
Monday, September 14, 2009
Sunday, September 13, 2009
o que consta hoje
aqui fica a citação proposta por onan, em "a voz de onan", como o que deve constar hoje neste diário:
Saturday, September 12, 2009
achtung 4
("a voz de onan" irá ouvir-se na festa agradável: espaço ginjal, cacilhas a partir das 23h)
Wednesday, September 09, 2009
os contributos de onan (para a festa agradável)
a voz de onan:
os duplos não se fazem, os duplos acontecem. há sete anos aconteceu-me o duplo: onan. vai fazer em Novembro próximo cinco anos que lhe dei um espaço: http://odiariodeonan.blogspot.com. não sei se fui realmente eu quem lhe deu esse espaço ou se foi ele, o meu duplo, quem me deu essa oportunidade e o fez acontecer. os duplos fazem e acontecem. o meu duplo quer acontecer cada vez mais: quer apresentar-se before my eyes; eu também quero. quero vê-lo inteiro. mas antes será preciso ouvi-lo. ele pede-me, cordialmente, a voz e eu, de boa vontade, lha darei. os duplos não se fazem ouvir; acontecem e apoderam-se das palavras e da voz. somos nós quem tem de os saber ler e escutar; saber ceder-lhes toda e qualquer substância. não deixo, no entanto, de (pres)sentir que isto é ainda e apenas um começo. o desfecho é-me totalmente incógnito; assim como o é, seguramente, para o meu duplo.
interpretação: hugo amaro e onan
vídeo: ricardo batista
adereços e figurinos: tânia franco
contributo 2
silicone lady:
a mais ilustre desconhecida banda portuguesa chamava-se: nude. há cerca de três anos extinguiu-se. agora, três dos seus sobreviventes criaram uma fénix de silicone e, num impulso harakiri, decidiram-se, com meia dúzia de ensaios, voltar a apresentar-se ao vivo (tais eram as ganas/saudades). revisitam-se temas inéditos extintos e versões muito estimadas, num outro prisma.
os lords da lady são:
filipe luig: teclados, guitarras
hugo amaro: voz
nuno varudo: teclados e programações
Saturday, September 05, 2009
Monday, August 24, 2009
Wednesday, August 19, 2009
a sorta rise and shine
Saturday, August 15, 2009
Sunday, August 09, 2009
telefone
Saturday, August 08, 2009
past participle
under a sun that ocasionaly shines,
even read some strange lines,
and
the story never defines
underneath,
lies the fact that here he only finds sketches
never real and efective strength of character designs.
foi ver e era o past participle.
Thursday, August 06, 2009
o pião/peão
o pião (ou peão, ambos servem, tanto faz) faz um desenho equilátero,
ata e desata nós no cordel
que nada mais é do que a narrativa
da sua atabalhoada fuçanguice, para ir parar longe: ao teatro.
mas, vai-se a ver, e é tudo por amor, tudo.
onan, claro está, aprecia o espectáculo, onaniza-se e, como sempre, ri-se (muito).
Saturday, August 01, 2009
o visitante
não tinha olhar e, por isso mesmo, os seus olhos nada mais viam do que o movimento dos olhos dos outros; via ver e assim se convencia de que era vidente.
falava não por ter um discurso mas por piamente acreditar que tinha realmente de, em determinado momento, proferir quando uns olhos nos seus se fix...
quero lá saber de náufragos se eu sou o antes, o durante, o depois das vagas, a voz inteira das marés e consciência pura do salitre enquanto namora as âncoras.
sou o mar; és apenas a vontade menina de nadar (sem sequer o saber aprender a fazer).
a tinta compadece-se sempre de quem nunca será um livro.
