Tuesday, November 23, 2004

um poema-resultado de um exercício num workshop de escrita criativa com Regina Guimarães

maio de 2001

Uma cidade que era, uma cidade que fosse, uma cidade que seria, uma cidade que será


Uma cidade que era uma menina a crescer; uma menina bonita de boca rasgada.
Uma cidade que era uma menina a tremer; de frio e fome, uma menina assustada.
Uma cidade que era uma menina a dormir; em cama fofa, depois da história contada.
Uma cidade que era uma menina a acordar; lavada em lágrimas, com a garganta cortada.

Uma cidade que fosse uma menina a comer; num grande prato, papinhas de gente apressada.
Uma cidade que fosse uma menina a beber; num biberon, a lei da bala e da facada.

Uma cidade que seria uma menina a escrever; ao pai natal, uma torre para a consoada.
Uma cidade que seria uma menina a foder; com o empreiteiro da língua afiada.

Uma cidade que será uma menina a convalescer; das dores de parto e da cabeça aguada.
Uma cidade que será uma menina a morrer; a morte lenta depois de esventrada.
Uma cidade que era uma menina a renascer; uma cidade-menina-queimada.

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