Thursday, November 18, 2004

Onan hoje está quase sorridente

13:50

Quando eu era pequeno acreditava que, quando eram atingidos, os cowboys morriam mesmo nos filmes. Acreditava que a morte nos filmes era real. E não percebia porque é que as pessoas participavam nos filmes se iriam morrer nos mesmos. Aquilo fazia-me muita confusão mas eu achava aquilo muito bonito. Achava que a entrega era tão imensa que a morte era um dano colateral comparado com a mesma. Por isso o cinema para mim era sempre sinónimo de uma grande e derradeira entrega. O cinema era para mim a coisa mais bonita do mundo. Agora que cresci o cinema já não tem um quarto do fascínio de outrora. Agora sei que ninguém faz filmes para morrer e esse conhecimento retira muito do encantamento que o cinema me transmitia outrora.

Tenho muita pena de ser muito falho de talento para as artes plásticas. Gostava muito de saber desenhar. É uma actividade que eu sinto que precisava de exercer. Sinto-me incompleto por isso. Gostava de me conseguir desenhar.

Quando eu for grande quero ter uma casa com quartos que não têm portas. Quartos cheios de silêncio. Quartos onde não assenta o conceito da entrada. Onde não há entrada também não há saída. Quero ter uma casa cheia de quartos que nem eu mesmo alguma vez vou conhecer. Uma casa cheia de quartos de nada. Os quartos impenetráveis serão o meu segredo mais precioso. Os quartos impenetráveis serão o retrato do meu coração. Quem me dera saber desenhar para começar a arquitectar os meus quartos de nada. Quem me dera saber desenhar para não ter esta permanente necessidade de conceber retratos do meu coração. Quem me dera ter um coração desenhável.


perdia todos os dias a chave da própria cara
e andava assim, às avessas toda a tarde,
com o nariz repleto de odores do passado.

achava todas as noites o caminho certo para casa
e chorava, sem sentir que o fazia,
por ninguém ousar agitar-lhe a vida.

morreu sentada à porta da praia
enquanto esperava que o mar a aceitasse.

(que me dera conseguir desenhar o sorriso dela acabadinho de morrer)

1 comment:

onan said...

(copy de um e-mail enviado por Julieta Pracana. Um grande, terno e agradeciado abraço para ti, Joolz. Grazie.)


queria fazer um coment no teu blog, mas envolvia
processo-inscrição.
envio por mail, o meu agradecimento por teres começado
o teu blog.

beijos imensos

julieta

--

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte


Alexandre O'Neill