Sunday, May 01, 2005

um retrato do sempre

desde muito novos foram fazendo a sua vidinha,
ela lavava para fora,
ele bebia ginginha

iam sempre de mãos dadas à aldeia vizinha
ele vinha aos tombos p'ra casa,
ela deixava-o a dormir na cozinha

tinham os seus arrufos e guerras; até berros havia
ela levantava as saias,
ele fumava e sorria

faziam tudo em conjunto com alegria
ele saía da cama,
ela ligava a telefonia

olharam-se sempre nos olhos durante de setenta anos
ela chamava-lhe morcão,
ele Maria dos Panos

ainda se beijavam nas bocas onde já quase não sobravam dentes
faziam amor às escuras e nunca estavam dormentes

deitaram-se cedo uma noite e enlaçaram as mãos trementes
nunca mais acordaram; morrerram juntos e contentes

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