Thursday, April 25, 2013

a calçada era portuguesa.

eu já tive alegria - disse ele.
onde? - perguntou ela.
nas pontas dos dedos, claro; onde haveria de ser? - respondeu e perguntou ele.
poderia ter sido sobre os ombros - afirmou ela.
sorriso rasgado dele e a resposta - a alegria nunca é sobre. é porém.
porém como liberdade? - voltou ela a perguntar.
porém como cidade - tornou ele, uma vez mais, a responder.
cidade onde se anda? - sem hesitação, dela, surgiu esta nova pergunta. 
cidade onde se cansa, onde se descansa, onde se balança - assim foi dele a resposta.
ah, já teve alegria sinónimo de maresia. - concluiu ela.
sei lá, estava, nesse tempo, num alegre e não pensante navegar - despachou-a ele. (enquanto observava o sangrado palito que acabara de lhe escarafunchar o canino dente).

o empregado de mesa, abílio de seu nome, teve nesse mesmo instante um cardíaco ataque. enquanto sucumbia, vieram-lhe à lembrança risos de meninos outrora à margem do riso risonhos e molhados. 

enquanto a ambulância subia a rua:

o que é, afinal, a alegria? - teimosamente, uma vez mais, dela saiu uma nova pergunta.
é a toalha de uma praia que não se esquece - murmurou ele.

hora do óbito: 16h22.

a calçada era portuguesa.


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