Sunday, February 27, 2011

para o amor que eu tive de deixar de ter (isto tudo, claro, em efabulações e com a devida distância)

houve um dia em que eu tirei o dia para me concentrar nos teus dedos, tirei o dia para isso. e, como já foi há muito tempo, hoje posso, sem qualquer tipo de resistência, revelar-te esse facto. e, comecemos pelo princípio.

durante a manhã inspeccionei as tuas falanges.

as tuas falanges:
arredondadas, acres, algo teimosas e imperativas; as tuas falanges são o princípio de um verbo que ainda mal conheço. são, como que, rebeldes, iniciáticas, brutas, e tentam, por todos os meios que conhecem, e outros que ainda teimam vir a conhecer, ser donas de uma verdade que não conhecem mas que sabem há muito vir a ser-lhes anunciada e sobre a qual muita autoridade, num futuro, mais ou menos próximo, virão um dia a ter. resumindo e, muito rapidamente, concluindo: as tuas falanges são a súmula de toda a tua arrogância, são arrogantes e sabem que em mim têm um pleno e delicioso território. conhecem-me.

depois da manhã concentro-me, já algo consternado, nas tuas falanginhas.

as tuas falanginhas:
quando se fuma muito, como tu o fazes, está-se sujeito a que na pele se instale o constatar desse vício. a pele é o principal receptor de um vício. e é, de facto, algo curioso, ou mesmo engraçado, que não seja nas falanges, mas sim nas falanginhas, que a imperiosidade de um vício tão imperioso, como fumar, se torne tão evidente. mas deixemos secundárias, e nada para aqui chamadas, considerações de lado e retomemos o cerne da questão. e o cerne da questão é, meramente, este: a meio do dia as tuas falanginhas nada mais são do que o impacto da minha língua nelas. melhor, o impacto da ponta da minha língua nelas. e têm um sabor. as tuas falanginhas têm um sabor; sabem ao ontem que não me dizes, por tanto medo teres do (nosso) amanhã, e a amarelo. as tuas falanginhas sabem a tempo e a amarelo; e amarelo é sinónimo dos dias em que já nada de nós restará.

algo tremente, algo descontente mas nunca desistente, a meio da tarde ocupo-me das tuas falangetas.

as tuas falangetas:
as tuas falangetas são o que, nessa tua mão, mais próximo está do coração e nelas perdi-me. perdi-me porque, segundo consta, nos hominídeos é a mais importante parte de um, tão importante, dedo: polegar. e eu nele, neles, nos teus polegares, sempre me senti tão uma, secundária, figura de estilo.

resta(-nos) a noite.

à noite tu não tens mãos. e por isso não somos. não somos porque eu ponho pratas na noite e só nos regresso de manhã; em espaçada, muito espaçada, cada vez mais espaçada, manhã.

nunca escreverei sobre a tua cara: esqueci-a, tive de a esquecer. talvez porque nunca a vi, talvez...

desejo que um dia percebas que o amor nada mais é do que, epidérmica, mas com voz, geografia.

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