Friday, October 09, 2009

estado de graça


ainda estou, e certamente ficarei, em estado de graça pelo concerto da jane birkin ontem. só me ocorre uma palavra: privilégio. há artistas assim, cuja arte é um privilégio. sinto-me privilegiado por ter passado pela experiência de ontem. quando confrontados com a superioriade, a beleza pura e o bem, desta forma, é que nos apercebemos que perdemos demasiado tempo com coisas tão rasteiras, ínfimas e mediocres...
a jane birkin tem a graça dos grandes, dos iluminados e, já agora, a combinação paradoxal, e superior, entre uma fragilidade desconcertante e uma fúria tácita, atávica, guerreira, maior: invisível mas inquestionável, certa. e toda ela é luz e sombra, toda ela é humana; tão superiormente humana; faz chorar a sorrir e sorrir a chorar.


À LA GRÂCE DE TOI

Pourquoi la grâce de toi
Me frappe, ensommeillée ce soir ?
Ton visage avec les yeux clos
Me rappelle toi dans mes bras

Pourquoi je te vois courir
Comme au ralenti
Et les rires ont un écho
Des plages de l'oubli ?

Pourquoi mes mains tremblent
Pour caresser une fois encore
Et comprendre la beauté
De cette complexité du corps ?

Trop faible pour nager
Au contre-courant, la
Vie envoie des vagues
Imprévues de mélancolie

Bafouée, ballotée, te voilà
Blottie comme les marins
Qui repèrent dans une
Tempête l'abri

Je bénis les dieux, en qui
Je ne croyais plus, de m'avoir donné
Un enfant à garder
Une nuit

Pourquoi la grâce de toi
Me frappe, ensommeillée ce soir ?
Ton visage avec les yeux clos
Me rappelle toi dans mes bras

Pourquoi je te vois courir
Comme au ralenti
Et les rires ont un écho
D'une plage de l'oubli ?

Pourquoi mes mains tremblent
Pour caresser une fois encore
Et comprendre la beauté
De cette complexité du corps ?

Trop faible pour nager
À contre-courant, la
Vie envoie des vagues
Imprévues de mélancolie.

Thursday, October 08, 2009

uma musa

hoje vou, finalmente e pela primeira vez, ver ao vivo uma das mulheres que mais amo e admiro: JANE BIRKIN.

que nervos!!!

Tuesday, October 06, 2009

os desígnios da (não) querença

ao longo dos tempos, nunca consegui deixar de me sentir melancólico, frustrado até, por não querer aqueles que me querem. hoje em dia, ainda assim o é. alías, hoje tem sido assim o dia todo.
talvez seja frustrante não ter quem querer mesmo quando se é querido.
"it´s so hard to find someone to admire": não sei o que isso é, essa admiração, há anos, e receio não voltar a ter possilidade de o saber/sentir, na verdade.

a escrita

"keep writing forward!"

esta foi a frase que o mick gordon mais proferiu no workshop de escrita que frequentei no sábado e domingo no TNDM.

it has to pop up in my head a lot, too. and i have to do it: write forward.

um poema

ontem dormi muito. mas dormi aos bocados. numa das muitas vezes que acordei fi-lo porque me senti invadido por uma imagem: um homem, uma rua, a solidão de uma rua, as horas. ainda aqui está, a construção dessa imagem. que bom, ando, novamente, a escrever um poema!

Monday, October 05, 2009

random splinter

por não ser amargo,
dou-te cabeçadas no coração.

Sunday, September 27, 2009

the delay

caro diário, tenho de te avisar de uma coisa: o que em ti por vezes expresso é meramente residual e não é necessariamente representativo da minha actualidade. algumas vezes o que aqui concretizo é ao retardador. mas se o faço é porque há coisas que aqui têm de ficar, nem que seja para, minha, memória futura; para me lembrar de por onde devo, ou não devo, num futuro ir. para estar atento. e também, claro está, para me poder revisitar/remontar/ler. porque o tempo muda tudo, tudo!

a carta

a carta que eu te escrevi não é uma carta, é um assassinato, é uma guerrilha tectónica, é um pranto, uma larva, uma parte de mim que persiste e se esvai, uma mancha de crude, uma catarse ao contrário; nunca se escreveu (ao escrever-se vai). a carta que eu te escrevi brinca com o tempo; rasga-se a todo e qualquer momento, é o curso, o desalento, é o rigor que não tento, e tento, oh se tento, é a ferver, é cimento... é uma carta que não consigo, e não quero, eu não quero, escrever. não posso, eu não a posso, escrever. nasces-me e morres-me aos bocados, não há escrita, não há paisagem que persista, e possa ser bonita, não há mão, não há antemão. não tenho mão na carta. não tenho onde colocar isto e, se persisto, é porque, ao mesmo tempo, desisto. resta-me o consolo de saber que houve, eu sei que houve, aqui, ali, there, onde quer que seja, ou fosse, o desenho do amor. mas eu não não conheço a perspectiva e tu és, foste, serás, a teimosia da tela, folha, guardanapo em branco. e a escrita não acontece assim. não sei como se acontece; mas, sei que a escrita não se acontece assim. a escrita é o real, e frontal, sincero, confronto do atrito e da vida. a escrita é a nudez inscrita; no que fomos, seremos, somos. é o puro de nós, atroz, mas sempre com o grão da vontade/verdade na voz.

e a pura da vontade, a pura da verdade é: era só o que faltava que eu fosse escrever-te uma carta! não tens olhos para isso.

onan quotes

"as mentiras criam solidão".
anaïs nin, in "a casa do incesto"

criam mesmo, eu, pessoalmente, não sei o que isso significa, porque não minto, mas, simultaneamente, sei, porque sinto e já vi mentir. e eu sinto, eu ainda consigo descobrir em mim a capacidade de sentir. e tenho pena; tenho pena de quem mente. tenho pena de quem mentiu... porque quem mente ou sente nada ou, então, sente tudo (mal).

Saturday, September 26, 2009

silicon lady


we guys. esta fotografia foi tirada pelo diário de notícias no dia 05 de setembro, a propósito do nosso primeiro gig no soundscapes, e foi publicada na edição de 12 de setembro do mesmo jornal.

Friday, September 25, 2009

statement

time changes everything, everything!

Tuesday, September 22, 2009

Wednesday, September 16, 2009

snapshots agradáveis 3: a voz de onan









onan agradece a maria filomena oliveira a gentileza de ter capturado, editado e partilhado os snapshots, até agora, aqui publicados.

Sunday, September 13, 2009

o que consta hoje

o que onan promete, onan, cumpre.

aqui fica a citação proposta por onan, em "a voz de onan", como o que deve constar hoje neste diário:

“esta concepção da essência do repugnante como vida desregulada e rebelde a qualquer forma permite entender também o uso moral da palavra: com efeito é também repugnante a intrusão do imediatismo vital (como os impulsos e os interesses pessoais) em todas as questões que têm carácter objectivo e formal. repugnante é a mentira, porque está cheia de uma viscosidade vital e emocional, absurda e incongruente. repugnante é a impostura, quando oculta sob o manto do idealismo as afeições cúpidas e desordenadas do indivíduo. repugnante é ainda a cobardia, que consiste na intrusão de uma vitalidade malsã e mórbida em situações que exigem a defesa de uma escolha, o alcançar de um objectivo, a manutenção de uma decisão."
in, "a arte e a sua sombra", de mario perniola
onan cita e subscreve e ainda aconselha todo o artista(zinho) que por aí anda a ler com muita atenção esta obra. com muita, muita, muita atenção.

Saturday, September 12, 2009

achtung 4

TODAY, AT 11:50 P.M., ONAN WILL SPEAK.

("a voz de onan" irá ouvir-se na festa agradável: espaço ginjal, cacilhas a partir das 23h)

Wednesday, September 09, 2009

os contributos de onan (para a festa agradável)

contributo 1

a voz de onan:
os duplos não se fazem, os duplos acontecem. há sete anos aconteceu-me o duplo: onan. vai fazer em Novembro próximo cinco anos que lhe dei um espaço: http://odiariodeonan.blogspot.com. não sei se fui realmente eu quem lhe deu esse espaço ou se foi ele, o meu duplo, quem me deu essa oportunidade e o fez acontecer. os duplos fazem e acontecem. o meu duplo quer acontecer cada vez mais: quer apresentar-se before my eyes; eu também quero. quero vê-lo inteiro. mas antes será preciso ouvi-lo. ele pede-me, cordialmente, a voz e eu, de boa vontade, lha darei. os duplos não se fazem ouvir; acontecem e apoderam-se das palavras e da voz. somos nós quem tem de os saber ler e escutar; saber ceder-lhes toda e qualquer substância. não deixo, no entanto, de (pres)sentir que isto é ainda e apenas um começo. o desfecho é-me totalmente incógnito; assim como o é, seguramente, para o meu duplo.
uma ocorrência concebida por hugo amaro e ricardo batista
interpretação: hugo amaro e onan
vídeo: ricardo batista
adereços e figurinos: tânia franco

contributo 2
silicone lady:

a mais ilustre desconhecida banda portuguesa chamava-se: nude. há cerca de três anos extinguiu-se. agora, três dos seus sobreviventes criaram uma fénix de silicone e, num impulso harakiri, decidiram-se, com meia dúzia de ensaios, voltar a apresentar-se ao vivo (tais eram as ganas/saudades). revisitam-se temas inéditos extintos e versões muito estimadas, num outro prisma.

os lords da lady são:
filipe luig: teclados, guitarras
hugo amaro: voz
nuno varudo: teclados e programações

where and when onan will speak


Saturday, September 05, 2009

achtung 3

in a week onan will speak!

Monday, August 24, 2009

achtung 2

IN A FEW WEEKS, ONAN IS GOING TO SPEAK FOR THE FIRST TIME! ONAN'S VOICE IS ON ITS WAY.

Wednesday, August 19, 2009

a sorta rise and shine

onan acordou, ontem, a pensar que gostava realmente de ter pena dos fracos de espírito; mas não tem. tem antes uma vontade feroz de os degolar e, por outro lado, uma vontade indómita de se mandar trepanar quando se apercebe da quantidade de tempo que já devotou a algumas dessas criaturas. mas, meanwhile, relativiza-se a questão e arranja-se motivos para rir. porque há sempre, e cada vez mais, motivos para rir. onan ri-se e muito, sempre.
porque rir é um vício; e que merda de vício este!

Saturday, August 15, 2009

achtung

ONAN IS WATCHING YOU!

Sunday, August 09, 2009

telefone

onan, hoje, ficou a gostar mais do telefone. e de tudo o que ele implica. porque será? ah e ah.

Saturday, August 08, 2009

past participle

onan reads the signs,
under a sun that ocasionaly shines,
even read some strange lines,
and
the story never defines
underneath,
lies the fact that here he only finds sketches
never real and efective strength of character designs.

foi ver e era o past participle.

Thursday, August 06, 2009

o pião/peão

(uma pseudoincursão na forma aleixiana. recomenda-se que se leia em voz bem clara e alta, de modo recitativo e tosco; numa piscadela de olho constante à cantilena que a, possível, rima sugere e permite.)


o pião (ou peão, ambos servem, tanto faz) faz um desenho equilátero,
ata e desata nós no cordel
que nada mais é do que a narrativa
da sua atabalhoada fuçanguice, para ir parar longe: ao teatro.

mas, vai-se a ver, e é tudo por amor, tudo.


onan, claro está, aprecia o espectáculo, onaniza-se e, como sempre, ri-se (muito).

Saturday, August 01, 2009

o visitante

a pele que tinha, e pela qual se pelava, era a pele que a sua pele se pelava por tocar, ou que, até mesmo, tocava.
não tinha olhar e, por isso mesmo, os seus olhos nada mais viam do que o movimento dos olhos dos outros; via ver e assim se convencia de que era vidente.
falava não por ter um discurso mas por piamente acreditar que tinha realmente de, em determinado momento, proferir quando uns olhos nos seus se fix...

quero lá saber de náufragos se eu sou o antes, o durante, o depois das vagas, a voz inteira das marés e consciência pura do salitre enquanto namora as âncoras.

sou o mar; és apenas a vontade menina de nadar (sem sequer o saber aprender a fazer).

a tinta compadece-se sempre de quem nunca será um livro.

Friday, July 31, 2009

mon paradoxe

o grande paradoxo de onan: desprezar visceralmente o solipsismo!

Monday, July 20, 2009

a ausência do poema

o poema descolou-se-me das mãos e eu nem dei por isso. sumiu-se, perdeu-se, quase que me atrevo a dizer que se liquefez, fundindo-se com o nada. nada é o que fica. nada é o vazio das mãos e um poema que tanto se quis escrever mas cuja vontade nunca, simplesmente, nasceu. não sei o que hei-de pensar disto: o porquê da partida da poesia. não gosto da ausência dos poemas, já é quase longa e não consigo habituar-me a ela. a verdade é que, por mesmo pouco que tenha tentado, há, quase, muito que não me semeiam poemas. sinto-me, francamente, mais pobre por isso; porque eu não sei não, ter de, escrever poemas.
cito-me (um poema com quase dez anos)
musa azulada querem teus pés esmagar os olhos do homem que espera
musa poeirenta entortas os olhos, falas sozinha e embebedas a pêra
musa cansada, cadelas com cio tricotam-me o manto com pêlo de fera
musa birrenta vem nestas noites roubar o poeta ao seu quarto de cera
eu quero (preciso), talvez, uma musa azul (ou pelo menos azulada), talvez como eu.

Thursday, July 09, 2009

tlinta e tlês

faz hoje às 23:05h 33 anos que onan veio ao mundo.

Thursday, January 15, 2009

os filhos de hédon (work in progress: actualizado a 08/04)

15/01
quem visita Hédon não visita um planeta, um continente, um país, uma cidade, uma vila, uma aldeia, um lugar, uma rua, uma casa, uma porta. quem visita Hédon visita a energia de um coração extensível, cuja dimensão pode oscilar entre uma mera partícula e toda a incógnita capacidade espacial do universo. quem visita Hédon pode estar a visitar-se.
sabemos que Hédon é habitado e que ocupa espaço mas não sabemos, prezado leitor, as suas reais e potenciais proporções. muito menos sabemos nós, legião mais ou menos intrépida de narradores, a data precisa da sua fundação. alguns de nós estão convictos de que Hédon não teve início e que jamais terá, porventura, um fim. outros de nós há, talvez mais evoluídos ou que sustentam a vontade de o ser, que suspeitam de que Hédon tem uma existência intermitente e que tenderá a desaparecer. esses, os supostamente mais evoluídos ou que sustentam a vontade de o ser, defendem que a extinção de Hédon se processará mediante a descoberta de uma cura porque, asseveram eles, Hédon é uma doença.
Hédon, como qualquer outra entidade espacial, tem uma dinâmica própria; é habitado. e, assim sendo, todos os dias em Hédon se registam nascimentos, uniões, desuniões e mortes. há quem nasça e morra em Hédon, há quem nunca lá viva, há quem apenas lá se una, ou desuna, e há quem apenas lá vá morrer. há, contudo, em Hédon, uma presença forte da hereditariedade.
há uma palavra, um código, uma téssera que permite a entrada, permanência e saída de Hédon. essa senha é igual para todos e não precisa de ser pronunciada. é uma senha sentida e chama-se: Amor.

os dias em Hédon são, por norma, agitados e intensos; são dias ansiosos. aliás, o ar que se respira em Hédon apresenta, na sua mais profunda composição, altas concentrações de ansiedade e, a existência e livre circulação desse mesmo elemento, é uma das razões porque viver em Hédon, mais do que uma imperativa condição, é um vício.

estamos nós, legião mais ou menos intrépida de narradores, certos, prezado leitor (e assumiremos o leitor como uma legião mais ou menos intrépida de seres que amam, uma massa plural e abstracta, o mundo), de que muitos de vós em Hédon se encontram viciados.

o vício começa muito cedo; começa, muitas vezes, com o início da vida e é transmitido aos recém-chegados ao mundo pelas suas próprias mães. recorde-se, prezado leitor, de que a questão da hereditariedade já foi por nós, legião mais ou menos intrépida de narradores, anteriormente enunciada.

essa questão fica, por ora, adiada; a sua peremptória e assertiva dissecação só poderá ocorrer mediante um concílio dentro da nossa própria legião e após selada a conclusão sobre a polémica questão:
é ou não Hédon, além de um vício, uma doença?

27/01

falemos, então e agora, das noites em Hédon. quando do céu o sol se evade e sua ausência num dinâmico manto, a o seu próprio ritmo e vontade, da cor do sempre o firmamento torna, começa em Hédon a sentir-se o efeito dessa operação. os sangues começam a apressar-se e existem zonas nos corpos que, quais magnetes transcendentais, imprimem à circulação do fluxo dessas substâncias, que, caso possam ser degustadas, das mesmas se dirá estarem carregadas de diversas e aleatórias ligas de diversos e aleatórios metais, uma velocidade por todos conhecida ou, pelo menos, sentida mas por nenhuns successfully explicada.

01/02

as noites em Hédon não são apenas o fruto da voz e da fúria do sangue; são o dentro, o interior absoluto do sangue em si mesmo.

17/02

pedimos ao prezado leitor que, caso a sua paciência demonstre a vontade de fraquejar, se retraia e tente ultrapassar o facto de o nosso relato se revelar ziguezagueante. a hesitação faz parte de Hédon e a verdade é que, uma vez mais, deixaremos em suspenso a descrição de uma das suas faces para, em seu lugar, aprofundar a dissecação de outra. nesse sentido, deixemos a noite por exaurir, numa outra ocasião, e passemos à caracterização, o mais afincada possível, do dia.

o dia em Hédon nasce muitas vezes.

08/04

não será certo, ou recomendável, adiantar a quantidade de vezes que o dia em Hédon nasce. porque em Hédon o dia não se afirma como um todo; é uma entidade plurimórfica, mutante e altamente contraditória. o dia desfaz-se, refaz-se e contrafaz-se; e todos esses processos em nada são previsíveis, sistemáticos ou classificáveis. muito menos possível é, prezado leitor, assinalar as causas que esses fenómenos vêm determinar. apenas os efeitos são detectáveis e sobre eles, por falta de vontade de o fazer mais tardiamente, focaremos agora a nossa narração.

há três espécies de efeitos que o dia em Hédon provoca:

1- a presença presente

2- a presença ausente

3- a fuga

1: a presença presente é um efeito imediatamente detectável, não somente pela força da redundância mas, sobretudo, pela força da relação dialéctica entre aquilo que o dia emana/produz, a cogitação sobre essa produção e o discurso sobre essa cogitação (em análise última, sempre sobre a emanação/produção per si; sendo esta a única parcela que comporta irrefutável factualidade). quando a presença é presente está constantemente a tentar estabelecer pontes, mais ou menos sólidas e bem fundamentadas, com a emanação/produção dos dias, a sua verdadeira verdade , o que a precedeu, a sua presente configuração e sobre o que a fará perdurar ou não (o teste tende a ser permanente). a presença presente tem como máximas intenções o aprisionamento do tempo e a certeza (no fundo ansiedade) da solidez do espaço. a presença presente é hipercinética, altamente analítica, voraz, dinamizadora, eufórica, ferozmente ligada à ideia de verdade, instável, combativa, intensa, séria, convicta da sua própria clareza, arrebatada, amante, sedenta de espelhamento, de empatia, de entrega, de certezas, de profundidade, de perenidade, de inteligibilidade, de entendimento, de discurso, de amor; no fundo, sendenta de presença. é esta presença que faz com que o amor seja a matéria transversal da arte, porque é ela, a presença presente, apesar de tudo e por amor, a própria vontade da arte.

(a desenvolver posteriormente)

2: a presença ausente é, com efeito, um efeito cuja dificuldade na sua detecção se alimenta a si mesma. a presença ausente nunca deixa de ser presente mas essa presença não é imediatamente classificável; usa o tempo e o espaço de uma forma que é irregular e que está em permamente digestão desse mesmo uso. pode dizer-se que, com frequência, ao caminhar sobre a areia, esta presença, nesta não deixa as suas pegadas; isto porque o que para si assume é que se encontra a caminhar sobre água.



Monday, December 15, 2008

quatro anos

querido diário:

este ano o teu autor foi, uma vez mais, uma besta desnaturada. fizeste quatro anos de existência no dia 08 de novembro e ainda não te congratulei. devo confessar-te que me apercebi disso há umas duas ou três semanas mas a preguiça e a tormenta emocional foram o principal impedimento desta iniciativa. mas, tu sabes, sou particularmente negligente nesta coisa das datas, até hoje não sei a data do aniversário do meu pai; mas isso é um fenómeno mais complexo que a mera negligência. será, concerteza, um índice mais do foro endógeno, que a psicanálise conseguirá descortinar. adiante, não farei promessas de te compensar imensamente pela minha falta, nem irei desfazer-me em lamentos e desculpas. as coisas surgem no tempo em que têm de surgir. esta iniciativa surgiu agora e fi-la com a melhor das vontades. dá-te por contente por isso.
asseguro-te, no entanto, que gostaria de te fazer crescer mais, de te dar volume, substância, matéria. não prometo fazê-lo, prometo trabalhar essa vontade.
os meus parabéns.
prometo-te uma coisa, quando fizeres cinco anos terás direito a uma grande festa de aniversário. com balões, confétis, dj set, bolo, velas e tudo. tudo menos palhaços profissionais, odeio palhaços profissionais. faremos nós a palhaçada, como sempre, como bons palhaços amadores que somos.
ah, e faremos um brinde.

Friday, October 31, 2008

a draft (i do not know where it goes)

pôs-se assim, repleto de vontade de ter uma vontade, a redesenhar sobre aquele dia todos os seus relativamente recentes dias. decidiu que o melhor a fazer seria sorrir. e assim o fez: sorriu. se a cena fosse observada, coisa que, garantidamente, não foi, poderia dizer-se que o sorriso obtido, e no seu rosto posto e plantado, o sorriso possível, não era mais do que um sorriso invertido, possivelmente construído pelo avesso, um sorriso ao contrário. era, na verdade, o negativo de um sorriso. mas isso em nada o deteve. prosseguiu o redesenho e afincou a vontade de, sobre aquele mesmo e infeliz dia, reviver todos os dias predecessores.
fechou a luz. abriu a janela do quarto; chovia mas a noite não estava, no entanto, fria ou feroz. com um veloz mas ligeiro beliscão fez a gata miar. o animal saltou imediatamente de cima da cama para aterrar, sem graça, no tapete. ele despiu-se, então, e seguidamente bebeu dois goles da água que jazia há mais de duas semanas no copo deixado ao abandono em cima da mesa-de-cabeceira. soube-lhe mal, a pó. precipitou-se para a janela e cuspiu o líquido para a rua. o som do seu projéctil, ao embater no capot do carro estacionado por debaixo do parapeito, dissolveu-se na sinfonia caótica e cacofónica que a chuva protagonizava na rua. esfregou as mãos pelo corpo nu, sobretudo pelas coxas, para que, em virtude da inevitabilidade de um rápido e inesperado arrepio, pudesse ter a oprtunidade de voltar a aquecer ambas: ambas as mãos e ambas as coxas. deitou-se, voltou a construir o sorriso possível e começou o redesenho.

o redesenho tinha a sua dificuldade. era complexo, rígido, àspero, estava carregado de atrito.

Tuesday, September 16, 2008

o amor que existe

o meu amor tem lábios de silêncio
e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina

o meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito

o meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura

o meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes, ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe

"o meu amor existe", jorge palma

tenho andado o dia todo com esta canção na cabeça; canção essa que amo.
hoje acordei super enjoado, deve ser do antibiótico. tenho estado meio touchy, sobretudo fisicamente. mas uma coisa assiste-me: o imenso amor que tenho por ti e a certeza de que o nosso amor existe (oh, se existe). quero ouvir esta canção contigo, já na caminha, muito cansadinhos, depois de lermos Platão.
VIVA O PLATÂO.
it's all about Plato (you wrote);
it's all about love (i feel)
it's all about us and for the good of us (we know).
tens tantos felizes contigo!!!

Saturday, August 02, 2008

o coração

querido diário:

sei que tenho estado ausente, as minhas desculpas, mas se isso tem acontecido é porque tenho estado a viver.
normalmente, em anteriores ocasiões, quando o meu coração "embicava" para alguma direcção não era raro que os meus desabafos passionais fossem feitos contigo.
desta vez, o meu coração não está apenas "embicado", o meu coração está tomado, bem tomado, bem cuidado, bem tratado, bem amado. é por isso que tenho poucas confissões a fazer, faço-as ao meu amor; prefiro assim.

i've been away because my heart is full of love!

Saturday, July 19, 2008

blame canada 7

blame canada is, at last, over.

voltaste!!!

ainda não consegui, nem de perto, nem de longe, aniquilar a saudade.

mon amour,
l'aventure (re)commence.


Tuesday, July 15, 2008

blame canada- 6

final countdown: 3 days!!!

no entanto,

"a saudade é uma espera
é uma aflição
se é primavera
é um fim de outono
um tempo morno
é quase verão
em pleno inverno
é um abandono"
in, "porque não me vês", de fausto

it feels good to feel feelings for you! (would sound nice in one of our songs, no?)

Sunday, July 13, 2008

blame canada- 5

i'm googling amy's lyrics big time.
i loved her before you came into my life. i loved her, big time, for a while. but i never quite had the chance to really get focused on her words. and now, as i remind you, as i remind us in your car (as we cross the city), as i remind our love, i am forced, in a sweet way, to really get deep into her words. and, fuck, she is powerfull as i never thought she could be. she is quite a supreme writer. i'm really into her, into her words, into her writing. fuck... the girl is really awesome. you know i have a certain reservation about all that is concerning to her right now. you know i find it desgusting, i find it vampiresque, filthy, heartless. you know it shocks me to see a person, an artist, dying before everybody's eyes without any kind of sense of responsibility from world wide, youtube, media freak watchers. you know it pisses me off: all this live fast and die young, netcast, broadcast, alive, shit. so i quite gave up on her. but now, your love/mylove/our love made me come into her again. and i almost feel every fucking word she writes/sings. i feel so close to it. and this sense of closeness brings me back to us.
i'm eager for you to come back and translate me every single word of her. i'm eager for us to sing it loud in your car, the same words, the same amy, the same songs that make part of our path together.
in the end, i'm eager for you and i love you for all these things that i feel, for all these this that are happening to us. i'm eager for our togetherness.
i love you for who you are. "my fellow, my guy" and "they can't take that away from me".
i love you and "I MISS YOU LIKE THE DESERTS MISS THE RAIN".

Friday, July 11, 2008

blame canada- 4

final countdown.

in a week we will, finally, be in each other's arms!


"into my arms", by nick cave

I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore

Into my arms, O Lord

Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms

Wednesday, July 09, 2008

09 de julho


+
32
+


=
happy birthday to me!

Monday, July 07, 2008

blame canada- 3

"you give me fever"

this is what i feel and it tastes good to feel what other people wrote.

flowers in the window (by travis)

When I first held you I was cold
A melting snowman I was told
But there was no one there to hold
Before I swore that I would be alone forever more

Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow

There is no reason to feel bad
But there are many seasons to feel glad, sad, mad
It's just a bunch of feelings that we have
To hold
But I am here to help you with the load

Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow

So now we're here and now is fine
So far away from there and there is time, time, time
To plant new seeds and watch them grow
So there'll be flowers in the window when we go

Wow look at us now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow

Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, up in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow

Let's watch the flowers grow!


tum tum, tum tum, tum tum
("you know i feel it in my heartbeat...
wich makes me feel like the only one,
the only one,
that the light shines on")

Wednesday, July 02, 2008

blame canada- 2

i've been down there, really there
where i guess you wish me not-
been down there, really there,
you can bet i'm not a slut

been down there, really there,
just to make myself alive,
there, really there,
without you i can't survive

been down there, really there,
oh, such cute boys,
been down there, really there,
look at them and i see: toys

been down there, really there,
and i walk with no regret
been down there, really there,
what i've waisted i'll forget

been down there, really there,
and always think of you
so much faster, so much better, perfect,
you'll never sever , i wont do that too.

esta rima é pobre, fraca, despropositada. não está à tua altura. i'm drunk, really drunk, so much drunk. tu, meu querido e defendido amor, não mereces que eu te conspurque com esta leitura/redacção. mas eu vou fazê-lo. tenho de fazê-lo, não posso deixar de fazê-lo. estive no antro, naquele antro de que já algumas vezes te falei. não me arrependo, de todo, estive lá e gostei. nada me tocou, nada me moveu, realmente cá dentro, nada me abalou, nada. estive, vi, fui visto, falei, deixei falar e vim... vim para ti... expressamente para ti.
vim para te encontrar, no simples acto de te escrever. vim para ti. regressei-te, no simples acto de me recolher. porque recolher-me, sem ti, já não é o mesmo verbo. vim morar aqui, onde quero que tu mores, tu ouças, tu chores. vim adormecer na dor, calma e, ainda amena, certeza de não te ter. vim pensar em ti. i've been down there e tu nunca me saíste da cabeça. não houve, sequer, um segundo de hesitação. sou teu e tudo o resto é um espectáculo, uma parefernália, uma triste exibição,


bem, fiz aqui uma pausa de mais de dez minutos. borrifei-me para a anterior composição. fodi-me todo, esta noite, porque assim o decidi. fodi-me, tomei essa decisão, enquanto via e escutava, com miguel, pedro, mari, a rita lee. fizeste-me falta ali. pensei, durante o concerto, tanto em ti. faria todo o sentido ter-te ali. estiveste. hei-de contar-te. miss you so much. vou dormir. tu, estiveste ali. é isso que é maravilhoso no amor: faz alguém estar onde nunca sonha estar. decerto, estou onde não estou. eu sei disso. e tu, só tu, estás aqui.

beijo-te a amo-te como só eu sei (eu sei).

i miss our waking up.

you are my fellow and, you know, my guy.

(escrevo-te aqui porque este, aqui, sou, realmente, eu.)


"fique bem,

fique forte.

não temos tempo

para temer a morte"

rita lee, in pic-nic

Monday, June 30, 2008

blame canada - 1

bébé do amor:
quero escrever mas estou sem palavras para expressar a alegria que a tua missiva me deu. tu és do caralho, tens estado e estás, efectivamente, there quando eu preciso. e eu precisava, precisava de te sentir. a ideia de vir agora para casa, depois de ter funiculado, de ter de me render às tristes evidências, que tenho pouco mais de 24 horas para escrever uma coisa que sonho e quero há muito concretizar, e de não te ter, fisicamente, aqui, aterrorizava-me. mas vim. vim porque ainda quero tentar, ser capaz, conseguir. vim por mim, por ti, por nós. e ter chegado a casa e ter percebido que tiveste a, tão querida, preocupação de me deixares umas palavras tuas para me receber simplesmente comoveu-me como não podes imaginar. eu, que só penso em ti, falo em ti, estou 100% focado em ti/nós, derreti-me. isto é muito bonito, muito. eu estou pasmado connosco, com a nossa envolvência, sintonia, afinidade, relação. estou pasmado com a verdade disto tudo. eu já pouco acreditava na possibilidade de ser feliz com outra pessoa, na capacidade de me entregar, de receber, de dar, de viver o tempo a dois e estas últimas semanas têm sido uma chapada de luvinha branca nessa niilista crença. tu, eu, nós temos provado que our hearts are alive and kicking, que dar e receber é bom (é o melhor), que vale a pena esperar. we came a long way, you said so. lembras-te? we did, in fact, but we did for good. o que me pasma mais no meio disto tudo e que por vezes, quando a minha twisted, insecure, suspicious mind faz das suas, me aterroriza é a naturalidade, fluidez, facilidade disto tudo. tudo entre nós tem parecido ser afim e simples, descomplicado, sintoma da verdade e da vontade e isso, por vezes, assusta. but i'm going to let my twisted mind go to hell and enjoy this/us 'till the last minute.
you wrote: espera por mim, eu volto para ti.
i wrote: por ti esperaria a vida inteira (ou toda, não me lembro precisamente).
i feel now: this is so right. we deserve it, we are this. we are together. and this is what i live for: being there for. and being there for us seems such a quite good task. it feels so right, true, NATURAL.

i'll wait for you always (how can't i?)
with love,
onan
p.s.: tenciono publicar esta missiva no meu diário como o primeiro "blame canada". só o farei, no entanto, se tu o autorizares. espero, então, a tua aprovação/repovação. é que já é altura de nos registar no meu diário que, como sabes, é o registo mais íntimo e verdadeiro dos meus dias. you wanted to be there, didn't you? so it will be.
mon amour, l'aventure commence (adoro esta frase; sei que é dita num filme, que adoro esse segmento mas não me recordo do filme, apenas a frase. já estive para te perguntar se sabes de onde é mas, por esquecimento, nunca o fiz).
anyway, a aventura já começou, a 16 de maio de 2008 e tenho amado cada segundo.
kiss you there, although i blame canada.
p.s. 2: leia a segunda frase da missiva (onde refiro que não tenho palavras) e após lida toda a dita (a missiva) veja, afinal, a veracidade da afirmação.
sou mesmo verborreico (blame me). mas tu gostas, right?
you give me... (yup) FEVER!
.........................................................................................................................
a aprovação foi dada, a cópia da missiva publicada, a saudade cresce. blame canada (just for the fun of blaming it).

Thursday, May 15, 2008

poor misguided fool

a dor existe, está aqui, é real, quase palpável, quase visível, quase fatal. é incómoda; é dor.
frustra-me a incapacidade. frustram-me as minhas incapacidades e penso nelas; concretizo-as. frustra-me a incapacidade de vir um dia a sentir certas coisas; coisas que gostaria de vir a sentir. não, não falo de amor; não me refiro à paíxão, ao encantamento, ao arrebatamento, ao desassossego passional. refiro-me a coisas maiores, muito maiores; coisas realmente importantes.
frustra-me a incapacidade de vir a sentir um dia, por mais dias que ainda possa vir a viver, ou não, estou pouco certo da minha própria capacidade de me prolongar; frustra-me a incapacidade, tácita, efectiva, inevitável, de vir a sentir coisas tão importantes como:
  • a frescura de um jacto de água que me venha, realmente, refrescar o cérebro (tão despido, tão sem qualquer tipo de revestimento, tão escancarado, tão prostrado a este céu; tão poucas vezes aberto).
  • o interior absoluto da parede que separa, há longos e longos anos, a minha casa do precipício, feroz/delicioso, que é a rua.
  • o início exacto da vida (consciente, táctil, meu).

há outras frustrações desta ordem mas, em virtude das altas concentrações de egocentrismo e tédio, por ião quadrado, na minha pessoa, recuso-me a redigi-las; prefiro senti-las.

as frustrações são para se sentir, não para se redigir.

o amor, sim, é para ser escrito (com as duas mãos).

e nós ainda tão tetrápodes.

a banda sonora das dores nas minhas mãos durante esta redacção:

"Poor Misguided Fool", by Starsailor

As soon as you sound like him

Give me a call

When you're so sensitive

It's a long way to fall

Whenever you need a home

I will be there

Whenever you're all alone

And nobody cares

You're just a poor misguided fool

Who thinks they know what I should do

A line for me and a line for you

I lose my right to a point of view

Whenever you reach for me

I'll be your guide

Whenever you need someone

To keep it inside

Whenever you need a home

I will be there

Whenever you're all alone

And nobody cares

You're just a poor misguided fool

Who thinks they know what I should do

A line for me and a line for you

I lose my right to a point of view

I'll be your guide in the morning

You cover up bullet holes

As soon as you sound like him

Give me a call

When you're so sensitive

Its a long way to fall

You're just a poor misguided fool

Who thinks they know what I should do

A line for me and a line for you

I lose my right to a point of view

Friday, May 02, 2008

olhares sobre o jardim - 2

in, Jornal do Algarve (extraído da edição online; 2008-03-20)
Um jardim secreto
Ana Oliveira
A companhia Azul Ama Vermelho estreou em Lisboa, no Teatro da Trindade, o espectáculo "Apenas Jardim". Uma alegoria ao sentimento de si e à descoberta de cada um de nós no seu jardim interior .
Com autoria e encenação de Hugo Amaro, a companhia Azul Ama Vermelho estreou a sua terceira produção na sala estúdio do Teatro da Trindade. Desta vez tratou-se da encenação de um texto criado expressamente para cinco personagens insólitas. Segundo o autor, "Apenas Jardim" partiu de um desafio muito simples: criar um espectáculo que pusesse em relação uma mulher que não tinha nada de especial e um contrabaixo. E essa interacção seria num jardim. No decorrer do desenvolvimento do projecto, acabaram por surgir novas personagens, como a Menina Bonsai, o Perchista do Pensamento e a Mulher do Chapéu, que retratam e figuram cada um dos cinco sentidos. Cinco personagens que simbolizam os cinco sentidos, todos num Jardim, um lugar imaginário. Desde a antiguidade que a metáfora do Jardim se conjuga com o mistério e com os diferentes estados de espírito. Para os românticos, a exploração do jardim contribuía para viajar nas angústias do pensamento. Neste espectáculo, o Jardim é uma das personagens e tem vida própria. Fala com o público em voz-off. É ele quem decide quem o habita. “O meu nome? Jardim, apenas Jardim. Querem encerrar-me, julgam-me malogrado. Ignoram que em mim só habita quem quero”. O jardim é dentro do espectador, é dentro de quem o vem ver. Este jardim é a representação de um plano metafórico do sonho criador, o espaço onde passamos, no momento em que adormecemos, quando vamos para o sonho ou quando voltamos do sonho, onde deixamos os resíduos do mundo real e do mundo onírico que nos completam. Hugo Amaro explicou: "Quando adormecemos, quando estamos no primeiro estádio do sono, vamos perdendo os sentidos por uma determinada ordem. Esse foi um dos elementos que me levaram a criar este conceito todo do jardim como um espaço onírico, mas não exactamente o espaço do sonho: o espaço da passagem". O sonho aqui é uma metáfora "de quem dorme e sonha efectivamente" mas também "o sonho dos nossos ideais, de lutar por aquilo que queremos, em que acreditamos e de estarmos em contacto connosco, com a nossa realização, sermos felizes". Depois de as personagens contarem a sua história e interagirem, este jardim imaginário revela ao espectador, num dos seus discursos, que é ele o seu dono - logo, o responsável pelo cansaço das personagens que o habitam, pela falta de sanidade e de vida, porque "deixou de olhar para dentro de si e se esqueceu, por falta de tempo, vontade e coragem, de adubar o seu jardim". "Partindo do princípio de que o espectador é um elemento que está alienado, a peça é uma crítica a um certo estado contemporâneo, a uma série de perturbações e poluições que temos no nosso dia-a-dia e que nos privam muitas vezes de estar em contacto e diálogo com o nosso jardim interior". As personagens que o povoam são Apenas Maria (paladar), a Menina Bonsai (visão), o Perchista do Pensamento (audição), o Contrabaixo (tacto) e a Mulher do Chapéu (olfacto). Maria, personagem encarnada pela actriz Alexandra Sargento, que a criou, é, como o jardim, Apenas Maria, sem outro nome próprio ou apelido - uma mulher sem nada de especial que não sabe rir e grava as gargalhadas dos outros, para ensaiá-las e escolher uma que possa tornar sua, enquanto espera que se materializem as coisas boas que a vida por certo lhe reserva. “Sem segundo nome, nem apelido. Como eu, é apenas; apenas Maria. Não ri; grava as gargalhadas alheias e ensaia uma que possa adoptar. Espera encontrar, aqui, aquilo de bom que sabe que a vida lhe reserva. A Menina Bonsai (Isabel Simões Marques), que se plantou, literalmente, no jardim, é sábia, quer crescer pouco e devagar por fora para poder crescer devagar por dentro e treme e chora enquanto cresce, porque vê os verdadeiros rostos do bem e do mal. É ela própria que diz: “Não sou profeta, muito menos um oráculo. Não tenho qualquer convergência com a divindade. Se quer que lhe diga, nem acredito no divino. Sou talvez visionária. Melhor do que isso, sou uma leitora atenta e assertiva, de tudo.” Ela é a detentora da visão de um futuro preocupante. As crianças do futuro: “Essas crianças, esses instrumentos de controlo, irão crescer e tornar-se igualmente obreiros. A capacidade de controlo e supervisão ir-se-á diluir ao longo da puberdade e da adolescência, para que, chegada a idade adulta, essas crianças se tornem obreiros incorruptíveis. É claro que todo este processo é feito de forma gradual e será apurado geração após geração. Chegará uma altura, num futuro não muito distante, após a guerra entre miúdos e graúdos, em que toda a gente será obrigada a procriar. E à nascença cada indivíduo é formatado, injectado com Uno Gnôsis, para que se torne um detector de desvios. Em apenas três gerações toda a população será obreira.” O Perchista do Pensamento (João Cabral) representa a audição e anda a ver se capta o silêncio absoluto. Este Jardim possibilitou-lhe a captação do pensamento alheio e ele acedeu, dessa forma, ao silêncio absoluto dos outros: a sua torrente interior, o que pertence ao domínio do não-dito. É ele que revela o cansaço que liga os cinco elementos: “Eu, tal como a menina, também estou muito cansado. Sinto-me exausto, mesmo. Estou completamente esgotado e quase prestes a desistir. Não sei se continuarei a vir a este jardim. O que aqui descobri parece ter-se dissolvido e não consigo evitar questionar-me se continua a valer a pena vir e estar aqui. O cansaço parece ter tomado conta do jardim. O cansaço e o esgotamento abateram-se sobre nós". Belíssima a imagem em que João Cabral e Isabel Simões Marques abrem as portadas sobre a cidade de Lisboa. O perchista fica a ouvir os sons da cidade e a Menina Bonsai a ver como a cidade corre. O Contrabaixo (João Custódio) é um rapaz que deixou de falar, tomando à letra um conselho que o pai lhe deu antes de morrer, segundo o qual, na vida, ele deveria ouvir mais do que falar, e passou a expressar-se tocando contrabaixo. A Mulher do Chapéu (Patrícia Bull), uma mulher fria, a quem falta o gene do amor, transporta consigo uma maldição: quem olhar o seu belo rosto apaixonar-se-á perdidamente por ela e será para sempre infeliz. "Dama selecta e bela. Tem de usar um chapéu com uma aba muito larga para que ninguém lhe possa avistar o rosto. Aquele que o vir apaixonar-se-á fatalmente e será eternamente infeliz. Falta-lhe o gene do amor. Aqui permanece, a ler romances e a cantar canções de amor." Uma ideia romântica que pretende desocultar os enigmas do inconsciente. Os figurinos contemporâneos reforçam a imagem de um jardim intemporal, transversal a todas as gerações. Com interpretações excelentes, "Apenas Jardim" é um espectáculo diferente e ousado que se desoculta a quem tiver a coragem de penetrar nos seus segredos. A ver no Teatro da Trindade até dia 14 de Abril.
na verdade, terminou a 13 de abril; como era previsto e suposto

Friday, March 28, 2008

sleep tight

não tenho bom, nem fácil, sono. adormeço mal, durmo mal, acordo mal. cansado vivo, durmo e acordo. cansado...mas há, contudo, coisas que não me preocupam: o sono, a certeza de que faço o que quero, escrevo o que quero, discorro sobre o que quero, trabalho sobre o que quero e sou o que quero. livremente, e com os riscos que quero (who gives a fucking shit), eu sou, sobretudo, reconhecido por aquilo que quero. durmo mal mas durmo como e com quem quero.
vou dormir. mal, mas como sei; como quero.
fiz um jardim para dormir, fiz um jardim para acordar e isso ninguém me tira. ninguém me tira porque eu não quero.
ainda bem que não há escolas de dormir, nem de acordar. ainda bem que não há escolas de naufragar.
eu não quero!

