depois de ter lido uma coisa de Manuel Cintra: poesia, ou ser-se poeta, é o exercício do puro, pardo, pleno, parvo, pérfido, poroso, e até, piroso, direito de (des)ver!
Sunday, February 08, 2015
Saturday, January 31, 2015
matéria abortada... porquê?
aos dezoito anos a princesa aceitou ser rainha, sendo que podia ter rejeitado a sucessão e, como tal, esse assunto não é para aqui chamado, mas fê-lo com a firme condição de que apenas a isso acederia se nunca, durante todo o seu reinado, tivesse de sujar as mãos. havia sujado as mãos em pequena, naquela tarde em que caçara um grilo nos jardins do palácio, mas a experiência, e o contacto entre a terra molhada e as cutículas, não havia sido confortável nem interessante, e, por isso mesmo, se decidira, logo nessa longínqua tarde, a nunca mais em toda a sua vida voltar a sujar esses órgãos.
a cerimónia da coroação, como é suposto e óbvio, foi envolta em pompa, fausto e protocolo. no chão das ruas de todo o reino foram espalhadas flores, apanhadas por muitas mãos, bandeiras coloridas foram hasteadas, por outras tantas mãos, em todo e qualquer canto, iguarias de grande qualidade e quantidade foram, com as devidas antecedência e mãos, preparadas e a música fez-se ouvir durante dias a fio; foi uma cerimónia algo longa, é preciso que se note. delegações e comitivas vieram de todos os vizinhos reinados e pode dizer-se que o acolhimento, feito a mais de mil e uma mãos, não menos do que perfeito foi.
a única coisa que nela mudou foi o nome; deixou de ser a princesa das mãos limpas e passou a ser a rainha das mãos limpas. convém, nesta altura do relato, fazer notar que as mãos da, agora, rainha das mãos limpas eram umas mãos que em nada se verificavam especiais e que o facto de se manterem impolutas nada de particularmente belo conferia às mesmas.
a rainha das mãos limpas tinha umas mãos absolutamente regulares, umas mãos iguais às de qualquer rapariga de dezoito anos, umas mãos normalíssimas. a própria rainha, em si, nada tinha de destacável no que à beleza pudesse dizer respeito, era uma rapariga cuja figura nada acrescentava ao adjectivo: corriqueiro.
passaram alguns anos, dois, para que a narração mais precisa seja, e a rainha das mãos limpas já plenamente exercia funções sem que, no que à competência concernia, nada de incorrecto, transviante e desacertado se lhe houvesse a assinalar. tornara-se naquilo que se pode, correntemente, designar: uma rainha e pêras. e é justamente aí que bate, ou melhor: batia, o ponto. a fruta. era no pomar, à sombra das mais variadas, fecundas e frutíferas, no mais literal sentido, árvores que a soberana tomava significativas e graves decisões. havia, contudo, uma certa macieira que parecia obter dela, a rainha, a maior predilecção e que, no que à arte de reinar dizia respeito, quase que como um poderoso, e simultaneamente simples, totem funcionava, como se repleto estivera de talismânicas qualidades. a macieira, não particularmente robusta ou bela, justamente como a rainha e as suas limpas mãos, parecia ter em si concentrada toda uma tácita teia de virtudes. fora protegida pela sua sombra que a rainha decidira e decretara ser obrigatória a música nos berços, a proibição de leques e abanicos, pois o calor é filho do céu e do chão e não compete ao homem o mesmo combater ou negar, impusera a metáfora e a metonímia como direitos incontestáveis dos plebeus e fizera constar nos reais autos que leitor é um trabalhador cuja faina é igual à de um outro trabalhador qualquer. tudo isto, ao longo desses dois, de soberania, anos se passou sem que a nossa protagonista uma única maçã, ou qualquer outra peça de fruta, por vez alguma à boca levasse. a rainha alimentara-se, durante todo esse tempo, e ao contrário de todos os anos em que apenas princesa fora, de húmus, água férrea e fezes de pequenos pássaros.
certa tarde de certo dia, ao septingentésimo nono da sua governação, deu-se na monarca uma súbita e ousada mudança. passavam largos minutos das treze horas, mal ainda acordada estava, a rainha deitava-se sempre tarde e, assim sendo, nunca cedo do sono sobressaía, quando, ainda meio entorpecida, mas já sob a sua predilecta macieira, rodeada de conselheiros e superintendentes, ergueu para a copa da árvore o olhar e uma, praticamente, pútrida maçã a deteve. cessou, nesse mesmo instante, a dissertação que sobre a obrigatoriedade de viajar ao cidadão comum era devida e obrigatória e, muito clara e repentinamente, disse:
- minha és hoje, ao meu estômago pertences, tímida e resignada maçã!
