Friday, December 10, 2004

o inferno e Onan

"O inferno é um lugar diferente para cada homem, e cada homem tem o seu próprio inferno."
Anaïs Nin
O inferno sou eu, por dentro e por fora: verborreia, castings, anal...gésicos, litros de Ballantines, Bairro Alto, jantar aqui/jantar ali, dormir aqui/dormir ali, dormir com este/acordar com aquela, horas e horas no Majong, ensaiar de manhã à noite, dançar, dançar muito, dançar durante semanas a fio, milhares de cigarros, estar com os meus queridos e preciosos amigos, saudades da mamã, quatro táxis por dia, gastar dinheiro estupidamente, ficar teso, penúria, depressão, algum dia mato-me.
Jovens irritantes, milhares de jovens irritantes, egoísmo, odiar mentiras e cobardia, olhar nos olhos, óculos escuros sempre para poder olhar para tudo e todos sem me denunciar, eu, eu, eu, sempre eu, estou farto de mim, gosto tanto de mim, o amor que vai, o amor que não vem, o amor que vai e vem, a droga do amor, não tenho paciência para o amor, não consigo viver sem amor, mais um pouco de droga do amor, por favor!
Preguicite aguda, preguicite crónica, preguicite mórbida, tenho de escrever, não consigo escrever, não gosto de trabalhar mas adoro ter ideias, amo o teatro incondicionalmente, estou farto de tudo e de todos, cocaína a rodos, a culpa, a culpa, a culpa, estou perdido, estamos todos perdidos, mas afinal quem é que não está perdido?
Engates de uma noite, engates de duas noites, engates de três noites, sms, coisas que se dizem e não se sentem, paixonetas, infatueted moods, ser actor é uma luta todos os dias, estou farto de ser actor mas não consigo ser mais nada, quando for grande quero ser... Feliz, pastilhas, mdma, Kremlin, quatro meses de paranóia, uma pessoa como eu não se pode drogar desta maneira, quero sair deste país, Lisboa é uma aldeia e o resto é paródia rural e litoral. Gosto do Porto mas ele fez-me mal, eu já disse que sou o inferno, não disse? Boys R Us, já não sou uma criança, ódio, descobri o valor do ódio, nunca te hei-de perdoar, há coisas que se perpetuam, estou farto destes fantasmas, estou cansado, vou estar outra vez muitos meses a dormir pouco, tenho a mania que sou especial, odeio a palavra especial, já disse mas repito-o: NUNCA TE HEI-DE PERDOAR.
Praia das Angeiras, 25 euros de táxi, a melhor e mais cara foda mais cara da minha vida, “tu és n inteligente”. Ah! Ah! Ah! Deixa-me rir. Gosto de me armar em diva e depois apanho com estes filmes: 36 anos, 30 anos, 22 anos, 36 anos outra vez, 19 anos, 28 anos, 23 anos, 25 anos, todos diferentes todos iguais, “Oh god, you're so beautiful, i love your eyes!”, “tens qualquer coisa de mefistofélico”, “me encantas, mi amor”, “tu és n inteligente”, blá, blá, blá, e a felicidade onde está? Para me abordar pregou-me uma rasteira e eu apaixonei-me imediatamente.
Beber, drogar, jantar fora, foder, dizer adeus, “afinal como é que te chamas?”. Andar em carros, ouvir música nos carros, cantar nos carros, fumar charros nos carros, namorar nos carros, estive quatro meses a ressacar de uma pastilha que tomei no Kremlin, a puta da paranóia, por pouco não me atirei do 5º andar. Não conseguia sair à rua, não suportava o ruído das palmas no teatro, queria ser invisível mas não consegui, tornei-me visivel em todo o lado: Finalmente, Moínho de Vento, Trumps, Pink Flamingo, Boys R Us, Royal, Pasapoga. Andámos de mãos dadas na Gran Via e eu senti-me livre como nunca, o meu gato é mau porque sofre por minha causa, uma pessoa como eu nunca deveria ter um animal de estimação, “Ó lindinho, tu e o teu gato são iguais, já reparaste?”, ja, grande novidade, por isso é que temos uma relação de amor-ódio. Em Marrakesh fui o ser mais feliz ao cimo da terra! Anvitol, Seroxat, Sedoxil, Cymerion. Quando tudo acabou entre nós estive mais de uma semana sem dormir, agora durmo doze horas por noite, se não fossem alguns dos meus amigos eu não sei o que seria de mim. Quando estive a bater mal da cabeça fugi de toda a gente. Confusão total e insuportável, os piores meses da minha vida, e eu que até estava convencido que me sentia feliz. Mas porque é que eu tomei a merda daquela pastilha? Às vezes não sinto nada, nem sequer o vazio. Tori Amos, Brian Molko, Madonna, Jeff Buckley, Ney Matogrosso, Chris Corner, Laurie Anderson, Paul Draper são eles quem sente por mim. Nomes, carreiras, cores, palavras, muitas palavras, adoro palavras, apaixono-me por palavras, música, muita música, amo tanto a música como a própria vida, acho que gosto até mais de música. Estes dois últimos anos passaram a correr, tenho quase trinta anos e ainda me comporto como um adolescente. O futuro ainda não existe e o passado tem de passar a ter uma importância relativa. Mas afinal quando é que meto isto na cabeça? Sinto que estou a melhorar, ainda não foi desta que fritei de vez. Droga do amor, o caralho!!!
Vês como é fácil debitar incongruências? Vês como é desgastante inventar verdades?
(este texto está incluído no espectáculo Sickcom. a azulamavermelho vai efectuar uma reposição do mesmo em fevereiro, no auditório orlando ribeiro em lisboa)

No comments: