Friday, June 11, 2010

quoting myself (how odd!)

meu devotado diário:

visto que este será um mês muito pouco musical, no que à produção concerne, o fill vai andar pela germânia e estaremos sem ensaiar até ao fim de junho, e, da minha parte, quase em exclusivo dedicado à nobre arte de talma (três projectos do teatrismo nas próximas semanas), já estou cheio de saudades do cançonetismo; assim sendo ficam aqui uns splinters de letras das últimas canções (é que ando a cantarolar as ditas ramdomly now and then):

"we're young and horny and far from home
we lay together when it gets hard being alone
i heard you crying in bed last night
i faked some asthma and you've held me tight"

"you never, ever, ever liked love or sex
you always find a victim to rape and leave bruised next"

"i can almost say i understand why armin meiwes
had so much to pretend.
i can almost say i think it's sweet
to taste pure love you have to kill it and eat"

"i can almost say i see it clear
what is to live your life between desire and fear"

"medula parties will teach you drop your guns
and your idealism
now, the time has come
to feed the beast of pure hedonism"

"shape and content define what is true
when someone finally is loving you"

Friday, May 14, 2010

blast

desarrumaste-me os pêlos, sem o saber,
agora, cresce:
fixa-te no sabor do cárcere e da peste
APRENDE A LER.

espicaçaste-me os demónios
na minha casa, na tua e na rua
lunáticamente, lunático, me devolveste à lua
e clonaste-me o interstício dos neurónios.

há anos escrevi que tinha as veias aos berros
só agora, mediúnica é a escrita, o sinto
tudo o que de ti tive foi a ferros
e essa é uma memória pouco bonita: ressinto.

e aqui estou eu a palavras gastar
a palavras parir, a palavras deixar
foi o que foi, apesar,
da vontade que tenhamos sido uma bomba por rebentar!

catchapum! ploff! badum!

(a escrita, às vezes, é a faculdade de fechar gavetas, mirar um espelho retroactivo, remontar puzzles que já não se tem nem se quer, ou precisa, ter. é, assim, uma espécie de "maquinismo-vassoura".)



Tuesday, May 11, 2010

a sort of a flashback to my favourite winters

quando o natal era natal o avô casimiro ainda tinha o cabelo preto e morava na alemanha. e chegava sempre de noite, de táxi, vindo do aeroporto. recordo-me do cheiro das malas, cheiravam a estrangeiro e trazia sempre muitas (cheias de embrulhos e doces que cá não havia). vinha sempre de fato, fatos que cá não havia. ele era muito alto, hoje tem a minha altura e o cabelo ralo e branco. enquanto ele não chegava, eu e o tio luizinho ajudávamos a avó carminha a finalizar a decoração de natal e esperávamos que ele chegasse para a terminar porque ele trazia neve em latinhas que cá não havia. um dia trouxe-me um avião, lindo e que cá não havia. anos mais tarde o meu reguila irmão partiu-o, o meu irmão nasceu com uma fúria que já cá havia. os anos e os natais foram passando. o avô veio morar para cá há muitos anos. e eu ganhei a fúria do meu reguila irmão (ainda em mim cresce).

quando a avó carminha morreu o natal acabou definitivamente para mim. esta canção fez-me voltar a tempos que havia e que já não há. porque o natal já não é natal. porque mesmo sabendo (sempre soubemos) que o pai natal não existia, porque o pai natal era o avó casimiro, havia o cheiro do natal: nocturno e estrangeiro. e agora sinto que somos nós quem somos estrangeiros (de nós mesmos) e as latinhas de neve já se compram nas lojas dos chineses. e por outras razões mas isso deixo cá com os meus botões...

(descobrir esta canção e estes senhores foi como abrir, com a de outrora felicidade, um belíssimo presente de natal. é porque cá não há...)

Friday, May 07, 2010

querido diário (hoje dirijo-me a ti assim)

gostava tanto que fosses uma pessoa...

Friday, April 30, 2010

rudolfo de pravda

rudolfo de pravda era circunscrito
e este é o facto,
que mais prementemente,
se pode asseverar do dito.

rudolfo de pravda
era uma gozão,
não ia cá em intrigas nem cantigas e
sabia ser anfitrião.

rudolfo de pravda tinha talento
inventava segundos nomes para tudo
tinha um caderninho
e dormia ao relento.

rudolfo de pravda sabia dançar
da salsa à rumba
meneava a anca
e deleitava-se com o luar.

rudolfo de pravda era um homem a sério
tinha rigor nas acções, nas palavras
cantava todas as oitavas;
tinhas musas em cada hemisfério.

rudolfo de pravda ria-se de si próprio
abria a cabeças aos outros
ia, com eles mais, longe
em vez de um par de olhos tinha um telescópio.

rudolfo de pravda tinha o coração no sítio
podia ter sido um platão ou um gandhi
dava a roupa do corpo
era o oposto do lítio.

rudolfo de pravda gostava e sabia brindar
criou uma nova ordem paradigmática
lê-lo não consegues
porque tinha aversão ao verbo publicar.

rudolfo de pravda era contente
das abelhas conseguia velas
só com doce conversa
era o mais inteligente.

rudolfo de pravda era imediato
assim como circunscrito
percebia tudo na hora e sem demora:
era o próprio do anti-atrito.

rudolfo de pravada casou com uma perdiz
porque via essencialmente tudo
e tudo no essencial
dos seres que conheci: foi o mais feliz.

rudolfo de pravda nasceu e morreu esta manhã
de sorriso sempre aberto
guerreou e pacificou-se com tudo na vida
e fez da vida, na sua complexa totalidade, a experiência menos vã.

rudolfo de pravda foi um ser que inventei
e que nunca conheci
espero ainda encontrá-lo
dentro de uma simples e maior palavra chamada: aqui!

ou ali...