Friday, July 31, 2009
Monday, July 20, 2009
a ausência do poema
Thursday, July 09, 2009
Thursday, January 15, 2009
os filhos de hédon (work in progress: actualizado a 08/04)
27/01
falemos, então e agora, das noites em Hédon. quando do céu o sol se evade e sua ausência num dinâmico manto, a o seu próprio ritmo e vontade, da cor do sempre o firmamento torna, começa em Hédon a sentir-se o efeito dessa operação. os sangues começam a apressar-se e existem zonas nos corpos que, quais magnetes transcendentais, imprimem à circulação do fluxo dessas substâncias, que, caso possam ser degustadas, das mesmas se dirá estarem carregadas de diversas e aleatórias ligas de diversos e aleatórios metais, uma velocidade por todos conhecida ou, pelo menos, sentida mas por nenhuns successfully explicada.
01/02
as noites em Hédon não são apenas o fruto da voz e da fúria do sangue; são o dentro, o interior absoluto do sangue em si mesmo.
17/02
pedimos ao prezado leitor que, caso a sua paciência demonstre a vontade de fraquejar, se retraia e tente ultrapassar o facto de o nosso relato se revelar ziguezagueante. a hesitação faz parte de Hédon e a verdade é que, uma vez mais, deixaremos em suspenso a descrição de uma das suas faces para, em seu lugar, aprofundar a dissecação de outra. nesse sentido, deixemos a noite por exaurir, numa outra ocasião, e passemos à caracterização, o mais afincada possível, do dia.
o dia em Hédon nasce muitas vezes.
08/04
não será certo, ou recomendável, adiantar a quantidade de vezes que o dia em Hédon nasce. porque em Hédon o dia não se afirma como um todo; é uma entidade plurimórfica, mutante e altamente contraditória. o dia desfaz-se, refaz-se e contrafaz-se; e todos esses processos em nada são previsíveis, sistemáticos ou classificáveis. muito menos possível é, prezado leitor, assinalar as causas que esses fenómenos vêm determinar. apenas os efeitos são detectáveis e sobre eles, por falta de vontade de o fazer mais tardiamente, focaremos agora a nossa narração.
há três espécies de efeitos que o dia em Hédon provoca:
1- a presença presente
2- a presença ausente
3- a fuga
1: a presença presente é um efeito imediatamente detectável, não somente pela força da redundância mas, sobretudo, pela força da relação dialéctica entre aquilo que o dia emana/produz, a cogitação sobre essa produção e o discurso sobre essa cogitação (em análise última, sempre sobre a emanação/produção per si; sendo esta a única parcela que comporta irrefutável factualidade). quando a presença é presente está constantemente a tentar estabelecer pontes, mais ou menos sólidas e bem fundamentadas, com a emanação/produção dos dias, a sua verdadeira verdade , o que a precedeu, a sua presente configuração e sobre o que a fará perdurar ou não (o teste tende a ser permanente). a presença presente tem como máximas intenções o aprisionamento do tempo e a certeza (no fundo ansiedade) da solidez do espaço. a presença presente é hipercinética, altamente analítica, voraz, dinamizadora, eufórica, ferozmente ligada à ideia de verdade, instável, combativa, intensa, séria, convicta da sua própria clareza, arrebatada, amante, sedenta de espelhamento, de empatia, de entrega, de certezas, de profundidade, de perenidade, de inteligibilidade, de entendimento, de discurso, de amor; no fundo, sendenta de presença. é esta presença que faz com que o amor seja a matéria transversal da arte, porque é ela, a presença presente, apesar de tudo e por amor, a própria vontade da arte.
(a desenvolver posteriormente)
2: a presença ausente é, com efeito, um efeito cuja dificuldade na sua detecção se alimenta a si mesma. a presença ausente nunca deixa de ser presente mas essa presença não é imediatamente classificável; usa o tempo e o espaço de uma forma que é irregular e que está em permamente digestão desse mesmo uso. pode dizer-se que, com frequência, ao caminhar sobre a areia, esta presença, nesta não deixa as suas pegadas; isto porque o que para si assume é que se encontra a caminhar sobre água.
Monday, December 15, 2008
quatro anos
Friday, October 31, 2008
a draft (i do not know where it goes)
o redesenho tinha a sua dificuldade. era complexo, rígido, àspero, estava carregado de atrito.
