Wednesday, May 01, 2013

poema dos últimos mui últimos dias

e eis que se atinge, na poesia, um estado que define que
o poema deixa de ser uma consequente necessidade:
passa a ser o processo do olho.
do olho que vê o antídoto do estar.
o poema nada mais é do que: 
a minha vontade de não concretizar o fim do poema.
ser livre é deixar a poesia voltar à sua nascente, voltar à sílaba primeira, iniciar a escrita.
poesia é, neste momento, a visível vontade de nada transparecer,
esta vontade férrea de não, me, ler.
esta, louca, vontade de nunca colar ao sentir o redigir.
a poesia é uma coisa que não encontra língua nem solução.
a poesia é o meu pai a morrer antes do momento em que me fez.
a poesia é a minha mãe ter morrido à boca da puberdade.
a poesia é o náufrago do meus avós. 
a poesia é do homem ter nascido ventre e não fábula onde se escreva. 
a poesia é uma certeza que anuncia que nada do seu fim o calor me trará;
é a morte nos dedos dos pés,
é a vontade de não se - o calor-  mascarar.
a poesia é aquilo que me faz procurar na vida a inesperada composição.
a poesia é aquilo que une as letras da palavra: não!


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