- minha és hoje, ao meu estômago pertences, tímida e resignada maçã!
Sunday, December 07, 2014
o fumo e a lembrança
estava agora a fumar à janela, cá em casa não se fuma nos aposentos, e lembrei-me de uma velha. durante a minha infância e adolescência, eu passava horas e horas na açoteia do meu prédio, que era bastante alto, considerando o tipo de habitação circundante, mesmo no centro de olhão, ali ficava horas, sozinho, a ver a cidade, as pessoas a passar na rua, o cubismo tão arabesco e típico da cidade, olhão passou de vila a cidade no dia em que fiz nove anos, a ria formosa mesmo à frente, os barcos na ria e até conseguia ver, lá ao longe, as ilhas (armona, culatra e farol). muitas vezes tinha contracena, ou companhia, neste açoteísmo. essa companhia, e mais tarde contracena, quando comecei a fumar e o fazia durante essa contemplação, era: a velha que fumava às escondidas. havia uma velha que todos os dias, impreterivelmente, às três e às seis da tarde, numas ruas à frente, subia à sua açoteia e ia fumar, visível e claramente à socapa da família que com ela vivia, o seu cigarrinho. fazia-o sorrateira, furtiva e rapidamente. aposto que fumava sg filtro. a velha era viúva, há muitos anos, por isso estava sempre vestida de preto, nessa altura o luto era para a vida, e era avó de uns miúdos com que eu brincava às vezes e sogra de uma amiga da minha mãe. hoje lembrei-me da velha que fumava às escondidas. aposto que já morreu e cheira-me que não foi de cancro do pulmão! hei-de perguntar, no natal, à minha mãe se sabe o que dela foi feito.
Thursday, November 27, 2014
Tuesday, September 23, 2014
peugeot partner
comecei a escrever um poema ontem no cinema ideal. acabei-o agora na cama ao acordar. obrigado Joaquim Pinto e Nuno Leonel pelo imperdível e, quase, inominável acesso ao sublime que 'E agora? Lembra-me' dá.
reza assim o poema, que se chama:
Peugeot Partner
Internos da doença
Internados na vida
Tão grávidos de cinema;
Juntos:
Pesadelo,
Pénis,
Pêlos e
Periferia
Do artifício
De Cristo
Da poesia.
Bom natal, Morte, abortámos-te hoje,
corremos assim mais um dia,
desfalcando-te o norte.
Ão ão - calado, Rufus, está tudo bem, não há disso precisão.
Aqui tudo há-de medrar;
mesmo quando já não houver o que colher haverá sempre o que plantar.
Thursday, March 27, 2014
Tuesday, February 11, 2014
tão cheios de sol
hoje sonhei-nos em paris
a cidade com que tu embirras e de que eu tanto gosto.
andámos por lojas foleiras, a rir dos donos e da roupa,
e num bistrot roubaste os pratos ao garçon para lhe trocar as voltas e estes irem para as mesas erradas.
rimos muito no sonho.
não rimos mais do que é normal; rimos de uma maneira diferente.
mas acordei, como habitualmente, com o teu perene calor
e a ponta do teu gelado nariz a roçar-me na orelha.
saíste de casa, para o frio e chuvoso dia, mas deixaste-me o dentro de casa e o dentro de mim:
tão cheios de sol.
a cidade com que tu embirras e de que eu tanto gosto.
andámos por lojas foleiras, a rir dos donos e da roupa,
e num bistrot roubaste os pratos ao garçon para lhe trocar as voltas e estes irem para as mesas erradas.
rimos muito no sonho.
não rimos mais do que é normal; rimos de uma maneira diferente.
mas acordei, como habitualmente, com o teu perene calor
e a ponta do teu gelado nariz a roçar-me na orelha.
saíste de casa, para o frio e chuvoso dia, mas deixaste-me o dentro de casa e o dentro de mim:
tão cheios de sol.
Sunday, December 08, 2013
talvez
talvez amar muito seja
ficar embevecido quando se descobre dois caroços de pêras abandonados
dentro da chávena que abandonada ficou em cima da mesa
talvez amar muito seja
achar isso a coisa mais ternurenta do mundo
talvez amar muito seja
este simples pensamento imediato
(que precede a elaboração desta composição):
olha, o meu amor comeu duas pêras!
ficar embevecido quando se descobre dois caroços de pêras abandonados
dentro da chávena que abandonada ficou em cima da mesa
talvez amar muito seja
achar isso a coisa mais ternurenta do mundo
talvez amar muito seja
este simples pensamento imediato
(que precede a elaboração desta composição):
olha, o meu amor comeu duas pêras!
Friday, July 05, 2013
verbo: dormir
gosto de dormir aos bocados, solavancos, numa sucessão de variadas porções. gosto dessa procissão de pequenos goles de desvida.
Wednesday, May 01, 2013
poema dos últimos mui últimos dias
e eis que se atinge, na poesia, um estado que define que
o poema deixa de ser uma consequente necessidade:
passa a ser o processo do olho.
do olho que vê o antídoto do estar.
o poema nada mais é do que:
a minha vontade de não concretizar o fim do poema.
ser livre é deixar a poesia voltar à sua nascente, voltar à sílaba primeira, iniciar a escrita.
poesia é, neste momento, a visível vontade de nada transparecer,
esta vontade férrea de não, me, ler.
esta, louca, vontade de nunca colar ao sentir o redigir.
a poesia é uma coisa que não encontra língua nem solução.
a poesia é o meu pai a morrer antes do momento em que me fez.
a poesia é a minha mãe ter morrido à boca da puberdade.
a poesia é o náufrago do meus avós.
a poesia é do homem ter nascido ventre e não fábula onde se escreva.
a poesia é uma certeza que anuncia que nada do seu fim o calor me trará;
é a morte nos dedos dos pés,
é a vontade de não se - o calor- mascarar.
a poesia é aquilo que me faz procurar na vida a inesperada composição.
a poesia é aquilo que une as letras da palavra: não!
o poema deixa de ser uma consequente necessidade:
passa a ser o processo do olho.
do olho que vê o antídoto do estar.
o poema nada mais é do que:
a minha vontade de não concretizar o fim do poema.
ser livre é deixar a poesia voltar à sua nascente, voltar à sílaba primeira, iniciar a escrita.
poesia é, neste momento, a visível vontade de nada transparecer,
esta vontade férrea de não, me, ler.
esta, louca, vontade de nunca colar ao sentir o redigir.
a poesia é uma coisa que não encontra língua nem solução.
a poesia é o meu pai a morrer antes do momento em que me fez.
a poesia é a minha mãe ter morrido à boca da puberdade.
a poesia é o náufrago do meus avós.
a poesia é do homem ter nascido ventre e não fábula onde se escreva.
a poesia é uma certeza que anuncia que nada do seu fim o calor me trará;
é a morte nos dedos dos pés,
é a vontade de não se - o calor- mascarar.
a poesia é aquilo que me faz procurar na vida a inesperada composição.
a poesia é aquilo que une as letras da palavra: não!
Thursday, April 25, 2013
haiku pós-moderno
passarinhos entretidos no ar ignoram
humano casal de pombinhos que
bêbado sobe a travessa das mónicas.
humano casal de pombinhos que
bêbado sobe a travessa das mónicas.
a calçada era portuguesa.
eu já tive alegria - disse ele.
onde? - perguntou ela.
nas pontas dos dedos, claro; onde haveria de ser? - respondeu e perguntou ele.
poderia ter sido sobre os ombros - afirmou ela.
sorriso rasgado dele e a resposta - a alegria nunca é sobre. é porém.
porém como liberdade? - voltou ela a perguntar.
porém como cidade - tornou ele, uma vez mais, a responder.
cidade onde se anda? - sem hesitação, dela, surgiu esta nova pergunta.
cidade onde se cansa, onde se descansa, onde se balança - assim foi dele a resposta.
ah, já teve alegria sinónimo de maresia. - concluiu ela.
sei lá, estava, nesse tempo, num alegre e não pensante navegar - despachou-a ele. (enquanto observava o sangrado palito que acabara de lhe escarafunchar o canino dente).
o empregado de mesa, abílio de seu nome, teve nesse mesmo instante um cardíaco ataque. enquanto sucumbia, vieram-lhe à lembrança risos de meninos outrora à margem do riso risonhos e molhados.
enquanto a ambulância subia a rua:
o que é, afinal, a alegria? - teimosamente, uma vez mais, dela saiu uma nova pergunta.
