Thursday, November 25, 2004

a urgência e a fúria de Onan



(22/10/04)

Os dias passam, as horas acumulam-se, os minutos sedimentam-se e os segundos,
de ainda tão imberbes, congratulam-se. E eu tremo para poder crescer.

De há uns meses, largos meses, a esta parte, tenho vindo a aperceber-me, de uma forma pouco fácil mas precisa, de que sou um furioso. Tem vindo a crescer em de mim, pouco a pouco, de alto a baixo, de dentro para fora e vice-versa, uma fúria extrema e extremosa a que tenho passado a habituar-me. Já não me angustia, já não me confunde, já não me atormenta, já não me descontextualiza. Instalou-se sobre e sob a minha pele, alterou o meu batimento cardíaco, passou a ser a batuta do meu discurso (as minhas palavras já não são ditas, são matraqueadas), passou a fazer parte da constituição molecular dos meus fluídos (sangue, saliva, suor e esperma; das lágrimas não porque eu não choro). Somos um só, eu e a minha fúria, da mesma forma plena e orgânica que a palavra SOMOS é um palíndromo. Aprendemos a viver em comunhão, uma comunhão de facto. E andamos pela vida impertinentes, impetuosos e imediatos. Temos objectivos precisos e preciosos e havemos inscrever o nosso nome, a ferro e fogo, na História Universal da Veemência. Não temos planos objectivos, temos objectivos precisos e preciosos, note-se. Não somos meticulosos, muito menos calculistas ou premeditados. Somos vagos e simbólicos. Deixamos charadas no ar para posterior auto e heteroavaliação. Não conseguimos estar calados porque, mesmo quando estamos em silêncio, somos sempre escravos de uma desaustinada retórica. Somos hipercinéticos, hiperdotados, hipersensíveis, hiperlascivos, hiperendócrinos, hipersolúveis, hipercínicos, hiperviciosos, hipermortais e sempre hiperincorentes. Estamos sempre à procura de qualquer coisa que não sabemos o que é exactamente. Muitas vezes olhamo-nos bem no fundo dos olhos e sorrimos exaustos, porque sabemos perfeitamente que a nossa procura não é mais do que a mera procura de uma mera procura. É um vício pouco secreto que nós temos. Creio que já disse que somos hiperviciosos, não disse? Não me recordo bem. É que nós também somos hiperesquecidos.

(25/10/04)
A minha fúria chegou durante a noite, enquanto eu combatia a morte, depois da morte de um forte amor. A minha fúria trouxe consigo a cara da insónia e instalou-se dentro do meu estômago. A minha fúria veio de uma só vez, sem cerimónias, estrondosa, veio furiosa. A minha fúria veio para me salvar. Era urgente a minha salvação. Porque eu havia deixado de saber o meu próprio nome. A minha fúria veio a tempo e horas.

(26/10/04)

Hoje não é Onan quem escreve, é a FÚRIA de Onan. Esta missiva não é uma missiva, são pontapés na cabeça dele.
Sai daí, sai daí já! Vai para ali, vai para além, vai para algures, vai para nenhures mas vai! Sai!
És o pagador justo das tuas próprias dívidas. Tens de sofrer por elas, isto de andar por aqui tem destas coisas. Pensavas que era simples, não pensavas? De facto é muito simples. É muito mais simples do que tu possas imaginar. Tens é de te mover, de te pro-mover. Tens de correr, encarar, gritar, rasgar e esgalhar. Tens quatros euros no bolso e ainda falta um pouco menos de uma semana para o fim do mês. O fim do mês. O fimzinho do mês todos os meses. Os eurozinhos ao fim do mês. Sofres tanto com esta merda, jamais desejaste isto para ti. Ao fim e ao cabo és um artista. É suposto os verdadeiros artistas serem uns tesos, uns borra-botas, uns indigentes, decadentes, impertinentes. És isso tudo. Que bom, já és um verdadeiro artista! Só tens um problema: vives aqui e agora. E aqui e agora os verdadeiros artistas não são tesos, não contam os euros, não passam fome, não andam de semblante carregado a olhar para o chão. Aqui e agora os verdadeiros artistas se são tesos é porque são duros e tesudos, não contam euros porque ganham a vida a contar anedotas, não passam fome porque vão matá-la nas festas de aniversário de um qualquer centro comercial no subúrbio, não têm o semblante carregado porque nem sequer sabem o que isso significa e não olham para o chão porque estão sempre a olhar para o olho voraz de uma câmara. O artista do aqui e agora é o oposto absoluto de tudo aquilo que tu és. Por isso tu não tens qualquer tipo de arte. Porque se fosses artista estavas nos escaparates, na boca das gentes, em todo o tipo de publicações, em todas as casas à hora do pequeno almoço, à hora do almoço, à hora do lanche, do jantar, à ceia, à hora de deitar, à hora de foder, à hora de nascer e à hora de morrer. Ninguém come a olhar para ti, ninguém se deita a olhar para ti, ninguém fode a olhar para ti, ninguém nasce a olhar para ti e ninguém morrer a olhar para ti. Tu não tens público. Tu não és emergente. Tens urgência, sentes que tens uma urgência, mas não és urgente. Tu não és urgente, não és do aqui e do agora. Ainda não dominas esse conceito.

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Explicações de intervenção no aqui e no agora precisam-se. Com urgência!!! Tenho sítio. Abstenham-se os interesseiros e/ou pervertidos.
Resposta neste blog, s.f.f..

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