Tuesday, September 16, 2008
o amor que existe
e mãos de bailarina
e voa como o vento
e abraça-me onde a solidão termina
o meu amor tem trinta mil cavalos
a galopar no peito
e um sorriso só dela
que nasce quando a seu lado eu me deito
o meu amor ensinou-me a chegar
sedento de ternura
sarou as minhas feridas
e pôs-me a salvo para além da loucura
o meu amor ensinou-me a partir
nalguma noite triste
mas antes, ensinou-me
a não esquecer que o meu amor existe
"o meu amor existe", jorge palma
Saturday, August 02, 2008
o coração
i've been away because my heart is full of love!
Saturday, July 19, 2008
blame canada 7
voltaste!!!
ainda não consegui, nem de perto, nem de longe, aniquilar a saudade.
mon amour,
l'aventure (re)commence.
Tuesday, July 15, 2008
blame canada- 6
no entanto,
"a saudade é uma espera
é uma aflição
se é primavera
é um fim de outono
um tempo morno
é quase verão
em pleno inverno
é um abandono"
in, "porque não me vês", de fausto
it feels good to feel feelings for you! (would sound nice in one of our songs, no?)
Sunday, July 13, 2008
blame canada- 5
Friday, July 11, 2008
blame canada- 4
in a week we will, finally, be in each other's arms!
"into my arms", by nick cave
I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
Wednesday, July 09, 2008
Monday, July 07, 2008
blame canada- 3
this is what i feel and it tastes good to feel what other people wrote.
flowers in the window (by travis)
When I first held you I was cold
A melting snowman I was told
But there was no one there to hold
Before I swore that I would be alone forever more
Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
There is no reason to feel bad
But there are many seasons to feel glad, sad, mad
It's just a bunch of feelings that we have
To hold
But I am here to help you with the load
Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
So now we're here and now is fine
So far away from there and there is time, time, time
To plant new seeds and watch them grow
So there'll be flowers in the window when we go
Wow look at us now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, up in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
Let's watch the flowers grow!
tum tum, tum tum, tum tum
("you know i feel it in my heartbeat...
wich makes me feel like the only one,
the only one,
that the light shines on")
Wednesday, July 02, 2008
blame canada- 2
where i guess you wish me not-
been down there, really there,
you can bet i'm not a slut
been down there, really there,
just to make myself alive,
there, really there,
without you i can't survive
been down there, really there,
oh, such cute boys,
been down there, really there,
look at them and i see: toys
been down there, really there,
and i walk with no regret
been down there, really there,
what i've waisted i'll forget
been down there, really there,
and always think of you
so much faster, so much better, perfect,
you'll never sever , i wont do that too.
esta rima é pobre, fraca, despropositada. não está à tua altura. i'm drunk, really drunk, so much drunk. tu, meu querido e defendido amor, não mereces que eu te conspurque com esta leitura/redacção. mas eu vou fazê-lo. tenho de fazê-lo, não posso deixar de fazê-lo. estive no antro, naquele antro de que já algumas vezes te falei. não me arrependo, de todo, estive lá e gostei. nada me tocou, nada me moveu, realmente cá dentro, nada me abalou, nada. estive, vi, fui visto, falei, deixei falar e vim... vim para ti... expressamente para ti.
vim para te encontrar, no simples acto de te escrever. vim para ti. regressei-te, no simples acto de me recolher. porque recolher-me, sem ti, já não é o mesmo verbo. vim morar aqui, onde quero que tu mores, tu ouças, tu chores. vim adormecer na dor, calma e, ainda amena, certeza de não te ter. vim pensar em ti. i've been down there e tu nunca me saíste da cabeça. não houve, sequer, um segundo de hesitação. sou teu e tudo o resto é um espectáculo, uma parefernália, uma triste exibição,
bem, fiz aqui uma pausa de mais de dez minutos. borrifei-me para a anterior composição. fodi-me todo, esta noite, porque assim o decidi. fodi-me, tomei essa decisão, enquanto via e escutava, com miguel, pedro, mari, a rita lee. fizeste-me falta ali. pensei, durante o concerto, tanto em ti. faria todo o sentido ter-te ali. estiveste. hei-de contar-te. miss you so much. vou dormir. tu, estiveste ali. é isso que é maravilhoso no amor: faz alguém estar onde nunca sonha estar. decerto, estou onde não estou. eu sei disso. e tu, só tu, estás aqui.