Monday, March 24, 2008

apenas jardim - Apenas Maria

Apenas Maria
O dia está triste, choroso, velado e assim estou eu. Chove, dentro e fora do jardim, há vento, frio: tempestade. Um temporal enorme, na cidade e em mim. Toda eu chovo por dentro. Um vórtice na cabeça, um terramoto no coração.
Tento ver-me, por fora e por dentro, na vidraça desta janela. Serei eu esta? Reconheço-me? Serei eu realmente esta? Que fiz eu? Que alcancei? Que adjectivos terei? Gostava de lhes poder perguntar mas não tenho coragem. Gostava que todos me pudessem qualificar, já que eu não o consigo. Estou cansada, muito cansada, doente talvez.
Qual será o sabor da alegria? O sabor de uma gargalhada? Qual será a sua textura? Posso morrer agora sem nunca ter aprendido a cantar. Gostava de ter aprendido uma canção alegre, calma, serena, uma canção de embalar. Gostava de ter aprendido uma lengalenga. Gostava de ter patinado no gelo e boiado no mar. Gostava de ter engolido neve. Gostava de ter podido tratar de cavalos, de ter andado um dia inteiro numa roda gigante de onde pudesse ter visto toda a cidade. Gostava de ter bordado lenços com versos de amor. Gostava de ter festejado todos os meus aniversários, dava tudo para ter podido apagar todas as velas. Se pudesse voltar atrás faria tudo por tudo para saber tocar harpa, para dançar nua no deserto, para pilotar um avião, para ter uma receita de um bolo só minha, para viver com índios e cowboys, para pintar as unhas de amarelo, para ter ajudado os doentes e desprotegidos, para ter decorado todas as capitais de todos os países do mundo. Quando era pequena o meu sonho era ser pirata. Lembro-me de na estória do Peter Pan me sentir muito mais inclinada para os vilões. Lembro-me do dia preciso em que me apaixonei pelo Capitão Gancho. Foi ao fim de tarde e eu imaginei-me a ser resgatada por ele, a ser feita prisoneira. Fantasiei tanto esse amor. Esperei-o durante anos. Ele nunca chegou a aparecer. O Peter Pan também não mas esse não me interessava, sempre o achei amaricado. Eu não queria voar, queria, isso sim, navegar. Queria enterrar tesouros, saquear fortunas, usar uma pala no olho, beber rum e passar toda a minha vida a rasgar mares e oceanos. Queria ser pirata. Queria uma vida de aventura e de risco. Queria uma vida especial. Especial. Sim, foi isso que sempre procurei, qualquer coisa especial. É tão óbvio, tão óbvio, que até chega ser ridículo; ao mesmo tempo que é altamente enternecedor. Eu, que nada tenho de especial, sempre esperei por tudo o que de especial a vida tivesse para me oferecer. Sempre estive dependente dessa oferta. E o que é que fiz para a merecer? Nada, nada de especial.
Nada de especial, foi a frase que mais ouvi durante toda a minha vida. Foi a frase que sempre me definiu. A frase com que me definiram logo assim que cheguei a este mundo. Sou a mais nova de sete irmãs, todas chamadas Maria. A primeira das minhas irmãs chama-se Maria Certeza porque os meus pais tinham a certeza absoluta da data em que a conceberam. A segunda chama-se Maria do Espanto porque todos ficaram espantados com a sua prematura beleza; os meus pais não eram exactamente bonitos. A terceira chama-se Maria do Fogo; no preciso momento em que veio ao mundo os céus encheram-se de luz e de cor, devido ao fogo de artifício, como que a celebrar o seu nascimento. A quarta chama-se Maria Eurovisão porque quando começou o trabalho do seu parto a minha mãe estava a ver o Festival Eurovisão da Canção e não pôde ver a Simone de Oliveira a cantar a desfolhada. A quinta chama-se Maria Lunar porque nasceu numa noite de eclipse da lua. A sexta chama-se Maria Buarque porque quando estava no ventre da minha mãe era muito irrequieta e só se acalmava quando ela punha a tocar a Ópera do Malandro. Eu sou a sétima filha e sou Maria. Sou apenas Maria, porque relacionado com o meu nascimento não sobreveio algo de particularmente especial. Os meus pais olharam para mim e nada lhes ocorreu, eu nada lhes inspirei. De seguida, olharam um para o outro e disseram: não tem nada de especial, fica Maria, apenas Maria.
E se eu morrer agora, o que há para dizer sobre mim? Possivelmente nada, nada de especial. Há uma coisa que sempre me destacou mas não é uma coisa especial. Não é especial porque não é feliz e as pessoas só consideram especial algo que é feliz, sublime, encantador. A minha quase especialidade não é encantadora, é triste, dissuasora. É uma falha, um handicap. Nunca fui capaz de produzir uma única gargalhada. Nunca me ri, nunca manifestei o mínimo indício de alegria. Nasci, cresci e possivelmente irei morrer sisuda. Procurei em vão até ao dia de hoje a minha gargalhada. Quando fiz doze anos ofereceram-me um gravador para que eu pudesse gravar os poemas de amor, sombrios e tristes, que tão bem sabia recitar. Não gravei um sequer. Em vez disso comecei a gravar sorrateiramente as gargalhadas das outras pessoas. Comecei por gravar as das minhas seis irmãs, depois as dos outros meninos na escola e depois as dos adultos. Ficava dias a fio de orelha colada às portas dos vizinhos, sempre atenta e pronta a gravar uma gargalhada quando esta do nada surgisse. Gravei milhares de gargalhadas em toda a minha vida. Reproduzi, em rigorosíssimos ensaios, cada uma delas até à exaustão. Ainda o faço. Mas nenhuma delas me serve, nenhuma me adoptou. Sei que não é assim que vou encontrar a minha própria gargalhada mas não consigo evitar a gravação e a reprodução das alheias. Tornou-se um vício. Sim, tenho de admitir; admitir sobretudo para mim mesma: o que faço não é mais do que um vício. Vazio, falsamente compensador, autoritário como todos os vícios. Os vícios são tiranos e nós tão pequenos. Os vícios não são nada de especial.

Wednesday, March 19, 2008

olhares sobre o jardim



quem escreve assim não é, certamente, arisco!

(clicar na imagem para a poder desfrutar na sua plenitude)