Friday, February 11, 2011

isto não tem título (nem, na verdade, exacto destinatário); é uma espécie de furiosa efabulação

e agora eu, todo eu, me transformava em sabre, um aceso e inevitável sabre. e agora eu cortava-te ao meio. tens coração? diz-me; tens coração? eu corto-o ao meio. fiz o mesmo ao meu. então, porquê poupar o teu? somos feitos da mesma matéria. a matéria do coração. sofres? olha, também eu. ou pensas que ando aqui a brincar aos corações que batem e batem e batem e batem até não mais poder?!
eu faço por me parar e quando o consigo começo a imaginar o ponto onde estás. isso dói-me, mas dói-me tanto, eu escorro raiva do nariz e, na minha cabeça, eu vou, a pé, da minha casa até à tua. odeio esta coisa do impossível, odeio-a, odeio-a; tu nem imaginas quanto, e a única vontade que tenho é: arrancar-te dos teus lençóis, arrastar-te para fora da tua cama, fazer-te ver. eu quero fazer-te ver. entro dentro do teu quarto, eu conheço o teu quarto, e arrasto-te até à luz e digo-te:
olha para mim, caralho, olha para mim. enfio-te a língua dentro da boca, falo-te. digo-te coisas de mim, de nós, e faço acordar-te. soubesses tu o quanto o cheiro do interior da tua boca me é território e nunca mais te atreverias a abrir a dita, a boca, em vão. nunca terás quem fale, escreva, pense, sinta, o interior da tua boca como eu. por isso, cala-te, cala-te, não mereces esta nossa língua. eu fui a melhor coisa que te aconteceu e nunca a ponta da tua língua irá tocar outro céu. cala-te, não tens céu na boca porque eu estive e já não, nos, estou. esta é a razão porque eu nunca nos escrevi poemas... éramos o lado obscuro e desconhecido da poesia. éramos o poema que nunca se escreveu. mas eu tentei... éramos a vontade de escrever. e tu ficaste à espera. e eu? bem, eu, hei-de continuar a escrever poemas que nunca hás-de ler/ser. eu sou um poeta e tu és a musa que não lutou. tu és a memória que, apartados, teremos dos dias, esses dois dias, dias gémeos.; o dia em que tudo começou e o dia em que tudo, para nós, findou. tens numa mão o início e na outra o fim. eu nada mais sou do que entre as duas, tuas mãos, a escrita. e eu que ainda acredito no poder logístico do amor... quando penso que nunca mais seremos alguma coisa começo a voltar ao dia em que percebi que a vida seria difícil e tu és a mais magnífica disso prova. já não és, para mim, uma pessoa: és o sofrimento em forma de gente; uma estátua de sal que eu contemplo a chorar de frente para trás.

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