Saturday, June 30, 2012

nadar

tinha tudo em cima da cama, tudo disposto à mercê de uma forma só sua, e que, sendo apenas só sua, podia talvez considerar-se organizada; à sua maneira era, efectivamente, organizada, a forma. cinco pares de meias de algodão puro, umas cinco ou seis cuecas, não sabia ao certo, não se tinha dado ao trabalho de as contar, atirara-as para cima da cama apenas, cinco camisas, três de manga curta e duas comprida manga, dois pares de calças, duas bermudas e um cachecol. em pé, inerte, hirto, isento, contemplava o cenário. a mala aberta no chão; bem, não pode dizer-se que fosse exactamente uma mala, era um híbrido, algo entre a mala e a mochila... o híbrido aberto no chão e o chão sem qualquer tipo de temperatura. assim como era o dia que estava a decorrer. o único pensamento que o ocupava era: está um dia sem temperatura e eu estou a fazer a mala para uma viagem que não sei que temperatura, percurso, destino, objectivo e tempo terá. o telefone tocou, nem se moveu. ter um telefone era já, nesse momento, algo tão estranho e distante como o fim e o princípio de uma vida, respectivamente. desistiu de olhar para o que estava disposto em cima da cama, tampouco olhou para o híbrido aberto sobre o chão sem temperatura, e esforçou-se por fixar o olhar nos seus próprios pés. elaborou o pensamento, avançou nele, e concluiu: quando tudo acabar é aqui que estará marcada, inscrita, escrita, clara, precisa, ciente, visível toda a minha viagem. e, como é evidente, a viagem a que o seu pensamento se reportava não era apenas a viagem vindoura; era toda a viagem, era o todo, era toda a vida; toda a vida contada por aquilo que de um par de pés se pode vir a decifrar. 
sentou-se no chão e com ambos os polegares percorreu a planta do pé direito; descobriu-lhe socalcos, rugosidades, linhas, calosidades, atritos e cicatrizes até então, para si, completamente incógnitas. em voz alta, para o próprio pé, disse: não te conheço! esteve tentado a repetir a operação com a planta do pé esquerdo mas, num ápice, o seu corpo deu por si mesmo levantado e a partir daí tudo se passou muito rapidamente. tão rapidamente que o seu entendimento perdeu totalmente a capacidade de absorver e integrar as acções que o seu corpo se atreveu a produzir. a verdade é que, quando deu por si, o seu entendimento já integrava um novo cenário; um novo cenário exactamente feito dos mesmos elementos: uma cama, roupa espalhada sobre a mesma (não vamos agora enumerar o já enumerado) e um híbrido aberto sobre um chão. mas algo de inesperado, desconhecido, novo e altamente inspirador havia, agora, nesse chão sobre o qual o híbrido jazia aberto. essa novidade era a temperatura. e como chegava essa certeza ao seu entendimento, como? exactamente pela planta do pé direito; esse mesmo pé que há instantes para o seu entendimento havia parecido desconhecido era agora o intermediário de uma, tão, inequívoca e fortíssima verdade. a temperatura existia, ali. debaixo da planta do seu pé direito havia um novo chão, um novo chão que, mais do que uma nova temperatura, lhe trazia uma nova apreciação daquilo a que se pode chamar o tudo. e esse chão, e esse tudo, disseram-lhe: 
nada importa, nada, mesmo nada, importa; nada é totalmente teu, totalmente certo, totalmente fixo, totalmente e intrinsecamente teu, nada; tu, tu, que nem a planta do teu próprio pé conhecias! nada está totalmente escrito ao mesmo tempo que nada está totalmente por escrever. pensas e pensas-te e desejas e desejas-te. desejas-te aqui, ali, acolá e em sítios que nem sequer imaginas que existem; mas desejas-te. desejas-te e desejaste; desejaste o melhor para ti e para aqueles que te circundam, queres o bem, o bem de ti, o bem do outro, o bem dos outros, o bem do mundo, até do mundo que há-de vir, que esperas que venha a vir, e que sabes que jamais virás a conhecer. esperas que venha a haver um mundo depois de ti, esperas e acreditas nisso, desejas isso, prometes-te essa certeza mas nada te prometeu que assim o venha a ser. porque nada te é prometido; tudo em ti tem de ser acreditado, tem de ser esperançado, tem de ser uma palavra que nem tu sabes pronunciar. sabes porquê? porque essa palavra, esse verbo, esse vocábulo, simplesmente não existe. porque acreditar é