Tuesday, November 13, 2012

madalena - a bela há três anos adormecida.

faz hoje três anos que este dia, 13 de novembro, se tornou maldito, abominável, arrepiante, muito triste, para sempre muito triste. faz hoje três anos que a morte levou aquilo que a vida, tão gentilmente, me havia emprestado e que sempre tanto havia desejado: uma maninha mais nova. faz hoje três anos que o mundo perdeu brilho e se tornou um lugar mais sombrio. faz hoje três anos que algo cá dentrose petrificou e me tornou, de uma certa forma, inútil e mais estranho. faz hoje três anos que passei a ter de conceber que pessoas de quem tanto gosto, a rosa e o pontes, ficariam para sempre com uma dor que nem sequer consigo lá chegar perto e que gostava tanto que assim não tivesse de ser. faz hoje três anos que passei a ter de construir em torno de ti, madalena, uma manta de retalhos-recordações-imagens para paradoxalmente poder encaixar que nos tinhas deixado (ao mesmo tempo que todo esse processo servia/serve para não te deixar morrer). lembro-me de como estavas linda da última vez que te vi, lembro-me da surpresa, boa surpresa, ao ver-te entrar no sítio onde estávamos, lembro-me de te dizer que estavas a ficar uma mulher linda e que eu não estava preparado para isso porque para mim serias sempre uma menina; a menina que conheci com nove anos, a menina que levávamos ao colo para o carro a dormir nos ensaios na comuna, a menina que foi ficando cada vez mais espigadota, a menina com quem fomos viver e que achava muito normal o nosso namoro, a menina que um dia quase nos entrou quarto adentro, enquanto tinha ficado a nosso cuidado por umas horas, e nos ia apanhando em actos matreiros, a menina que mais tarde já era uma adolescente e com quem partilhava cigarros, serões, com a rosa, no inverno, no sofá, a rir das novelas da tvi, a menina que me ligava e que eu já sabia sempre o que queria: "hugo, posso usar o teu computador?" - "claro, madalena". a menina que me contava segredos que aos pais não se contam, pudera, eu era o irmão mais velho, a menina que só comia metade das fatias das pizzas e que me deixava os rebordos, a menina, que mesmo já uma latagona, eu ainda levava muitas vezes para o quarto a dormir (e já não era ao colo porque já eras mais alta do que eu). sempre me "descansou" um pouco saber que partiste a dormir. nem deste pela morte, sempre foste uma dorminhoca, nem deste por ela te levar, essa morte que a tantos estilhaçou para sempre. por seres bela e adormecida, minha querida mana mais nova, madalena, dedico-te a estreia da peça na quinta-feira e, na verdade, todos os espectáculos... por seres bela e adormecida. passaram três anos e ainda parece um sonho muito, muito, muito mau. passaram três anos e ainda espero que um príncipe te acorde e nos traga a nossa menina de volta.

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