beijo-te a amo-te como só eu sei (eu sei).
i miss our waking up.
you are my fellow and, you know, my guy.
(escrevo-te aqui porque este, aqui, sou, realmente, eu.)
"fique bem,
fique forte.
não temos tempo
para temer a morte"
rita lee, in pic-nic
Monday, June 30, 2008
blame canada - 1
i'll wait for you always (how can't i?)
Thursday, May 15, 2008
poor misguided fool
- a frescura de um jacto de água que me venha, realmente, refrescar o cérebro (tão despido, tão sem qualquer tipo de revestimento, tão escancarado, tão prostrado a este céu; tão poucas vezes aberto).
- o interior absoluto da parede que separa, há longos e longos anos, a minha casa do precipício, feroz/delicioso, que é a rua.
- o início exacto da vida (consciente, táctil, meu).
há outras frustrações desta ordem mas, em virtude das altas concentrações de egocentrismo e tédio, por ião quadrado, na minha pessoa, recuso-me a redigi-las; prefiro senti-las.
as frustrações são para se sentir, não para se redigir.
o amor, sim, é para ser escrito (com as duas mãos).
e nós ainda tão tetrápodes.
a banda sonora das dores nas minhas mãos durante esta redacção:
"Poor Misguided Fool", by Starsailor
As soon as you sound like him
Give me a call
When you're so sensitive
It's a long way to fall
Whenever you need a home
I will be there
Whenever you're all alone
And nobody cares
You're just a poor misguided fool
Who thinks they know what I should do
A line for me and a line for you
I lose my right to a point of view
Whenever you reach for me
I'll be your guide
Whenever you need someone
To keep it inside
Whenever you need a home
I will be there
Whenever you're all alone
And nobody cares
You're just a poor misguided fool
Who thinks they know what I should do
A line for me and a line for you
I lose my right to a point of view
I'll be your guide in the morning
You cover up bullet holes
As soon as you sound like him
Give me a call
When you're so sensitive
Its a long way to fall
You're just a poor misguided fool
Who thinks they know what I should do
A line for me and a line for you
I lose my right to a point of view
Friday, May 02, 2008
olhares sobre o jardim - 2
Ana Oliveira
Friday, March 28, 2008
sleep tight
vou dormir. mal, mas como sei; como quero.
fiz um jardim para dormir, fiz um jardim para acordar e isso ninguém me tira. ninguém me tira porque eu não quero.
ainda bem que não há escolas de dormir, nem de acordar. ainda bem que não há escolas de naufragar.
eu não quero!
Monday, March 24, 2008
apenas jardim - Apenas Maria
O dia está triste, choroso, velado e assim estou eu. Chove, dentro e fora do jardim, há vento, frio: tempestade. Um temporal enorme, na cidade e em mim. Toda eu chovo por dentro. Um vórtice na cabeça, um terramoto no coração.
Tento ver-me, por fora e por dentro, na vidraça desta janela. Serei eu esta? Reconheço-me? Serei eu realmente esta? Que fiz eu? Que alcancei? Que adjectivos terei? Gostava de lhes poder perguntar mas não tenho coragem. Gostava que todos me pudessem qualificar, já que eu não o consigo. Estou cansada, muito cansada, doente talvez.
