Não sou apologista das ameaças mas sou muito menos apologista do obscurantismo interpessoal.

Salut

Onan, o Demónio

jasmeen said...

Caro Onan,
De uma forma perversa e, de certo modo, inexplicavel quis elogiar-te e confesso que as tuas reacçoes sao viciantes, mas nao pretendo de todo provocar-te ou continuar a brincar às charadas.
Pus-me no lugar do autor de um livro de poemas publicado no passado mês de Dezembro em Lisboa e escrevi aqui as palavras que ele nao me disse, resultantes de um conflito amoroso, julgando ser este um blog para falar de sentimentos. Por momentos esqueci-me de que este é um diario pessoal, que é sobre o onanismo, e que talvez nao seja apropriado da minha parte escrever nele para meu proprio beneficio. Tenho uma profunda admiraçao pela tua escrita e pelas tuas ideias e continuarei a frequentar este lugar magico, que tanto me enriquece. E quanto às minhas intervençoes, fica descansado, passarei a escrever no meu proprio espaço, onde seras sempre bem vindo para um cha e torradas, ou qualquer outro pequeno prazer equivalente.

onan said...

Hoje não dormi, tive uma insónia terrível. Ando com muita dificuldade em dormir. Eram cerca das sete da manhã e estava eu às voltas na cama, já desesesperado porque sabia que teria de acordar às nove da manhã para estar a trabalhar non-stop das dez da matina até à meia-noite em três diferentes sítios, quando se fez luz na minha ultimamente meio atormentada cabeça. Descobri-te. De facto não estava à espera. Mas reflecti no último comment que fizeste e, claro, só podias ser tu, minha Grande Querida Michelle. Bravo! Parabéns pela tua ousadia e inteligência. Confesso que o teu acto me perturbou, nem imaginas o quanto. Mas veio mesmo a calhar, também não imaginas quanto. Apesar de ousado, tudo isto foi muito assertivo. E, por estranho que pareça, tem uma função. Nos últimos tempos a minha vida anda repleta de coisas desta natureza: pequenos/grandes actos/lições que agitam/revelam.

Obrigado.

Escrever-te-ei um email em breve onde te explicarei o motivo de toda a minha rispidez/relutância. Vais perceber/compreender.

Um beijinho muito grande. Eu sei o que este diário vale para ti. Penso muito em ti quando o escrevo. O teu coração merece.

Beijo o teu coração por dentro.

jasmeen said...

my darling
nao precisas de me explicar. ao ler o fenix, percebi que talvez precisassemos os dois de uma dura liçao. e escrevi-a para mim e para ti. a tua reaccao ensinou-me a reagir. e a rispidez foi util e necessaria.

obrigada eu.

desculpa as noites sem conseguires dormir.
e parabens pelo in sul tao. é maravilhoso.