Monday, January 10, 2005

work in progress (mais um passo)

Ele perdeu a heroína ao entrar num táxi. Ela hospedou-se no hotel favorito dele em Buenos Aires. Não conseguiu ficar com o quarto que sabia ser o mesmo que ele sempre reservara: o quarto 111. Foi-lhe atribuído o 112. Decidiu que enquanto não conseguisse deitar-se na cama onde ele o tinha feito tantas vezes não deixaria a Argentina. Adormeceu a relembrar-se da conversa que tinha tido com ele na segunda noite que tinham passado juntos. Dormiu ininterruptamente durante catorze horas.
Ele acordou sobressaltado, olhou para o relógio e viu que eram sete e trinta e oito. Lembrou-se que antes de adomecer, exausto, o relógio marcava as seis de doze. Tinha dormido apenas uma hora e vinte e seis minutos. Soube que não iria ser capaz de voltar a adormecer. Levantou-se, bebeu água no lavatório da casa de banho e deteve-se em frente ao espelho a observar os sinais de esgotamento que cresciam livremente no seu próprio rosto. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e um violento vómito forçou-o a devolver ao lavatório toda a água que havia bebido. A vontade de chorar dissipou-se. Nasceu-lhe nesse instante a vontade de morrer.
Ela acordou confusa, voltou a sentir a ausência. O gosto a hortelã voltara a abandonar-lhe a boca. Chorou durante uma hora e vinte e seis minutos.

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