Qual será o sabor da alegria? O sabor de uma gargalhada? Qual será a sua textura? Posso morrer agora sem nunca ter aprendido a cantar. Gostava de ter aprendido uma canção alegre, calma, serena, uma canção de embalar. Gostava de ter aprendido uma lengalenga. Gostava de ter patinado no gelo e boiado no mar. Gostava de ter engolido neve. Gostava de ter podido tratar de cavalos, de ter andado um dia inteiro numa roda gigante de onde pudesse ter visto toda a cidade. Gostava de ter bordado lenços com versos de amor. Gostava de ter festejado todos os meus aniversários, dava tudo para ter podido apagar todas as velas. Se pudesse voltar atrás faria tudo por tudo para saber tocar harpa, para dançar nua no deserto, para pilotar um avião, para ter uma receita de um bolo só minha, para viver com índios e cowboys, para pintar as unhas de amarelo, para ter ajudado os doentes e desprotegidos, para ter decorado todas as capitais de todos os países do mundo. Quando era pequena o meu sonho era ser pirata. Lembro-me de na estória do Peter Pan me sentir muito mais inclinada para os vilões. Lembro-me do dia preciso em que me apaixonei pelo Capitão Gancho. Foi ao fim de tarde e eu imaginei-me a ser resgatada por ele, a ser feita prisoneira. Fantasiei tanto esse amor. Esperei-o durante anos. Ele nunca chegou a aparecer. O Peter Pan também não mas esse não me interessava, sempre o achei amaricado. Eu não queria voar, queria, isso sim, navegar. Queria enterrar tesouros, saquear fortunas, usar uma pala no olho, beber rum e passar toda a minha vida a rasgar mares e oceanos. Queria ser pirata. Queria uma vida de aventura e de risco. Queria uma vida especial. Especial. Sim, foi isso que sempre procurei, qualquer coisa especial. É tão óbvio, tão óbvio, que até chega ser ridículo; ao mesmo tempo que é altamente enternecedor. Eu, que nada tenho de especial, sempre esperei por tudo o que de especial a vida tivesse para me oferecer. Sempre estive dependente dessa oferta. E o que é que fiz para a merecer? Nada, nada de especial.
Nada de especial, foi a frase que mais ouvi durante toda a minha vida. Foi a frase que sempre me definiu. A frase com que me definiram logo assim que cheguei a este mundo. Sou a mais nova de sete irmãs, todas chamadas Maria. A primeira das minhas irmãs chama-se Maria Certeza porque os meus pais tinham a certeza absoluta da data em que a conceberam. A segunda chama-se Maria do Espanto porque todos ficaram espantados com a sua prematura beleza; os meus pais não eram exactamente bonitos. A terceira chama-se Maria do Fogo; no preciso momento em que veio ao mundo os céus encheram-se de luz e de cor, devido ao fogo de artifício, como que a celebrar o seu nascimento. A quarta chama-se Maria Eurovisão porque quando começou o trabalho do seu parto a minha mãe estava a ver o Festival Eurovisão da Canção e não pôde ver a Simone de Oliveira a cantar a desfolhada. A quinta chama-se Maria Lunar porque nasceu numa noite de eclipse da lua. A sexta chama-se Maria Buarque porque quando estava no ventre da minha mãe era muito irrequieta e só se acalmava quando ela punha a tocar a Ópera do Malandro. Eu sou a sétima filha e sou Maria. Sou apenas Maria, porque relacionado com o meu nascimento não sobreveio algo de particularmente especial. Os meus pais olharam para mim e nada lhes ocorreu, eu nada lhes inspirei. De seguida, olharam um para o outro e disseram: não tem nada de especial, fica Maria, apenas Maria.
E se eu morrer agora, o que há para dizer sobre mim? Possivelmente nada, nada de especial. Há uma coisa que sempre me destacou mas não é uma coisa especial. Não é especial porque não é feliz e as pessoas só consideram especial algo que é feliz, sublime, encantador. A minha quase especialidade não é encantadora, é triste, dissuasora. É uma falha, um handicap. Nunca fui capaz de produzir uma única gargalhada. Nunca me ri, nunca manifestei o mínimo indício de alegria. Nasci, cresci e possivelmente irei morrer sisuda. Procurei em vão até ao dia de hoje a minha gargalhada. Quando fiz doze anos ofereceram-me um gravador para que eu pudesse gravar os poemas de amor, sombrios e tristes, que tão bem sabia recitar. Não gravei um sequer. Em vez disso comecei a gravar sorrateiramente as gargalhadas das outras pessoas. Comecei por gravar as das minhas seis irmãs, depois as dos outros meninos na escola e depois as dos adultos. Ficava dias a fio de orelha colada às portas dos vizinhos, sempre atenta e pronta a gravar uma gargalhada quando esta do nada surgisse. Gravei milhares de gargalhadas em toda a minha vida. Reproduzi, em rigorosíssimos ensaios, cada uma delas até à exaustão. Ainda o faço. Mas nenhuma delas me serve, nenhuma me adoptou. Sei que não é assim que vou encontrar a minha própria gargalhada mas não consigo evitar a gravação e a reprodução das alheias. Tornou-se um vício. Sim, tenho de admitir; admitir sobretudo para mim mesma: o que faço não é mais do que um vício. Vazio, falsamente compensador, autoritário como todos os vícios. Os vícios são tiranos e nós tão pequenos. Os vícios não são nada de especial.
Wednesday, March 19, 2008
olhares sobre o jardim
Monday, March 10, 2008
Monday, March 03, 2008
Wednesday, February 27, 2008
apenas jardim- diálogo: menina bonsai e perchista do pensamento
É curiosa e surpreendente a sua explicação. A sua primeira quadra apresenta um significativo volte-face na concepção que a literatura habitualmente nos dá das distopias. É como se se desse uma inversão da forma.
Menina Bonsai
Sim, a inversão está apenas na forma. Nem será exactamente uma inversão; será um apuramento, um reajuste da forma. O conteúdo, esse, manter-se-á intacto.
Perchista do Pensamento
Sim, o conteúdo sim; o controle, a repressão, o condicionamento, a massificação e a anulação do indivíduo estão certamente presentes.
Menina Bonsai
Sim, estão presentes; estão no presente. É por isso, que tão claramente, estarão no futuro. A distopia não é apenas fantasia da literatura e do cinema. É, para alguns, ainda uma vaga e indefinida presença no presente mas uma certeza no futuro.
Perchista do Pensamento
Se o George Orwell soubesse que se enganou apenas nas dimensões do brother certamente iria rir-se muito. Mal sabia ele que no futuro, segundo a sua quadra, o indivíduo não é controlado pelo Big Brother mas pelo Smaller Brother. (ri-se)
Menina Bonsai
Na verdade, o que ele define como Big Brother não deixa de existir. O Big Brother terá apenas outro nome: Uno Tenore. O Smaller Brother, como lhe chama, ou Smaller Brothers, pois serão imensos, não passarão de instrumentos de controlo desse Uno Tenore.
Perchista do Pensamento
Mas, diga-me uma coisa, essas crianças serão criaturas biónicas, simulacros de seres humanos pequenos? É isso? Ou serão seres humanos normais? Vão crescer, por exemplo?
Menina Bonsai
Serão seres humanos perfeitamente normais. Na verdade, muito poucas criaturas serão biónicas, porque as criaturas biónicas servirão para tarefas específicas. Terão poderes particulares que não serão acessíveis ao comum mortal. E, sim, essas crianças, esses instrumentos de controlo, irão crescer e tornar-se igualmente obreiros. A capacidade de controlo e supervisão ir-se-á diluir ao longo da puberdade e da adolescência, para que, chegada a idade adulta, essas crianças se tornem obreiros incorruptíveis. É claro que todo este processo é feito de forma gradual e será apurado geração após geração. Chegará uma altura, num futuro não muito distante, após a guerra entre miúdos e graúdos, em que toda a gente será obrigada a procriar. E à nascença cada indivíduo é formatado, injectado com Uno Gnôsis, para que se torne um detector de desvios. Em apenas três gerações toda a população será obreira.