é a toalha de uma praia que não se esquece - murmurou ele.
hora do óbito: 16h22.
a calçada era portuguesa.
onde? - perguntou ela.
nas pontas dos dedos, claro; onde haveria de ser? - respondeu e perguntou ele.
poderia ter sido sobre os ombros - afirmou ela.
sorriso rasgado dele e a resposta - a alegria nunca é sobre. é porém.
porém como liberdade? - voltou ela a perguntar.
porém como cidade - tornou ele, uma vez mais, a responder.
cidade onde se anda? - sem hesitação, dela, surgiu esta nova pergunta.
cidade onde se cansa, onde se descansa, onde se balança - assim foi dele a resposta.
ah, já teve alegria sinónimo de maresia. - concluiu ela.
sei lá, estava, nesse tempo, num alegre e não pensante navegar - despachou-a ele. (enquanto observava o sangrado palito que acabara de lhe escarafunchar o canino dente).
o empregado de mesa, abílio de seu nome, teve nesse mesmo instante um cardíaco ataque. enquanto sucumbia, vieram-lhe à lembrança risos de meninos outrora à margem do riso risonhos e molhados.
enquanto a ambulância subia a rua:
o que é, afinal, a alegria? - teimosamente, uma vez mais, dela saiu uma nova pergunta.
é a toalha de uma praia que não se esquece - murmurou ele.
hora do óbito: 16h22.
a calçada era portuguesa.
Monday, April 22, 2013
a poética praxis dos dias
enquanto pensava em ti - meu amor,
no quanto te amo e
na sorte que tenho;
dei por mim a guardar o frasco do Biokill no frigorífico.
no quanto te amo e
na sorte que tenho;
dei por mim a guardar o frasco do Biokill no frigorífico.
Tuesday, April 09, 2013
limonada
a esquadria da janela da cozinha devolve-me alguma verdade,
alguma verdade do mundo, e recorda-me:
a limonada que estou a beber não é filha dos limoeiros viçosos e povoados do vizinho.
por isso,
sabe a cera e a multibanco,
sabe a bulício de sábado à tarde,
sabe ao cancro que um dia há-de vir (em directo ou diferido; a mim ou aos meus).
suspiro e, enquanto dou um carolo seco na bancada de madeira, mal, prensada, penso:
oh, raios,
neste mundo já nem se pode acre, em sossego, beber.
a esquadria da janela da cozinha devolve-me alguma verdade,
alguma da simples verdade do mundo, e atira-me isto:
ainda bem que às vezes voltas aos anos noventa;
à pureza das primeiras descrenças na vida,
aos teus vinte e tais.
porque o futuro é tão assustadoramente complexo na sua simplicidade
e
nunca te dará forças para cuspir a venenosa limonada:
quando deres por ti, será aquilo que te circula nas veias
enquanto lutas e protestas torpe;
au ralenti.
alguma verdade do mundo, e recorda-me:
a limonada que estou a beber não é filha dos limoeiros viçosos e povoados do vizinho.
por isso,
sabe a cera e a multibanco,
sabe a bulício de sábado à tarde,
sabe ao cancro que um dia há-de vir (em directo ou diferido; a mim ou aos meus).
suspiro e, enquanto dou um carolo seco na bancada de madeira, mal, prensada, penso:
oh, raios,
neste mundo já nem se pode acre, em sossego, beber.
a esquadria da janela da cozinha devolve-me alguma verdade,
alguma da simples verdade do mundo, e atira-me isto:
ainda bem que às vezes voltas aos anos noventa;
à pureza das primeiras descrenças na vida,
aos teus vinte e tais.
porque o futuro é tão assustadoramente complexo na sua simplicidade
e
nunca te dará forças para cuspir a venenosa limonada:
quando deres por ti, será aquilo que te circula nas veias
enquanto lutas e protestas torpe;
au ralenti.
Thursday, March 28, 2013
a nossa casa
a nossa casa abre e fecha e fecha e abre mas nunca está fechada e
nunca está, tão só por isso, assim aberta.
a nossa casa é pequena, .....
não gosto nada disto.
não era sobre isto que eu queria escrever; queria escrever mas não queria escrever assim.
não estou a escrever bem. não estou a escrever, bem, a nossa casa.
há dois dias que ando com um poema na cabeça. um poema que, apenas, sei que acaba assim:
a nossa casa cheira ao meu mau hálito matinal e
a bolachas ao fim do dia.
(talvez a nossa casa não seja um poema. talvez a nossa casa seja um exercício da prosa.)
por acaso, acho que não, acho que a nossa casa pode caber dentro de um poema; eu é que ainda não cheguei lá.
mas hei-de chegar.
bolachas: a única palavra a constar no futuro poema que há-de panegiricar a nossa casa, meu amor!
hei-de escrever um poema que acabe com a palavra: bolachas!
nunca está, tão só por isso, assim aberta.
a nossa casa é pequena, .....
não gosto nada disto.
não era sobre isto que eu queria escrever; queria escrever mas não queria escrever assim.
não estou a escrever bem. não estou a escrever, bem, a nossa casa.
há dois dias que ando com um poema na cabeça. um poema que, apenas, sei que acaba assim:
a nossa casa cheira ao meu mau hálito matinal e
a bolachas ao fim do dia.
(talvez a nossa casa não seja um poema. talvez a nossa casa seja um exercício da prosa.)
por acaso, acho que não, acho que a nossa casa pode caber dentro de um poema; eu é que ainda não cheguei lá.
mas hei-de chegar.
bolachas: a única palavra a constar no futuro poema que há-de panegiricar a nossa casa, meu amor!
hei-de escrever um poema que acabe com a palavra: bolachas!
Wednesday, February 20, 2013
quem (não) parte e (não) reparte
não repartiu mas também não partiu, pura e simplesmente, deixou-se ficar. deixou-se ficar no que conhecia, no que lhe era próximo, familiar, vizinho; deixou-se ficar naquilo que tinha aprendido, ou aprendido a convencer-se, que era seu.
e uma vez mais o sol se pôs e uma outra vez a noite veio. a noite veio sem pudores, sem anúncios prévios, sem sorrateiros pés de lã; a noite veio como tinha de vir, veio nocturna. fumou um cigarro, dois cigarros, três cigarros e quando deu por si já depositadas no Cinzano cinzeiro estavam vinte, pouco odorantes, beatas umas sobre as outras depositadas, quais corpos numa vala comum displicentemente, aos vermes, atirados. e foi então que acordou. acordou a meio da noite, que veio nocturna, sem durante a mesma, sequer, ter adormecido; acordou não para a vida mas, isso sim, para a morte e percebeu que a morte há muito se tinha instalado naquilo que o discorrer dos dias afirmara, talvez algo errada ou ilusoriamente, como vida; como: a vida. e foi então que a questão se lhe afigurou: é isto a vida, é isto uma vida, então, é isto que é a minha vida? muito imediatamente, e sem deixar de casquinar, de si para si disse: oh, quantas questões dentro há de uma mesma! e, nesse momento, efectivamente, adormeceu: conjugou concretamente o verbo.
doze passos dados estavam na sua de sempre rua, já alta ia a manhã, quando um pombo morto lhe caiu aos pés. ajoelhou-se e pegou no animal de cujo interior das penas se desprendia um odor confuso. um odor a podre e amanhã ao mesmo tempo; um odor estranhamente semelhante ao que se imagina ser o debaixo da terra ao mesmo tempo que anuncia uma memória de um nunca navegado mar. subiu a rua com o pássaro morto nas mãos e percebeu que se não partira nem repartira fora porque queria na sua vida tentar, em definitivo, voar.
nessa noite bebeu vinho, partiu o Cinzano cinzeiro, atirou-o janela fora, e começou a escrever nas paredes da casa o que nela, e nele, ainda havia por, ali, viver. e às paredes confessou de quem gostava e de quem gostava de gostar.
na manhã seguinte acordou sozinho mas com um bilhete na almofada.
o bilhete dizia: logo à noite trago eu o vinho. ainda bem que não me (re)partiste o coração!