Thursday, April 29, 2010

nham nham

there is nothing like spring sex!

Wednesday, April 28, 2010

uma singela redacção

caiu-lhe uma pestana,
uma longa pestana,
da olho esquerdo.
não vi, ouvi;
fez pim
em mim!

isto é mentira.


ontem sonhei que eras elástico,
deitado comigo,
na minha cama de menino,
era escuro e sépia,
na minha primeira casa:
tudo tinha a espessura de uma sopa nocturna e indegustável,
tu querias-me, eu sabia,
eu não te queria: abraçava-te.
acordei, enjoado, quase doente.

isto é verdade.

revisito conversas,
frases feitas,
camas desfeitas,
palermices a sério e seriedades apalermadas.
o primeiro e o último beijo nunca esqueci:
nunca nenhum dos meus amantes.

isto às vezes é mentira
isto às vezes é verdade!

Tuesday, April 27, 2010

crossfade

a coisa que o meu trigésimo ano de vida mais claramente está a proporcionar-me é a percepção do crossfading que em mim se opera (ou tem vindo a operar).

quando o corredor começa, sob os meus pés e à frente dos meus olhos, tenho quatro ou cinco anos;
terei os anos que agora tenho quando o corredor acabar.
(ou será que está a meio?)
mosaicos brancos, pintalgados de negro (como moscas esmagadas ou formigas obesas e disformes; esborratadas).
- avó, tenho fome; quero pão com doce de tomate, feito pelas tuas mãos, e um copo de 7Up (pelas tuas mãos servido).
a outra avó, aquela de quem me fui habituando (ou a quem me habituaram) a não gostar tanto dava-me fatias de pão com manteiga e açúcar (eu gostava). mas essa não me cantava e chamava-me: coirão. (habituei-me ou habituaram-me?)
estou descalço, eu estou sempre descalço (e com a pilinha ao léu na fotografia da t-shirt encarnada onde estão estampados o Marco e o seu macaquinho albino);
e os mosaicos estão frescos porque é Verão e no Verão é que dou por isso.
tenho vontade de me deitar no chão, a avó dorme, o avô foi à pesca, o tio foi vadiar, a mamã e o papá estão longe, na nossa terra, a trabalhar, à distância de um comboio; quero deitar-me e deito-me, ninguém pode ver-me.
vou contar as moscas-esmagadas-ou-formigas-obesas e disformes; esborratadas. há centenas em cada mosaico, e há dezenas de mosaicos no corredor. vou deitar-me e contá-las, uma a uma, quando me levantar já sou grande.
uma, duas, três, ninguém ainda chegou, sou apenas eu, elas e Deus.
quatro, cinco, seis, diz-me a interna voz: quando te levantares verás se te aborreceis.
sete, oito, nove, ao sentires o teu coração bater sozinho não haverá um que a tua cabeça aprove.
dez! menino levantado do chão: é aquilo que ontem és!
...
trezentas e setenta e sete: continua a contar porque isto promete.
...
quatrocentas e vinte e duas: alguma vez perderás essa vontade de encontrar o amor nas ruas?
...
quinhentas e trinta: já transportas no olhar essa onírica sensação de que a vida te finta.
...
quinhentas e noventa: se o menino não se levanta é porque nem sequer isso tenta!
...
seiscentas e uma: tua voz e a tua escrita, agora, são irmãs; filhas da dos dias espuma.
...
não conto mais: que culpa tenho eu de ser aquilo que foi feito na cama dos meus pais?

não me levantei logo, nem a seguir, nem depois de a seguir, nem depois de depois de a seguir.
deixei ficar-me o tempo que me apeteceu.
entretanto o corredor foi-se enchendo de gente, ninguém que conhecesse;
gente que se foi apresentando, com mais ou menos modos,
mais ou menos perícia, mais ou menos interesse, furor e blandícia.
e eu sempre deitado, no soalho, nos mosaicos frescos do corredor.
ouvi muita coisa, não disse menos do que muita coisa, dei abraços e beijos;
fiz amor e fiz ódio. fiz alguma coisa e não fiz tanta e tanta coisa.
ainda estou deitado, o corredor tem a sua própria vida e eu sigo a minha própria;
ultimamente, e agora, ainda deitado, corpo colado aos mosaicos, barriga virada para cima;
dói-me, tenho as costas tortas, fito o tecto.
ouço-os, vejo-os, pressinto-os e sinto-os entrar, sair: passar.
sei que atrás de mim há uma porta, sem dar por isso deslizei, corredor fora,
e estou na extremidade oposta àquela onde e quando me deitei.
passou tempo. quanto tempo? quase trinta anos?
a avó ainda dorme, agora dorme para sempre, o avô já quase não vai à pesca,
o tio vadia como pode e sabe, tenho um irmão que é um homem e a mamã e o pápá?
a mamã e o papá são o: cada um para seu lado.
ela chora-me ao telefone e dele não sei nem quero vir a saber.
eu sou, mas vou deixar de ser, aquilo que foi feito na cama deles.
porque a cama já não é deles e eu sou mais do que isso.
sou um homem,
sou sede, fome, vontade e sono,
sou a psicoterapia à segunda ao fim da tarde,
sou o crossfade
(onde a melancolia do menino e a displicência do homem com idade de cristo
se encontram no princípio, no meio e no fim de um corredor cujo soalho é de mosaicos frescos),
sou a vontade de me levantar.
estou a deixar de olhar para o tecto, a fixar as palmas das minhas mãos e
a preparar-me para as colar aos mosaicos do chão.
já não há moscas, voaram, nem formigas obesas e disformes, imigraram,
descolo a nuca do chão, levanto o tronco e vejo-me, no princípio do corredor,
a acabar de me deitar.
amanhã, quando acordar, levantar-me-ei.
caminharei até mim, menino deitado no chão, estenderei a mão e, juntos,
abriremos esta porta que tenho atrás das costas,
com esta chave que trago, há muito, talvez desde sempre, guardada dentro da boca.
é isto ser grande?





Sunday, April 11, 2010

é para que vejas, diário meu. eu escrevi isto no facebook e retirei; por medo de parecer muito violento mas sinto-o e em ti o publico:




ok, one of these days i'll go outside with a shotgun and i'll kill one or two, or three or four. i'll kill a lot. there must be blood... eu não consigo ver mais do que pessoas que só merecem morrer... por favor, só vejo crápulas merecedores de morte imediata... é que vou mesmo dar uma de columbine... vivemos no recreio dos armados em coninhas do xpto do caralho e têm de morrer todos for fuck's sake!

tenho andado a dizer isto aos meus amigos na brincadeira. mas, um de nós tem de fazer a revolução: matar. só quando houver sangue é que alguém acorda.
estou farto que me devam dinheiro, estou farto de mendigar, estou farto de pedir, estou farto de estar farto... there must be blood...

estou farto de estar farto!

Wednesday, April 07, 2010

o carril

era uma vez um menino que sentia comboios dentro das veias e por isso, durante muito tempo, foi incapaz de sair do quarto. deixou-se ficar, muitos e muitos anos, enclausurado na quietude de tudo o que lhe parecia imutável, familiar, pacificador, seu. fingia que não mas temia o mundo lá fora. passava os dias colado à janela, a observar solitários cães, senhoras reformadas com sacos de plástico repletos verduras a caminho de casa e a rotina algo tonta do carteiro. mas os comboios, dentro das suas veias, nunca cessaram a marcha. um dia abriu a janela, e sentiu, vindo de longe, o cheiro daquilo que poderia ser o mar, ou o deserto, e partiu. hoje sabe que os comboios são janelas em movimento e constrói com as unhas e pensamentos o seu próprio carril. é dono de um comboio-vida (onde não há primeira nem segunda classes).


Tuesday, April 06, 2010

life lessons

meu cloníssimo diário:

outro dia, onan, pensava nessa coisa do futuro, nessa coisa das hipóteses, nessa coisa de ter um coração e apurou a seguinte conclusão (que até partilhou com "o mundo"):

onan, nunca mais tentará amar quem não o consiga de riso fazer contorcer-se. só de uma pura e arrebatadora, sensual, gargalhada pode um forte sentimento, nos que correm dias, meus amigos, realmente advir. ride-vos, vinde-vos e confraternizai-vos, irmãos meus!

Thursday, March 25, 2010

silicon ex machina

querido diário:

tenho/temos duas canções novas. os dois últimos ensaios foram realmente produtivos e, de alguma forma, inspirados. ainda estão algo caóticas mas têm muito potencial e o que é essencial já está no sítio. de facto, a tecnologia, quando utilizada a nosso favor, é de uma eficácia impressionante. o facto de estarmos a gravar o nosso trabalho em tempo real dá-nos uma focagem no mesmo muito mais absoluta. ficamos imediatamente a saber o que está e não está certo. é uma grande ferramenta e, por outro lado, dá-nos a liberdade para, muito rapidamente, começar a enriquecer os temas. gravamos uma batida provisória (o nuno trabalha-as depois sozinho e sequencias-as), linha de baixo, uma linha melódica e voz; depois ouvimos esse primeiro sketch e percebemos o que funciona e não. e, a partir daí, começamos a tocar sobre essas linhas gravadas, retiramos a voz do playback, para que eu cante em cada ensaio do tema, e começa-se logo a encher a canção em termos melódicos e a trabalhar no sentido do arranjo. estamos, de facto, a chegar a um bom compromisso entre o homem e a máquina nos silicon.

os dois temas novos chamam-se: killing mood e medula parties. o primeiro já tem letra definitiva e o segundo ainda não (in progress). o que é curioso no primeiro, e vais perceber quando te mostrar a letra, é que é um tema muito doce e delicado, quase uma canção de embalar; é uma contradição curiosa e um bom compromisso antitético entre conteúdo e forma.

aqui fica o poema do killing mood:

days went by, weeks went by, months went by
quite never understood
one night in your bed, while you were sleeping,
i started to be in the killing mood

our love was a ship: we let it sink
our love was a temple: we turned it a wreck
and then it came so suddenly:
the sweet intention of breaking your neck.

the sweet intention of breaking your neck.

chorus (female voice):

but you broke my neck
but you broke my neck
but you broke my neck
but you broke my neck

now it came true, your major fear
i've always knew we'd never be friends
i must admit i take good pleasure
in knowing the fact that you'll die by your hands

you will die by your own hands

chorus (female voice):

but you broke my hands
but you broke my hands
broke my hands
both of my loving hands

days went by, weeks went by, months went by
quite never understood
the way you hid from me, from yourself
made me be in this killing mood

and now i love this killing mood.


...................................................................................

i thank music for turning such bad occasional feelings and memories into really deep, beautiful and pure everlasting something. but all goes by, only art stays (and prints weight and importance to things that time ends up turning into laughable splinters of our history).

Tuesday, March 23, 2010

fridge buzz 1

são sonhos, senhor, são sonhos - disse eu quase displicentemente enquanto o coração me era arrancado do centro do centro, ou seja, do peito.
a operação, não no sentido cirúrgico do termo, pois não era, definitivamente, disso que se tratava; a operação, no sentido da acção que até ao fim se leva, mostrava-se lenta e indolor. atrevi-me a sorrir.
quem diria- pensei e disse eu, em bem clara e determinada voz - quem diria que ao ver o coração do peito ser retirado a única coisa que me atormentasse fosse este som?
bem, o som, é preciso que agora uma pausa no relato seja feita, o som era redondo. não consigo encontrar um adjectivo que melhor o defina; é exactamente esse: redondo. um som completo, que em si mesmo se encerra, que em si nasce e termina, que um perfeito círculo no imaginário desenha, um som consciente: redondo. talvez não seja necessário referir mas eu, um ser peremptório e repleto de rotundice (é preciso que saibas que sou especialista no que à criação de novos vocábulos concerne e é preciso que disso gostes; caso contrário evapora-te da minha escrita), eu, um ser desse calibre (e odeio esta palavra), fiz questão desse facto salientar.
bem, uma vez mais, quero chegar ao som. mas esqueçamos, para a ele voltar, por ora o som, o facto de redondo ser, a operação (coração do centro do meu centro ser extraído), etc.. porque tudo isso nada mais é do que um conjunto de inverdades. tenho o coração no seu próprio sitio, operacional e, esse sim, irrelevante. na verdade, nem o sinto. descobri que o meu coração é um componente periférico ao qual acedo conforme dele necessito. mas tudo isso são arabescos, filigranas, dispersões, inutilidades. os corações são obstáculos neste trânsito do ser e, no que ao meu concerne, por tão pouco dele perceber e precisar, prefiro que desconectado se mantenha. porque o coração para muito pouco interessa. é um outro e tão enfadonho, além do apêndice, apêndice!
agora sim, agora, vou ao centro do centro: o som. há anos que ando a tentar capturar a essência do que hoje cataloguei como o som da vida externa. na verdade, o som da vida vida. porque a vida só a si mesma de categorismo se reveste quando externamente a contemplamos. há anos que quero poder chegar ao dia em que ao fridge buzz possa aceder. não será certamente agora que o farei porque ainda desse conceito me estou a aproximar. estou a sondá-lo. o fridge buzz é o centro do meu centro. é o centro de toda a minha imódica sensibilidade, é o princípio de mim. e, devo confessar-te, foi preciso viver mais de trinta anos para a essa certeza chegar.
vou dar-te apenas um exemplo/sketch/lamiré:

tenho saudades de agosto;
as tardes de agosto,
das tardes de agosto.
soalho frio, tijoleira, mosaico, fresco, toda a casa da minha avó.
agosto à tarde; a doçura,
a solidão fresca e veraneante da minha meninice.
a voz da avó embalava: sempre odiei dormir a sesta,
assustava-me e enfadava-me.
eu e a avó carminha, para que eu pudesse/conseguisse dormir, fazíamos camas improvisadas no chão do quarto dela.
quase que brincávamos aos acampamentos.
era bonito, divertido e nosso.
agosto à tarde;
a sonolência de agosto à tarde,
enquanto eu tinha cinco, seis, sete, oito, nove, dez anos.
um cobertor no chão, um lençol por cima e nós no meio (eu e a minha tão amada avó),
ah, mais duas almofadas.
era este o tempo de dormir, em agosto
na calorosa e fresca casa dela: à tarde (vamos dormir a folga - dizia ela).
a casa dos meus melhores natais.
mas é de agosto que falo e é nesse mês que me concentro.
e eu dizia-lhe, todas as tardes:
"canta-me, avó, a canção da velha ceguinha."
e ela cantava uma canção que agora (e receio que para sempre) recordar não consigo.
uma canção triste e bonita: a velha ceguinha.
e a minha, ainda não velha, avó cantava-me essa canção.
com a frescura da primeira vez, como se da primeira vez se tratasse, todas as tardes; em agosto.
e, assim, adormecia.
e, assim, a minha avó adormecia.
e quando a sentia bem ao sono entregue, eu, levantava-me da cama de brincar
e andava pela casa, fresca e vazia, a ser eu mesmo, sozinho, menino, grande, eu mesmo.
tudo em calma e sossego estava.
era agosto e a avó dormia.
era apenas eu a ser eu e o fridge buzz que, na cozinha, na sua perene existência, companhia me fazia.
é sobre isso que irei sempre escrever.
é aqui que está o centro do meu centro.
este sou eu.
e é dentro desse frigorífico que, à minha espera, estão o meu coração e a minha escrita.
............................................
quando o coração da minha avó parou, porque "em cinco bocados se partiu" (foi assim que o meu avô casimiro replicou a conversa que o médico lhe fez) o meu coração partiu-se também e com ela ao pó voltou.
foi isso que eu senti (mesmo tendo sido meses, anos, mais tarde) mas agora percebo que não foi o meu coração: foi o nosso, o das tardes de agosto. e eis que, restou apenas a cabeça, a minha cabeça; a cabeça que um dia, pela escrita, há-de abrir e mostrar ao mundo o que dentro do frigorífico (que buzz sempre fez e faz) há assim de tão importante, assim de tão pequeno e valioso; como as grandes coisas do mundo são.
congratulo-me por estar no sítio onde estou; congratulo-me pela minha pequena, atenta, lenta, peculiar, bizarra, infinitude.
sou maior quando sinto que me não acabo nas pequenas coisas do coração.
porque o coração, ainda que apêndice, sábio e inútil, como as grandes e verdadeiras coisas são, é!
..............................................................

o mais estranho disto tudo é sentir, e devo confessar que há já alguns anos, que o eu menino mais não era do que um, no tempo, emissário do, agora, eu homem. como se quem eu fui tivesse sido pensado por quem eu hoje sou.

nasci já grande e ainda não consegui perceber bem o que é isso.

é por isso que brinco com as coisas tão sérias, porque, parece, ainda agora comecei a brincar.


Wednesday, March 17, 2010

onan o justiceiro

querido diário:
hoje pus a estropícia da gorda bully do recreio do externato do 1º andar na ordem. depois de a mini-orca ter expulsado os dois chinesinhos que ostraciza e quando já chamava de estúpido e fazia de criado o dos óculos que dizia que estava no casulo a se "estranformar" em borboleta, berra onan do alto do 4º andar: "cale-se, sua malcriadona, há pessoas a querer descansar".

Saturday, March 06, 2010

Friday, February 26, 2010

redigir

no meio de tudo, de tudo isto, disto tudo, sou muitas vezes invadido pela simples vontade de redigir (simplesmente redigir). faço-o, tenho-o feito, apesar da não desejável intermitência, com alguma singular regularidade. a invasão veio, chegou-me, agora, e preciso de redigir. do nada, redigirei. e eis que:

teclava com incessante fúria porque isso, além de lhe saciar o frenesim que na ponta dos dedos se instalava, qual tesão digital, a fazia sentir-se ligada ao mundo; isto porque, para si, qualquer acção lhe devolvia a sensação de se sentir viva, actuante, operante, cinética, na verdade, viva; sejamos claros e sucintos: isso fazia-a sentir-se viva. as unhas, sim as unhas, eram o seu grande inimigo. deixava-as crescer por vaidade, aprumo e teimosia. e agora, no pináculo desse fervor, as unhas eram quem mais a atraiçoava. mas ignorou esse facto.
- que se partam! - pensou e disse, quase bem alto, para si e para as paredes. e assim se manteve, agarrada a essa ideia, a esse impulso, a essa fúria, durante doze muito pouco longas horas.

a primeira coisa que escreveu foi:

"tenho dezoito horas deste dia, isso nada quer dizer mas eu tenho muito que dizer e muito que de mim se diga".

não descansou, não vacilou, na verdade, não parou. começou e terminou. escreveu sobre a sua entrada no mundo, sobre o mundo a em si entrar, sobre quem no seu mundo entrava e, sem conveniente anunciação, se fazia por subtrair, sobre lugares nunca vistos mas muito sonhoados, sobre lugares vistos e nunca desejados, sobre horas perdidas, horas achadas, horas perdidas e achadas; citou poetas e pessoas sem qualquer tipo de poesia, fumou cigarros, bebeu água, leu-se, releu-se, escarrapachou-se. nunca chorou e nunca parou, nunca parou de escrever, de se escrever (porque quem escreve realmente nunca consegue parar de (se) escrever, mesmo quando acometido pela maior e mais violenta imobilidade).

sentiu que em si, com toda esta operação, em todo este processo, no saciar desta feroz vontade, nada cresceu, nada mudou, nada mais além foi. mas fê-lo: escreveu, saciou a vontade.

e as suas unhas, agora, nem menos uma lasca têm.

a vida é assim: uma tão redonda e vazia verdade perante, e após, o redondo e impetuoso vazio da vontade do medo. é assim, a vida, uma, não assim, tão grande surpresa.

a tesão nos dedos foi-se mas nem por isso se fez fenecer, nela, a tesão/comichão-dentro-da-cabeça que, uma vez mais: nela, a fez nascer.

e ela? ela pinta as unhas (porque não lhes quer dar o prazer de roídas serem).

depois de secas as unhas ainda escreveu, e assim findou a sua redacção,: "tenho muito que dizer e muito que de mim se diga".