fixar. e tu acreditas e teimas em fixar e enquanto o fazes esqueces-te que, provavelmente, a vida, esta coisa do aqui estar, é muito mais simples e maior do que isto do acreditar, do ter de acreditar. porque tu acreditas que hás-de conseguir vir a tocar as faces do bem e do mal, que hás-de deixar bem claro e preciso quais são as coisas que te movem e comovem, quais são as coisas que te nutrem e te fazem prosseguir, te fazem instruir, te fazem actuar, te fazem viver. mas viver, se fizeres bem as contas, se, por um momento, tentares ter em ambas as mãos os pesos e as medidas, é essa incerteza plena e, simplesmente, sufocante de que nada te é prometido, nada te é dado e tudo depende da tua crença e vontade de a ter. e tudo isto acontece quase cientificamente, o método é quase científico, esse método, o método do acreditar. precisas de um tempo e de um espaço, para que a experiência do acreditar te seja possível; e o tempo, o tempo, meu caro, resolve-se em duas palavras: nascer e morrer (afinal são três as palavras). mas o espaço, agora o espaço... o espaço faz-se, exactamente, com tempo, com o tempo do acreditar. isto porque tu acreditas que o espaço onde estás é certo ou errado, apenas isso, nada mais do que isso. e tens de preencher esse espaço. tens de preencher esse espaço com crenças; com crenças do permanecer e com crenças do partir. e as crenças do permanecer são: eu venho dali, eu sou isto de onde venho, ou o contrário disso, e vou ser alguma coisa aqui; e para ser alguma coisa aqui tenho de encontrar o meu par. e o meu par será o meu espelho; o meu par será, nesse espelhamento, ou no antagonismo do mesmo, a certeza de que eu existo e de que aqui estou bem. mas isso do par é mais uma coisa em que tens de acreditar; porque o par não passa de uma necessidade e de uma crença. um par é sempre um desencontro, não nos enganemos! o par existe, e persiste, porque ambas as unidades se debatem pelo momento em que se vão, final e plenamente, encontrar (enquanto cada uma das partes nada mais vê do que a felicidade que obterá nesse, tão esperado, momento). o par nada mais é do que duas unidades, em si mesmas, sempre tão enfadonhamente encerradas, a tentar ter a aprovação/confirmação da sua própria existência. o par é, apenas, a segurança que se pode vir a obter de acreditar que a par, e em par, se está. e depois encontras o par e, pronto, decides um espaço, o espaço, e nisso ficas até... até ao fim do espaço que um par define. e se não tens um par? se não tens um par andas, qual cão a perseguir a própria cauda, no espaço à procura de o obter. mas também podes ser resistente a essa ideia, à ideia de par, e, então, tornas-te um viajante, um viajante no teu próprio espaço, sendo que te tornas um perdido, um perdido no espaço que conheces (ou que queres vir a, integralmente, conhecer)... e disso não sais. e, depois, sim, depois, tens outra possibilidade, no que ao espaço concerne, e essa possibilidade é: partir. e partes; dás por ti e já partiste... 
nesse momento decidiu caminhar e todo o discurso que a temperatura do novo chão lhe proferia foi simplesmente interrompido. nesse momento caminhou, para fora dali, caminhou e fitou o pé esquerdo. quando o mesmo, o pé esquerdo, pousou a sua planta sobre a areia molhada e fria do fim de um dia, daquele dia, ele disse, enquanto fitava aquele mar: acredito que nunca te hei-de conhecer. e nem o seu próprio entendimento chegou a perceber qual era o destinatário dessa proferição (se era aquele pé ou aquele mar). mas o seu entendimento, nesse momento, deixou de ter a vontade de se preocupar. o seu entendimento, a si mesmo, disse: deixai-o ir, acredito que esse é o melhor verbo: deixar. e ambos os seus pés, em par, soborearam, cada um a seu modo, em distintos e singulares tempos e espaços, aquela temperatura. e assim se afogou ele... na praia onde aprendeu a nadar; na praia que acreditava conhecer tão bem; na praia que acreditava ser sua. apenas sua. enquanto morria pensou: conheço-te, agora, a natureza, pé esquerdo; és o pé que não sabe, nem quer saber, nadar. anoiteceu nesse momento. 
passados três dias, o pé direito de um homem foi encontrado, naquela praia, por um menino que queria muito aprender a nadar.

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