Monday, November 15, 2004

hoje Onan tem a cabeça líquida

13:13
Escrevo sempre à hora do almoço. À hora do almoço já deixei de transpirar, escrevo melhor. É estranho, está frio, toda a gente sabe e sente que está frio, mas eu nem por isso deixo de transpirar. Transpiro das mãos e das axilas. Odeio transpirar, abomino a transpiração. Transpirar quando está frio é ainda mais repugnante. Só devia ser permitido a um corpo respirar quando se encontra em actividades propícias, actividades certas, para o efeito. O sexo é uma actividade propícia e certa para o efeito. O sexo é uma actividade (causa) certa para o efeito.
Quando escrevo transpiro dentro da cabeça.

Hoje, na Praça da Alegria, vi uma mulher chorar enquanto caminhava. Na verdade eu não vi a mulher a chorar. A verdade tem de ser reposta: eu ouvi a mulher chorar. Ela caminhava à minha frente. Eu ouvi um soluço. Ou melhor, pareceu-me ouvir soluço e não lhe dei muita importância. Já não dou muita importância às coisas que a minha cabeça parece ouvir. Porque muitas vezes a minha cabeça parece ouvir coisas que não existem. E por isso já não dou muito crédito a essas impressões da minha cabeça.

A minha cabeça pensou: "Que bonito, esta mulher agora até podia ir mesmo a chorar. Que bonito, uma mulher que chora enquanto desce a Praça da Alegria. Que bonita esta ironia! Mas como não é verdade, como esta mulher não vai mesmo a chorar, esta é uma hipotética bonita ironia. Como é hipotética, a ironia, ainda se torna mais bonita!"

Mas a verdade é que a mulher ia mesmo a chorar. Porque, depois de um primeiro soluço que eu interpretei como imaginário, um segundo soluço se seguiu, e um terceiro, e um quarto. E eu nunca lhe vi o rosto. Ela caminhava à minha frente, uma mulher de cinquenta e tal anos, de jeans normais e blusa branca. Uma mulher de fisionomia rude, masculina mesmo. O seu corpo, visto de trás, em nada denunciava o choro. O seu corpo atarracado e rude, visto de trás, era o contrário do choro.

Eu ultrapassei a mulher; não lhe quis ver o rosto. Preferi fingir que ela não tinha rosto. Porque era no rosto dela que o choro acontecia. E eu não queria que isso lhe acontecesse. Porque o corpo dela, visto de trás, era o contrário do choro. Porque a única coisa que lhe conferia o choro eram os soluços solitário que apenas eu ouvi. E como eram solitários não podiam ser vistos, testemunhados, somente ouvidos. Porque o que se ouve nem sempre existe. Porque o vento tem a capacidade de ser pacificador. E foi esse mesmo vento que me privou dos soluços dela. Porque eu a ultrapassei, sem lhe querer ver o rosto. Porque o vento que me levou dos ouvidos os soluços da mulher foi o mesmo vento que lhe foi secar as lágrimas. Porque foi esse mesmo vento que me fez esquecer que ia uma mulher a chorar enquanto descia a Praça da Alegria. Porque o vento na Praça da Alegria é um vento de ironia.

Senti necessidade de escrever sobre isto porque tenho a impressão de ter a cabeça cheia de lágrimas. Tenho a impressão de sentir a cabeça cheia de lágrimas que nem sei se são minhas. É uma impressão, apenas mais uma impressão, como qualquer outra. Escrevo sobre ela e não lhe dou importância. Muitas vezes a minha cabeça tem a impressão de sentir coisas que não sabe se realmente existem. É por isso que a minha cabeça gosta muito do vento e das lágrimas dos outros. Porque essas, tal como eu, existem e não apenas na Praça da Alegria.
14:03

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