e uma vez mais o sol se pôs e uma outra vez a noite veio. a noite veio sem pudores, sem anúncios prévios, sem sorrateiros pés de lã; a noite veio como tinha de vir, veio nocturna. fumou um cigarro, dois cigarros, três cigarros e quando deu por si já depositadas no Cinzano cinzeiro estavam vinte, pouco odorantes, beatas umas sobre as outras depositadas, quais corpos numa vala comum displicentemente, aos vermes, atirados. e foi então que acordou. acordou a meio da noite, que veio nocturna, sem durante a mesma, sequer, ter adormecido; acordou não para a vida mas, isso sim, para a morte e percebeu que a morte há muito se tinha instalado naquilo que o discorrer dos dias afirmara, talvez algo errada ou ilusoriamente, como vida; como: a vida. e foi então que a questão se lhe afigurou: é isto a vida, é isto uma vida, então, é isto que é a minha vida? muito imediatamente, e sem deixar de casquinar, de si para si disse: oh, quantas questões dentro há de uma mesma! e, nesse momento, efectivamente, adormeceu: conjugou concretamente o verbo.
doze passos dados estavam na sua de sempre rua, já alta ia a manhã, quando um pombo morto lhe caiu aos pés. ajoelhou-se e pegou no animal de cujo interior das penas se desprendia um odor confuso. um odor a podre e amanhã ao mesmo tempo; um odor estranhamente semelhante ao que se imagina ser o debaixo da terra ao mesmo tempo que anuncia uma memória de um nunca navegado mar. subiu a rua com o pássaro morto nas mãos e percebeu que se não partira nem repartira fora porque queria na sua vida tentar, em definitivo, voar.
nessa noite bebeu vinho, partiu o Cinzano cinzeiro, atirou-o janela fora, e começou a escrever nas paredes da casa o que nela, e nele, ainda havia por, ali, viver. e às paredes confessou de quem gostava e de quem gostava de gostar.
na manhã seguinte acordou sozinho mas com um bilhete na almofada.
o bilhete dizia: logo à noite trago eu o vinho. ainda bem que não me (re)partiste o coração!
Monday, February 04, 2013
Wednesday, January 23, 2013
uma prazerosa quadrinha
dá-me gozo que uses as minhas gravatas,
prazer que encabeces os meus chapéus.
eu sei que não és muito de datas mas
fazes-me, tantas vezes, chegar aos céus!
Sunday, January 13, 2013
a neurose
penso numa frase que, até com alguma frequência, ouço: as pessoas são bichos de hábitos. e concordo, reconheço que sim, aprovo, dou a mão à palmatória, em suma, não viro as costas a esse facto. as pessoas são, MESMO, bichos de hábitos, de rotinas, de rituais, na verdade, convenhamos, repetições (e eu estou a sentir-me a Carrie do Sex And The City neste momento mas não me importo nada). as pessoas são, além de bichos de repetições, bichos extremamente complexos. e porque vim eu aqui parar? porque estou eu a dar-me ao trabalho de elaborar sobre isto? porque, uma vez mais, ao retornar a casa, depois de uma jornada de labuta, no carro de praça (é preciso que fique bem claro que eu, além de ser uma pessoa que muito anda de carro de praça, encontro nisso uma tão libertadora coisa que à vida concerne; os momentos em que ando de carro de praça são, efectivamente, e paralelamente aos momentos em que caminho pela cidade, os momentos em que tenho a possibilidade de estar concretamente comigo. são momentos de solidão. é claro que, com tanta regularidade na actividade, já arranjei estratagemas, que nem vou aprofundar, para não dar sequer possibilidade ao condutor de comigo interferir. isto não é ser arrogante, é garantir um bocadinho de qualidade de vida. e, garanto, andar de carro de praça é um bocadinho da qualidade de vida que, pelas, ironicamente, circunstâncias da vida, me dou ao luxo). adiante... pessoas: bichos de hábitos e repetições. estou eu a chegar a casa e a pagar a jornada e dou por mim a, uma vez mais, e como tantas vezes faço, dizer ao senhor para ficar com a demasia. hoje, e é incrível como o valor da jornada é variável, sendo que o percurso é, repetidamente, lá está: bichos de repetição, o mesmo, o valor da jornada foi: (até vou escrever por extenso) quatro euros e quinze cêntimos e eu dei ao senhor uma nota de cinco euros e disse: "fica assim". faço isto todas as noites, ainda que