Perchista do Pensamento
Está mesmo convencida disso?
Menina Bonsai
Plenamente. Esta é uma parte do futuro, totalmente inscrita no presente. Basta olhar para as crianças de agora, ou melhor, para as relações que temos com as crianças de agora. Para a forma como lidamos com elas, como as formatamos, como as defendemos e ofendemos. Basta, também, olhar para nós, para a nossa credulidade, para o nosso alheamento, para a nossa inércia. Basta ler o presente.
Perchista do Pensamento
Deve ser muito ingrato ser-se, como a menina, uma espécie de oráculo, profeta.
Menina Bonsai
(rindo-se) Não sou profeta, muito menos um oráculo. Não tenho qualquer convergência com a divindade. Se quer que lhe diga, nem acredito no divino. Sou talvez visionária. Melhor do que isso, sou uma leitora atenta e assertiva, de tudo. Sabe qual é o meu nome?
Perchista do Pensamento
Não, ainda não. Ainda não necessitei de saber.
Menina Bonsai
Bonsai, Menina Bonsai. Represento a visão.
Perchista do Pensamento
Sim, isso eu já tinha percebido. Já tinha percebido que a menina era a visão. Agora Bonsai…
Menina Bonsai
Comecei a tremer muito cedo, sabe!? E quando isso aconte…
Perchista do Pensamento
(interrompendo-a) Segundo o René Chár é preciso tremer para crescer.
Menina Bonsai
Oh, também conhece René Chár?
Perchista do Pensamento
Aqui todos conhecemos René Chár.
Este fanático das nuvens
Mulher do Chapéu
Tem o poder sobrenatural
Apenas Maria
De deslocar para distâncias consideráveis
Menina Bonsai
As paisagens habituais.
Perchista do Pensamento
Começou, então, a tremer muito cedo? Isso quer dizer que começou a crescer muito cedo?
Menina Bonsai
Sim, em criança era portadora de crescimento precoce. Um dia equivalia para mim a uma semana. Esse crescimento precoce era mais interior do que exterior, apesar de também acontecer no exterior. Não era envelhecimento precoce, como acontece a quem padece de progeria. Eu crescia muito velozmente, apenas isso. Assimilava tudo muito rápida e assertivamente. O que se passou foi que eu amadureci muito cedo e passei a ver o mundo distintamente quando era ainda muito pequena. Percebi o mundo de rajada e isso passou a aterrorizar-me. Forcei-me então a crescer pouco e mais lentamente. Quase como o Oskar, a personagem central de “O Tambor”, de Günter Grass. Mas Oskar conseguiu deixar de crescer; eu não. Apenas alterei a forma de crescer. Sobretudo aqui; este jardim possibilitou-me isso. Mas, por agora, não me apetece falar mais de mim. Estou cansada. Estou turva e desfocada. Vou fechar os olhos. Fale-me de si, nunca o ouvi falar de si. Faça por mostrar-se, tenho os olhos bem fechados e agora não posso vê-lo. Deixe-me ouvi-lo ser.
Perchista do Pensmento
Eu, tal como a menina, também estou muito cansado. Sinto-me exausto, mesmo. Estou completamente esgotado e quase prestes a desistir. Não sei se continuarei a vir a este jardim. O que aqui descobri parece ter-se dissolvido e não consigo evitar questionar-me se continua a valer a pena vir e estar aqui. O cansaço parece ter tomado conta do jardim. O cansaço e o esgotamento abateram-se sobre nós.
Menina Bonsai
(alheada, exausta) É verdade. Sim, isso é verdade.
Wednesday, February 13, 2008
apenas jardim - Menina Bonsai

Está bem, vou decifrar-te, então, a quadra que teimas em designar de enigma.
Primeiro verso: as crianças são alarmes prontos a disparar.