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e pronto, já redigi! (ainda bem que odeio unhas)

estas redacções só me devolvem uma certeza: bem ou mal, eu escrevo como respiro.

é pena não ter aprendido ainda a minha necessidade de escrever (e talvez nem mesmo de respirar). mas estou atento a isso, valha-me isso (sim, eu posso repetir vocábulos na mesma frase. não é a respiração toda uma redundância?).

percebi agora o meu problema: APNEIA!

Friday, February 19, 2010

função

um diário é um diário, por mais público que seja. é o a bordo de nós, com tudo o que somos. e somos complexos e ziguezagueantes.

afinal não vou morrer hoje. "i guess i'll die another day".

até porque hoje vai ser um dia diferente, tudo indica. tenho de ir, esperam-me. diferente...

a verdade

eu queria tanto escrever sobre tanta coisa, tenho tanto sobre que escrever.

quem me dera ser sóbrio, there.

estou a morrer, sabias?

não vou aguentar mais.

cada palavra é um... rasgo em mim. estou a morrer.

eu vou morrer tarda pouco.

não tenho pena. já não tenho. estou muito ébrio...

custa-me tudo.

no funfo, e custa-me tanto... escrever... quero que se foda.

ainda me dou ao trabalho de corrigir (tudo o que escrevi antes estava com gralhas).

acho que vou morrer hoje, sonhei com isso...

comecei a chorar agora.


a minha password é: lechambredonan

publiquem-me, se quiserem, nos meus documentos está lá tudo. missile é a palavra-passe para o meu computador. tudo o que escrevi é vosso- do mundo.


queimem-me. quero este corpo queimado, que tantas dores me deu.

odiarei não morrer hoje!

seja como for, fica aqui a minha vontade.


quero ser cremado e que as minhas cinzas sejam espalhadas na djma el fna!

quero que andem sobre mim.

quero dissolver-me ali.


eu já não estou aqui, mesmo.

Wednesday, February 17, 2010

Thursday, February 11, 2010

a sinestesia

sou capaz de passar horas a observar o meu gato; a vê-lo ser (gato e apenas ser).

isto recorda-me um livro que adoro: "the snail watcher and other stories" da patricia highsmith.

li-o pela primeira vez devia ter uns quinze anos e tenho por essa estória uma grande admiração.

perdi esse livro há mais de dez anos, ainda não o encontrei à venda. tenho saudades de o ler. a memória que tenho da estória começa a ficar difusa e estilhaçada; e isso não pode acontecer.

lembro-me de pensar que queria vir a fazer algo, algum dia, baseado nesse estranho homem que empreendia o seu tempo, atenção e vida a observar caracóis. sempre vi teatro nessa curiosa personagem; cinema também, também há nele cinema.

lembrei-me disso agora, ao observar enternecidamente o meu desastrado, curioso e inocente gato.

está aqui, agora, diante dos meus pés, por baixo da secretária, enquanto escrevo. eu acho que ele gosta de me ouvir escrever. que belo entendimento este, e que sorte: gostar de observá-lo gostar de me ouvir escrever. creio que o vice-versa também se verifica.

Friday, February 05, 2010

once again

querido diário:

ao passear por ti, dou comigo a pensar sobre algo que escrevi há tempos. uma citação:

"it's so hard to find someone to admire"

e volto a sentir isso, é verdade, há anos que ando com esta frase na cabeça.

porque, efectivamente, há anos que não tenho quem admirar. quem me seja perto e admirável (um mundo novo).

gostava de não me resignar nesta matéria, na verdade.

confissão

eu, no fundo, sei que sou muito maior do que aquilo que me sei e acho.

eu, no fundo, sei que muito pouco me chega aos pés.

eu, no fundo, sei que sou o luxo de me (des)ser.

mas eu sou-me...

mesmo que ao me não ser brincando eu sei o que isso vale.

eu sei que tenho de me fazer ser e valer.

eu sei o que sou.

e eu sei que já chega de me brincar.

nenhum remédio me resta senão ser-me (a sério).

eu nunca me minto, nunca...

eu sou-me assim (doa(-te) a quem doer(-nos)).

alturas

querido e amadísimo diário:

há alturas na vida em que tens de responder a questões.

a vida, in its sort of very "twisted" ways, encarrega-se de te as apresentar (às questões) muito clara e firmemente.

e tu, nessa altura, nada mais tens de fazer senão dizer a coisa que mais imediatamente te ocorre.

e se for: "i just don't know", que seja.

porque há alturas na vida, querido diário, em que tu (por mais que aches que tens todas as respostas na ponta da língua) simplesmente não sabes o que hás-de responder.

e cremos nós, multitude de seres/opiniões/sensações/sentimentos que em ti operam, que a verdade é sempre o melhor caminho.

e: "i just don't know" é a única e possível via.

e isso, mais do que deixar tudo fechado, deixa tudo, em, aberto.

e agora vou dormir...

sabes lá o que é dormir quando tens dúvidas nas pálpebras...

a vida ensina-te a adormecer... e eu ainda não percebi o que isso vale...

mas adormeço e acordo todos os dias... desde.