os valores vão variando aqui e acolá. e hoje, ao sair do carro de praça, perguntei-me: porque fazes isto? e a resposta surgiu logo: faço por ritual e faço por esperança. passo a explicar: não faço isto porque nado em dinheiro e também não faço isto porque sou um excelso ser, carregado de bondade, que prefere tirar de si para ao outro dar. faço isto por ritual, é essa a verdade. faço isto por ritual esperança. porque no fundo, e isto é que é engraçado, cada vez me leio mais como alguém que pouca crença tem no divino mas que não deixa de ter uma certa ritualidade não crença. é como brincar com... brinco com a não crença na esperança que ela, a esperança, de seu possa vir a trazer. ou, pior ainda, do que me possa vir a trazer. e isto surgiu há pouco mais de dez anos atrás. um dia fui fazer um casting para uma telenovela da tvi, aquilo ficava no caralho mais velho (como ficam todos os estúdios) e eu lá fui de metro até ao campo grande e depois fui apanhado, em frente à estação de metro, por uma carrinha da produção. ao entrar na dita percebo que havia outro rapaz, outro actor, e que estávamos os dois a "concorrer" para a mesma personagem/oportunidade. lá fizemos o casting e lá o driver nos trouxe de volta a esse, tão conhecido, campo grande. antes de entrar no metro sou interpelado por uma pedinte e automaticamente levo a mão aos bolsos e dei-lhe todo o dinheiro que neles tinha. e enquanto o fiz pensei: dou-te isto hoje na esperança de que amanhã eu venha a ter muito mais (ou seja: que fique com a merda do papel e que venha a ganhar uns cobres). e não é que funcionou?! fiquei com o papel, fiz a novela, fiquei a ganhar mais. a partir desse dia passei a dar, ritualmente, a quem me pede. de uma forma muito egoísta, confesso, porque quando dou penso, melhor, recito para mim uma frase que acho que vem da minha adorada e falecida avó: que a mim me sobre e a ti não te falte (ou o contrário, já nem sei bem, mas é assim que o faço). e faço-o porquê? porque sou uma pessoa e as pessoas são bichos de hábitos; as pessoas habituam-se às repetições, habituam-se a essa ideia, habituam-se à esperança, conforto, segurança, confiança que a repetição lhes dá. mas isso, no fundo, tenho essa noção, é ser completamente neurótico. as pessoas neuróticas agem por e pela repetição, agem pela sensação de controlo que a repetição lhes dá, agem por e para esse conforto. e dou por mim a rever-me e a lembrar-me que eu sou daquelas pessoas que verifica três vezes antes de sair de casa se as torneiras estão todas fechadas. sou daquelas pessoas, desde criança, que numa calçada só caminha sobre as pedras pretas. sou daquelas pessoas que abre e fecha a mochila três vezes (o número três é, além de importante, determinante) para perceber se as chaves de casa, o telefone, os headphones e os lenços de papel lá estão. lembro-me que quando era criança tinha um auto-jogo: ao abrir a porta do prédio tinha de correr e trepar o lanço de seis degraus do primeiro patamar das escadas do prédio antes que a mesma, a porta, nas minhas costas se fechasse. se o conseguisse estaria tudo bem; se não o conseguisse algo poderia, e iria, acreditava eu, correr mal. e ser neurótico é isto: é ter medo que não ter qualquer tipo de, por mais ridículo que seja, esperança seja o vazio absoluto. ser neurótico é não ter a capacidade de lidar com a ausência da esperança. as pessoas são mesmo bichos de hábitos e ter esperança é uma patologia que, talvez, lhes seja mesmo fundamental. ainda não percebi o peso da minha neurose nem da minha necessidade, refutação, da esperança mas sou ritualista e, confesso, isso faz-me sentir, muito, como hoje, e como tantas vezes, uma pessoa. faz-me sentir mais pessoa; por mais neurótico que isso seja. ser neurótico faz-me sentir vivo. e viver é uma coisa algo complexa e HABITUAL (até ao dia em que a gente morre). viver é repetir todos os dias o estar vivo; coisa que, por enquanto, com tudo o que isso implica, até vamos sabendo o que é. viver é verificar... uns fazem é mais prementemente do que outros essa verificação, apenas isso. talvez seja isso a neurose...
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