Saturday, April 16, 2005

regresso

duas semanas sem internet. fiquei privado do meu diário. nervos e ansiedade com uma frequência algo intermitente mas suficientemente perturbadora. voltas e voltas dentro da cabeça; regresso às mesmas coisas.

comecei a escrever uma nova peça de teatro. parei de escrever uma nova peça de teatro. a peça que dei por mim a escrever não era a mesma que tinha começado. gosto do bocado da peça que acabei por escrever. não sei como a hei-de continuar a escrever. a peça é estranha, ainda não a sinto. sei que a peça vai ser. hei-de voltar a ela.
preciso de voltar a entrar no meu diário. há trabalho a fazer no meu diário. há trabalho a fazer aqui. há trabalho a fazer em todo o lado. há trabalho a fazer nos dias e nas noites, na ausência e na presença. há trabalho a fazer na memória, na epiderme, na estima, nas palavras, nos encontros e na razão. há trabalho a fazer na imaginação. há trabalho a fazer no silêncio. há trabalho a fazer no querer e na forma de querer. há trabalho a fazer no eu. há trabalho.
os regressos nunca me foram fáceis nem confortáveis. nunca. sempre me intimidaram os regressos e os reencontros. mesmo que o regresso fosse para algo, algum sítio, ou alguém totalmente próximo. na verdade os regressos sempre me foram embaraçosos. é nessas situações que a minha timidez toma proporções desmesuradas, não sei como agir. fico bloqueado, pareço perder toda a proximidade com o outro (coisa, sítio, situação, pessoa). pareço voltar à estaca zero. os regressos embaraçam-me porque os sinto como reconquistas. não sei lidar com esses elementos: partidas e chegadas. não gosto de ter de lidar com esses elementos. gosto da ideia de perenidade mas à medida que vou vivendo e passando pelas mais diversas situações vou sendo obrigado a desenvolver em mim um não regresso a essa mesma ideia. é um exercício que tenho de fazer. e há territórios do viver em que essas questões são de uma importância cimeira.
não gosto de brindes. os brindes também me embaraçam, não sei porquê. embaraçam-me. detesto brindes.
voltar ao meu diário é voltar à escrita/contabilidade de mim. é voltar a este transporte.
sonho frequentemente com comboios. na maior parte das vezes não os consigo apanhar. também me acontece sonhar que estou dentro de um comboio e que, pelas mais diversas razões, sou impedido de sair na minha estação de destino. a interpretação parece-me excessivamente óbvia; desinteressante.
a idade fornece-nos uma grande responsabilidade: saber para onde foi aquela parte de nós que nos facilitava o agir. aquela parte de nós que tratava de nos ligar e corresponder sem atrito ao que se apresentava externo às nossas vontades e expectativas. gostava de recuperar o conforto da objectividade. gostava de recuperar a puberdade da minha subjectividade. gostava de reentrar nessa ausência de know-how. lembro-me de ser uma pessoa mais fácil. lembro-me de sentir a subjectividade como algo que me havia sido fornecido mas que carecia de um manual para que a mesma pudesse ser usada na plenitudade da sua verve. os artistas não fazem mais do que tentar redigir o manual da sua subjectividade. no meu caso essa tentativa é sempre endógena. sou um artista muito pouco efectivo. confundo sempre o manual com o resultado. e tomo a redacção como se esta fosse o fim único da vida.
ainda estou embaraçado por ter regressado ao meu diário. é uma questão de tempo! há muita coisa que é uma questão de tempo! o tempo é a questão de muita coisa! o tempo é muita coisa! o tempo é coisa! o tempo é! o tempo serve para tudo! o tempo às vezes sabe a nada!
Voltei.

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