Thursday, February 04, 2010

errata

onan foi impreciso e, hoje, apercebeu-se disso.

onde abaixo de lê: nine
deve ler-se: eight

mas, anyway, tanto faz (a merda é (foi/era) a mesma).

freud que explique (uma vez que onan não está para isso).

onan, contudo, abomina imprecisões é apenas apologista da reposição da verdade dos factos.

Monday, February 01, 2010

um haiku

a gata dorme ao sol,
no parapeito da janela
uma formiga trepa-lhe a pata.


conseguir compor um haiku é das sensações mais plenas que posso ter. já ganhei o dia.

Thursday, January 21, 2010

onan encheu o saco

nine

nine months today
sometimes it feels like ages ago
sometimes
it feels just like yesterday.


i wonder: what could this mean?

Thursday, January 14, 2010

acertar

há precisamente três anos atrás estava a caminho da índia. há precisamente dois anos atrás estava a começar os ensaios do "apenas jardim". há precisamente um ano atrás estava a viver coisas que não são fáceis nem benéficas de recordar e que são o oposto do que quero na minha vida.
espero daqui a um ano poder dizer: há um ano atrás acabava de participar, mesmo que fugazmente, num filme do raul ruiz e começava a acertar-me para poder vir parar ao bom sítio onde hoje estou.

o tempo muda tudo, tudo!

Wednesday, January 13, 2010

a dúvida

agora fiquei por momentos sem conseguir lembrar-me se já dormi com alguém este ano. mas, pensando um pouco mais profundamente, cheguei à resposta...

uma espécie de bloco de notas

amicíssimo diário:

volto a acordar às seis da manhã. começa a agradar-me esta tendência. acordo com energia, vontade de me agilizar e relativa boa disposição. hoje é particularmente benéfico porque terei de estar no décor dentro de uma hora (vou participar no filme que o Raul Ruiz está a rodar cá). assim, ao contrário de anteriores experiências cinematográficas, em que ia de directa filmar porque tinha de estar nos décores muito cedo e isso ia totalmente contra os meus ciclos de sono, desta vez vou matutino mas bem dormido (curiosamente, seis horas de sono parecem ser-me suficientes ultimamente).

mas vim ter contigo por outros motivos.

vou usar-te como bloco de notas.

anotarei em ti dados do sonho que tive hoje e que quero registar porque me parecem bons para uma futura redacção.

  • 12 bombons
  • no dia do aniversário
  • um por mês (sempre no mesmo dia)
  • redondos e toscos
  • vêm colados uns aos outros (mosaico)
  • oferecidos
  • trazem o que não se sabe
  • não se partilha
  • nada se partilha
  • não se sabe a origem
  • alguém desrespeita
  • o que acontece?
agora vou.

Tuesday, January 12, 2010

o império do sim e não querer ou a Febre (a parturiente do não encontro)

agora mantenhamos a atenção demoradamente fixada no líquido que, sobre a carne, se dá, enquanto se nega ao jarro que por mais de um milénio lhe serviu de albergue, ao luxo de ser entornado. vejamos a forma como embate no chão, como salpica as ervas, como ensopa os cabelos e as roupas desta desgraçada; como escorre, qual viril e menino veneno, rua fora e como, se comandado fora por um cio maior, um cio primeiro e primário, ao mar se entrega tão sem qualquer tipo de atrito ou, até mesmo, reserva.
corramos, então, até lá, irmãos; e deixemos que este dia fique gravado na memória desta paisagem cujo nome, idade e exacta localização tanto nos temos esforçado por desconhecer. dispamos nossos trajes e ofereçamo-los, sem qualquer tipo de resistência, a este bravio fogo que aqui, no preciso início do oposto da preia-mar, estas crianças famintas e loucas, ferozes como bestas, há mais de vinte luas, atiçam com a própria resina e urina.
que sejam nossas sedas e brocados (tantas vezes usados para compactar até ao fim dos tempos o colectivo das nossas epístolas), que sejam, irmãos, pelas chamas, de uma vez, devorados. e que assim: nus, escalvados e tresloucados nos entreguemos a estas águas e que com a força do princípio do sexo demos o apogeu a esta encénia.

foram estas as últimas palavras proferidas pela Voz Primordial aquando da criação da Febre. depois restou o silêncio e a imperiosidade da possibilidade. um silêncio maciço e abrupto, um silêncio desconhecido, de tão antigo; o silêncio que habita o sangue mas não a boca. e a Febre instaurou, assim, o seu infidável e metástico império: o império do sim e não querer; o império do não encontro.

