Friday, February 26, 2010

redigir

no meio de tudo, de tudo isto, disto tudo, sou muitas vezes invadido pela simples vontade de redigir (simplesmente redigir). faço-o, tenho-o feito, apesar da não desejável intermitência, com alguma singular regularidade. a invasão veio, chegou-me, agora, e preciso de redigir. do nada, redigirei. e eis que:

teclava com incessante fúria porque isso, além de lhe saciar o frenesim que na ponta dos dedos se instalava, qual tesão digital, a fazia sentir-se ligada ao mundo; isto porque, para si, qualquer acção lhe devolvia a sensação de se sentir viva, actuante, operante, cinética, na verdade, viva; sejamos claros e sucintos: isso fazia-a sentir-se viva. as unhas, sim as unhas, eram o seu grande inimigo. deixava-as crescer por vaidade, aprumo e teimosia. e agora, no pináculo desse fervor, as unhas eram quem mais a atraiçoava. mas ignorou esse facto.
- que se partam! - pensou e disse, quase bem alto, para si e para as paredes. e assim se manteve, agarrada a essa ideia, a esse impulso, a essa fúria, durante doze muito pouco longas horas.

a primeira coisa que escreveu foi:

"tenho dezoito horas deste dia, isso nada quer dizer mas eu tenho muito que dizer e muito que de mim se diga".

não descansou, não vacilou, na verdade, não parou. começou e terminou. escreveu sobre a sua entrada no mundo, sobre o mundo a em si entrar, sobre quem no seu mundo entrava e, sem conveniente anunciação, se fazia por subtrair, sobre lugares nunca vistos mas muito sonhoados, sobre lugares vistos e nunca desejados, sobre horas perdidas, horas achadas, horas perdidas e achadas; citou poetas e pessoas sem qualquer tipo de poesia, fumou cigarros, bebeu água, leu-se, releu-se, escarrapachou-se. nunca chorou e nunca parou, nunca parou de escrever, de se escrever (porque quem escreve realmente nunca consegue parar de (se) escrever, mesmo quando acometido pela maior e mais violenta imobilidade).

sentiu que em si, com toda esta operação, em todo este processo, no saciar desta feroz vontade, nada cresceu, nada mudou, nada mais além foi. mas fê-lo: escreveu, saciou a vontade.

e as suas unhas, agora, nem menos uma lasca têm.

a vida é assim: uma tão redonda e vazia verdade perante, e após, o redondo e impetuoso vazio da vontade do medo. é assim, a vida, uma, não assim, tão grande surpresa.

a tesão nos dedos foi-se mas nem por isso se fez fenecer, nela, a tesão/comichão-dentro-da-cabeça que, uma vez mais: nela, a fez nascer.

e ela? ela pinta as unhas (porque não lhes quer dar o prazer de roídas serem).

depois de secas as unhas ainda escreveu, e assim findou a sua redacção,: "tenho muito que dizer e muito que de mim se diga".

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e pronto, já redigi! (ainda bem que odeio unhas)

estas redacções só me devolvem uma certeza: bem ou mal, eu escrevo como respiro.

é pena não ter aprendido ainda a minha necessidade de escrever (e talvez nem mesmo de respirar). mas estou atento a isso, valha-me isso (sim, eu posso repetir vocábulos na mesma frase. não é a respiração toda uma redundância?).

percebi agora o meu problema: APNEIA!

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