Com a tomada de consciência das falácias dos sistemas morais, sociais, políticos, filosóficos e religiosos das sociedades capitalistas, as crianças vão, num futuro muito próximo, aperceber-se da dimensão do seu próprio poder nessas mesmas sociedades. Vão autonomizar-se e organizar-se entre si; formarão sociedades secretas que se afirmarão como simulacros das sociedades dos que eles chamarão “os graúdos”; quase à semelhança do que William Golding descreve na sua obra “O Senhor das Moscas”. Essas infanto-sociedades serão, no entanto, altamente subversivas e entrarão em choque e inevitável confronto com as formas comuns de poder instituído. Miúdos e graúdos, e seus respectivos governantes, entrarão numa guerra sem precedentes na história da Humanidade e a partir daí todo o sistema de valores morais, sociais, políticos e filosóficos será reformulado. Os grandes derrotados dessa guerra serão os miúdos e estes tornar-se-ão fontes de informação e poderosas armas de controlo do resto da população. Viver-se-á, em todo o ocidente, sob a jurisdição de um regime totalitário que regerá todas as nações. Chamar-se-á Uno Tenore e as crianças serão a grande arma desse regime. Serão elas os permanentes alarmes. Todo e qualquer ser adulto terá de estar em permanente contacto com, pelo menos, uma criança. Essa criança será o seu regulador moral e avaliará constantemente o grau de subserviência ou, pelo contrário, de rebelião que o adulto manifesta em relação ao regime. As crianças serão os grandes examinadores e estarão permanentemente a testar os cidadãos. Avaliarão um adulto mediante o teor de informação que este lhe transmite, avaliando também a qualidade dessa informação. Avaliarão, portanto, o grau de conhecimento do adulto e a conformidade que este apresenta relativamente às normas de conhecimento vigente - o chamado Uno Gnôsis. Qualquer dado minimamente desviante será detectado pela criança e imediatamente endereçado ao Comité Único que se encarregará de abrir um inquérito para avaliar o grau de desvio que o sujeito apresenta relativamente ao conhecimento definido, estipulado e imposto pelo Uno Tenore. Caso o grau de desvio seja inferior a 25% o sujeito sofrerá apenas um refresh ontos e poderá retomar a sua vida normal, apesar de ficar cadastrado. Se o grau de desvio do sujeito estiver situado entre os 25 e 50% ser-lhe-á imputado o delito de subversão e aplicado um finis praxis. Ou seja, o sujeito será impedido de formular qualquer empresa subjectiva. Após essa medida ser aplicada, o sujeito, passará, então, por todo o processo de nouveau self e trabalhará directamente para o Comité Único como formador de Uno Gnôsis. Caso o grau de desvio de gnose seja superior a 50% o sujeito será pura e simplesmente deleted, ou seja, apagado.
O segundo verso da quadra preende-se com o amor. Diz: controlam os adultos pela qualidade do amor que estes estão a dar.
As crianças avaliarão não a quantidade de amor que um adulto lhes devota, e por conseguinte a tudo o resto, mas definirão, isso sim, a qualidade desse amor. Os três graus de qualidade de Uno Love serão: mau, bom e óptimo. Se o Uno Love for mau o sujeito será imediatamente infatuated, pois não apresenta níveis de amor e devoção suficientes para com Uno Tenore e, logo, não será um bom obreiro. Se o Uno Love for bom e estável, então, não há qualquer alarme; o indivíduo é afim, devoto e conforme e, por conseguinte, um bom obreiro. Se o Uno Love for óptimo o sujeito será isolado e ser-lhe-ão ministrados love depressors, pois apresenta graves tendências para a dissonância, exacerbamento, subversão, pedofilia, lirismo, e fracas capacidades obreiras. Em caso de confirmação de perfil pedófilo, dissonante ou lírico, o sujeito, será imediatamente deleted.
Os restantes versos: "neste grande inquérito somos todos iguais e obrigados a responder" e "as crianças são alarmes: obrigam-nos a ser o que devemos ser", falam por si mesmos e apenas sintetizam tudo aquilo que acabo de explicar.









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