Monday, November 29, 2004

Onan e o Virtual

13:51

Vicissitudes da Virtualidade.

Eu disse-lhe- Bem, vou postar.
Ele disse- Qual é o tema hoje?
Eu respondi- Ainda não sei.
Ele sugeriu- Fala da maior árvore da Europa.
Eu instiguei- Vou falar de ti.
Eu assentiu- Ok... mas arranja um pseudónimo fixe. Podes chamar-me de Ernesto.

Eu eu comecei a postar:
Daqui a pouco tempo faz um ano que conheci o Ernesto. Foi em Janeiro, tenho quase a certeza que foi em Janeiro. Foi, e é, um conhecimento intermitente, muito intermitente. Um conhecimento virtual é sempre intermitente. Acho piada a estas coisas dos conhecimentos virtuais. Porque o primeiro instrumento é sempre a palavra. Eu, como deve ser bastante óbvio, gosto muito de palavras e gosto de usá-las como instrumentos.
O Ernesto nunca está no sítio de onde é. Começo a suspeitar que o Ernesto já não é de lado algum. Não sei, não o conheci num sítio concreto.
Nestas coisas da virtualidade as pessoas têm sempre a tendência, muito pouco estranha, de tentarem firmar esse "conhecimento" em matérias muito pouco virtuais. Querem firmá-lo através de matérias concretas, correntes, caracterizadoras, matérias materiais; apesar de se tratar de conhecimento virtual. Eu, na verdade, não estou de acordo com esta definição de conhecimento virtual. O conhecimento não é virtual, é efectivo. Tem um molde, uma frequência, uma configuração, um espaço. É precisamente esse espaço que é virtual. Assim, existe sempre a tendência, quase sempre mórbida, para tentar contrariar a virtualidade desse espaço. As pessoas ficam ávidas pela definição. Muito preocupadas em se definirem, eu fico, e em definirem o outro, eu também fico.
O Ernesto apresentou duas grandes particularides: apresentou-se-me, virtualmente é certo, de uma forma semelhante à primeira pessoa de quem eu gostei muito e tem o signo da pessoa de quem eu gostei mais. Na verdade tem o signo de ambas essas pessoas. "Gémeos, tu és gémos? Ui, logo vi. Tchau." Eu e os nativos desse, tão particular signo, temos estórias plenas mas nada fáceis. De modo que o Ernesto, apesar da virtualidade da nossa estória, é o co-protagonista daquela que se tem mostrado a menos danosa.
Conheci o Ernesto, em pessoa, em Setembro. Creio que foi em Setembro. Não foi, Ernesto? De certeza que não te lembras. Tu nunca te lembras de nada, és Gemeos.
O Ernesto estava muito perturbado, ia ter uma entrevista que visava a sua ida para o Japão (para ir trabalhar ou estudar, nunca cheguei a perceber). Fomos almoçar ao Maracanã. O Ernesto só sabia dizer que estava muito agoniado e sem fome. Tentou comer uma sopa, eu comi um peixe com ameijoas. Bebi duas Superbock Stout, ele pediu um IceT mas não sei se o chegou a beber porque não estive atento.
Estas coisas do espaço virtual não deixam de ser coisas, coisas concretas. Os indivíduos ficam a conhecer-se de facto. Eu decidi provar essa minha suspeita. Levei vestida a minha camisa havaiana, uma camisa muito berrante, de que eu gosto incondicionalmente porque já vivemos muita coisa juntos e também porque é berrante. Levei essa camisa de propósito. E quando a meio do almoço (do meu almoço, porque se houve verbo que o Ernesto não conjugou naquela ocasião foi precisamente o verbo almoçar) ele subitamente me disse: "Essa camisa é horrível", eu tive então a certeza absoluta de que estava diante do Ernesto. O bom e velho Ernesto, o meu amigo virtual. O, unilateral, almoço decorreu sem grandes ocorrências a destacar. O Ernesto fitava o prato da sopa que não conseguia comer, eu terminei o peixe, as ameijoas e as Stout, e lá fomos cada um à sua vida.
Ficámos muito tempo sem nos comunicar. Eu pensava que o Ernesto não mais iria querer conferenciar com criaturas que usam camisas horríveis. O Ernesto não sei o que pensou. Sei que ficou com o computador doente e, consequentemente, impedido de aceder ao espaço de encontro virtual.
Voltámos a falar no mês passado. O Ernesto comunicou-me que iria morar uns meses para a Hungria. Acho que são seis meses. Temos falado com alguma frequência. O facto de ele estar na Hungria, curiosamente, não tem acrescentado grande conteúdo espacial às nossas conferências virtuais. Tudo está basicamente na mesma. O cenário é exactamente o mesmo: eu, um computador, um programa chamado Messenger, uma janela que se abre, um rectângulo cor de laranja que pisca e palavras que se vão lendo e escrevendo. Palavras que ilustram as disposições de duas pessoas; os seus quotidianos, hábitos, humores, amores (ou as ausências dos mesmos), desejos, fantasias, raivas, frustrações, interiores. Palavras, apenas palavras, minhas e do Ernesto.
Agora vou perguntar ao Ernesto, que está on-line à espera que eu acabe de escrever isto para me dizer que achou uma grande merda, qual é a maior árvore da Europa. Isso ele deve saber. Sim, porque não vale a pena perguntar por goulash ou pelo sabor do povo húngaro. Ele ainda não provou nenhum, nem goulash nem húngaros. É muito estranho este Ernesto!

1 comment:

Anonymous said...

You Bastard!