Monday, December 14, 2009

quão diferentemente poderão estes dias igualmente ser?

meu tão estimadíssimo diário:

comecei este post (e odeio referir-me a cada redacção que em ti faço como post porque para mim tu nunca foste um blog mas, efectivamente, o meu diário, o meu espaço íntimo de exposição e reflexão; és público porque quero mas isso em nada diminui a tua propriedade. és o meu diário, pronto, és); comecei este relato (esqueçamos definitivamente o estigma do post) ao dar-lhe um título. dei-lhe o nome de: "quão diferentemente poderão estes dias igualmente ser? ". normalmente, quando em ti uma redacção realizo, o título da mesma (porque esta coisa de ter um diário público nesta forma, o blog, a isso obriga) essa é a última operação que concretizo. hoje foi diferente; está a ser diferente. primeiro veio o título e após o mesmo o corpo da composição. estamos, portanto, nessa matéria, esclarecidos. e que a redacção, assim, prossiga.

"quão diferentemente poderão estes dias igualmente ser?": este é o título desta redacção e do livro de poesia, ou prosa poética, que hoje, bem cedo, às primeira horas do dia, me decidi começar a escrever. o título diz tudo. diz o que aqui está, o que aqui tem estado. ando a dever-te um relato há semanas, disponho-me agora a fazê-lo (tentar, pelo menos).

o primeiro poema/composição do dito livro chamar-se-á "a ferida". ainda o estou a escrever; comecei por o fazer em inglês, simultaneamente a toda esta iniciativa, e ainda nem bem sei o que começou primeiro: o livro (a ideia do livro) ou o poema (que ainda nem bem sei se chegará a ser poema ou outro tipo de corpo de composição). em todo o caso, começou assim:

your wound is as big as you are
it fits you well
like a glove
that is why you are not allowed to let it go.

na minha cabeça abriu-se imediatamente um link e este corpo de palavras estaria/está destinado a ser usado como poema para uma futura canção. mas, conforme fui nele, corpo de palavras, mergulhando foi-se abrindo um outro link e eis que esse corpo de palavras em inglês em português se passa a acontecer. neste momento é assim:

a tua ferida tem o tamanho do teu próprio tamanho
a tua ferida é-te e fica-te bem, serve-te,
como uma luva, veste-te e
é por isso que dela não te podes livre ver e ela de ti demitir-se não consegue.
a tua ferida (e a partir de agora vou começar a escrever o resto automaticamente, porque o que escreverei a seguir ainda não existe e porque em ti, estimadíssimo diário, em tempo real me disponho a compor)
a tua ferida está aberta como aberto tu para o mundo estás
e como aberta se quer a tua boca
ao mundo
para que ele nela saia (sobressaia)
e para dentro dela ele entre: para mundo se sentir
a tua ferida tem do seu lado o direito, e o avesso, de se sentir ferida
a tua ferida fala por si própria, não fora ela boca, não fora o mundo mundo e não foras tu o pano e o fundo onde ela se permite ferida ser.
a tua ferida é do tamanho do teu próprio tamanho
é uma ferida matreira, é uma ferida certeira, é um ferida inteira: é uma ferida ferida.
não há água que a lave, saliva que a sare, não há cães que te socorram, não há farmácias que, noite dentro, te abasteçam, não há cura que silêncio traga a essa ferida que não se cala.
esse silêncio, o doce silêncio que sossega a dor, esse silêncio, o silêncio que quem já se cortou conhece; esse silêncio aqui não há.
o silêncio das células que se unem, se reunem, que para um novo amanhã trabalham, que lutam, que pontes fazem para que uma ferida não pemaneça.
não, na tua ferida esse silêncio não existe. não quer vir; é um silêncio que se nega. existe, sim, existe, mas nega-se: porque a tua ferida compõe, hoje e sempre, uma muito mais interessante sinfonia.

não vou, sequer, por agora reler o que escrevi; não vou rever, não vou mexer-lhe. vou deixar que cresça. ainda está longe de maduro ser. ainda está no começo.

percebi agora, querido e estimadíssimo diário, onde podem estes dias mais diferentemente igualmente ser: aqui, no que é meu, no que domino, no que criei. os meus dias podem ser igualmente diferentes em mim e naquilo a que me dei ao trabalho de produzir. os meus dias poderão diferentemente igualmente ser naquilo que em mim tenho. porque o que interessa é: o que somos mudar sempre sendo; nunca deixando de ser.

e ainda nem um décimo do que queria te disse. passarei a dizer-te e, talvez, aí poderão os meus dias começar a desenhar-se de uma diferente forma.

e eu ainda nem comecei a falar(-te) da minha ferida. a que, por agora escrevo, é uma ferida consensual. é a ferida ferida, é a ferida dos outros ou a que, incondicionalmente, todos temos.

contarei sempre contigo porque tu és a escrita e a escrita é o que de diferente eu tenho em dias tão iguais, no meio de tão iguais seres.